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DE VISIONE DEI

NICOLAU DE CUSA — A VISÃO DE DEUS


Excertos do Prefácio da tradução portuguesa
Na tradição do ser como olhar, que, ao ver-se, vê especulativamente toda a realidade e numa realização-limite da ideia aristotélica de que só o olhar incolor vê todas as cores, o De Visione Dei tem de ser lido no duplo sentido de genitivo subjectivo e objectivo. No primeiro sentido, o ver é absoluto, infinito, reflexivo e envolvente, abarcando tudo e todos, permanente na mutabilidade das coisas vistas, criador, enquanto «complicatio» e «explicatio», dos seres-imagem, força «complicativa e explicativa», que une e separa, palavra, que é gerar e conceber, falar e criar. Ao contrário da Unidade de Proclo, a unidade do Olhar Absoluto ou da Visão de Deus, no sentido de genitivo subjectivo não exclui o múltiplo mas desenvolve projetos de mundo como explicitações do Ver Absoluto, que relativamente ao mundo é Liberdade. No sentido do genitivo objectivo, o De Visione Dei é o ver finito e múltiplo, a contração limitativa e singularizada do Ver Absoluto, sempre presa do ângulo parcial de uma perspectiva e, portanto, conjectural e mutável. É a «explicatio» enquanto participação da pureza e simplicidade da «complicatio», é um ver plural, que é ser visto pelo mesmo Olhar envolvente, é um olhar singular e colectivo, que jamais pode fugir à incidência do Ver Absoluto. O Ver invisível do Absoluto manifesta-se nas imagens teofânicas e, sobretudo, nos olhares finitos dos homens, que acende, criando. O Ver Absoluto, ao fundar a visão de si no ver criado, é por «complicatio» o próprio ser-visto pelo olhar do outro e se, uma vez fixado na pintura, parece mudar com as nossas mudanças e seguir-nos como sombra, nós é que somos as sombras vivas e as verdades mudadas e agitadas pelo desejo, enquanto Deus é a coincidência da sombra e da verdade, da imagem e do paradigma, como ensina o De Visione Dei. O encontro destes dois olhares no duplo sentido do genitivo objectivo e subjectivo é relação dialógica imagem-paradigma, pintura-pintor, livro-autor, espelho conjectural-espelho do Olhar Absoluto, iluminação-comunicação vinda do mais fundo da Luz, que é «muro» e noite.