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id da página: 9828 Henry Corbin – No Islame Iraniano II – Kay Khosraw Henry Corbin

Corbin Kay Khosraw


CORBIN, Henry. En Islam iranien: aspects spirituels et philosophiques II. Paris: Gallimard, 1991

Da filosofia peripatética à teosofia oriental: uma conversão decisiva

  • A crítica inicial de Sohrawardi: Em sua juventude, Sohrawardi se dedicou à filosofia peripatética, que limitava o número de inteligências angélicas a um número irrisório (dez ou cinquenta e cinco). Ele percebeu que essa cosmologia não podia explicar a infinita variedade do mundo da luz, que é anterior e superior ao mundo das trevas e das aparências.
  • O "choque" da angelologia: A conversão espiritual de Sohrawardi ocorreu com a revelação da angelologia, a ciência dos seres de luz. Sua descoberta rompeu com os limites da astronomia de Aristóteles e Ptolomeu, alinhando-se à antiga sabedoria persa que via as hierarquias angélicas como a realidade suprema.
  • O testemunho dos extáticos: Sohrawardi baseia sua doutrina no testemunho de profetas e sábios que, como ele, tiveram visões extáticas, como Hermes, Empédocles e, especialmente, Platão (que, na verdade, se refere a Plotino). Ele compara a visão de Plotino das "Esferas de luz" à visão de Maomé dos "setenta e sete véus de luz", afirmando que o conhecimento espiritual é uma certeza direta, superior à lógica ou à mera especulação.
  • A superação do ceticismo: Sohrawardi, que antes defendia o racionalismo, passou a rejeitar a negação daqueles que não tiveram a experiência visionária. Ele argumenta que quem não viu a luz não pode julgar validamente o testemunho de quem a viu, e convida o cético a se submeter a exercícios espirituais para alcançar o "sentido visual do além" (hiss basari okhrawi).

A visão da Luz de Glória e a hierarquia angélica

  • A fonte da sabedoria oriental: Sohrawardi revela que todas as formas e espécies do mundo material são ícones ou sombras das formas de luz imateriais que existem no mundo da Inteligência. O autor teve uma visão direta dessas Luzes, que são as "fontes da Luz de Glória e da Soberania de Luz" (yanabi' al-Khorrah wa al-Ray).
  • As fontes persas: As expressões utilizadas por Sohrawardi, como yanabi' al-Khorrah e yanabi' al-Ruy, têm origem na língua avéstica e persa, indicando que ele não improvisou sua doutrina, mas se baseou em uma tradição antiga. As "fontes da beleza" (yanbu' al-baha') e "fontes da vida" (yanabi' al-hayat) são equivalentes que designam o mesmo princípio.
  • A visão de Zoroastro e Kay Khosraw: Sohrawardi atesta que a sabedoria dos antigos persas, em particular a de Zoroastro e do rei Kay Khosraw, se baseava na visão direta de um mundo espiritual (minovi ou menok) que irradia uma Luz de Glória (Khorrah) sobre as almas perfeitas. Kay Khosraw, por exemplo, alcançou o conhecimento da Luz de Glória real (Kayan-Khorrah) através da sua união com a sabedoria celeste (Sophia).
  • O "Kayan-Khorrah" e a realeza mística: O Kayan-Khorrah é a mais sublime manifestação da Luz de Glória, que confere a seu detentor a sabedoria, a realeza mística e o poder de liderar o mundo. Sohrawardi vê em Kay Khosraw e no Imã oculto do xiismo a encarnação deste Sábio real, que, mesmo invisível, governa o mundo através de sua autoridade espiritual.
  • A Natureza Perfeita (al-Tib' al-tamm): O <a href="Xvarnah" title="Xvarnah" class="wiki wiki_page">Xvarnah</a> se manifesta como a "Natureza Perfeita" (al-Tib' al-tamm), uma forma de luz que é o companheiro eterno do Sábio, o guia para a ascensão hierática. Essa noção, que une a sabedoria persa e a hermética, é a chave para a gnose de Sohrawardi.
  • A cosmologia das luzes: Sohrawardi descreve uma hierarquia angélica que emana da Luz das Luzes (Nur al-Anwar), a qual os antigos persas chamavam Xvarnah. Ele nomeia os arcanjos zoroastrianos como Luzes Vitoriais (Anwar qahira), destacando o papel do Anjo do Sol (Hurakhsh) como mediador das grandes êxtases.
  • A visão como metamorfose: O conhecimento para Sohrawardi não é um conceito teórico, mas uma irradiação hierática que se manifesta na essência do ser, transformando-o. O sábio que se torna Luz pode atuar sobre o mundo material, realizando atos que parecem milagrosos para os ignorantes.

A busca da Fonte Oriental

  • As condições do peregrino: Sohrawardi estabelece condições rigorosas para o estudo de sua obra. O buscador deve ter aspirações místicas e filosóficas, e já ter sido atingido pelo Relâmpago Divino (al-bariq al-ilahi), um lampejo de luz que purifica a alma.
  • A busca como istishraq: O caminho espiritual é uma "busca do Oriente" (istishraq), uma jornada de morte mística e ressurreição, guiada por um mestre ou um anjo. O verdadeiro "orientalista" (mustashriq) é o peregrino místico, não o acadêmico profano.
  • A Realidade Presencial (ilm huzuri): A "conhecimento oriental" é uma realidade presencial, onde a alma, ao se despir do corpo, alcança o conhecimento unificador dos arquétipos. A ignorância, por outro lado, é um "exílio ocidental" (ghorbat gharbiya), uma descida à escuridão da matéria.
  • A herança espiritual de Sohrawardi: Sohrawardi se vê como o ressuscitador da sabedoria ancestral da Pérsia, que ele funde com o hermetismo e o neoplatonismo, criando uma nova teosofia que influenciou gerações de pensadores xiitas no Irã.
  • O papel do Imam oculto: A figura do Imam oculto do xiismo se assemelha ao Sábio real (Kayan-Khorrah) de Sohrawardi, o polo invisível que mantém o mundo e guia secretamente os fiéis. A doutrina ishraqi, portanto, se enraíza no xiismo, que a protegeu e a transmitiu ao longo dos séculos.