Um monge respondendo à sua vocação de unidade. Um homem do além dos aléns. Não apenas Henri Le Saux proclama a necessidade dos diálogos inter-religiosos, mas ele pôde adquirir a experiência, ao mesmo tempo dolorosa e beatificante, de uma liberação das formas.
Aventura singular. Se, no entanto, se procurasse uma certa parentela, conviria situar Henri Le Saux no movimento de Mestre Eckhart. Isso levando em conta os séculos que os separam, e a importância dada pelo religioso do século XX à metafísica e à dimensão mística do Hinduísmo, sem esquecer a presença dos sábios, dos sannyasis e dos rishis.
Bretão de origem, entrado na abadia beneditina de Kergonan, depois de ter sido um brilhante aluno no pequeno e no grande seminário, Henri Le Saux vai pouco a pouco descobrir o sentido de sua dupla vocação: favorecer o encontro entre o Ocidente e o Extremo Oriente, estudar a Bíblia e as Upanishads em uma perspectiva de unidade. É assim que ele acrescentará à sua escolha de beneditino, a de sannyasi.
Trata-se de um tempo em que o Extremo Oriente ainda não irrompia no Ocidente, em que os sábios orientais não percorriam a Europa como hoje para se instalar nela. É mais tarde que os ocidentais irão para a Índia e para os Himalaias. O padre Le Saux é um pioneiro. Ele se dedica primeiramente ao estudo das correspondências e das oposições entre duas tradições, uma e outra essenciais. Ele conseguirá vivê-las na unidade de seu cume.
Na partida: o interesse do monge de Kergonan pelo Hinduísmo e seu desejo de fazer conhecer na Índia o Cristianismo e a ordem beneditina. Artigos de revistas o colocam em contato com o padre Jules Monchanin. Este, após uma formação universitária, padre na diocese de Lyon, permanece na Índia e convida o monge Henri Le Saux a se juntar a ele. Com a autorização de seus superiores, o religioso beneditino irá para a Índia após a guerra, em 1948.
Deslocamento total, descoberta de uma dimensão espiritual perturbadora, sedução exercida por sábios, encontros com homens dedicados ao Absoluto, mística de uma densidade insuspeitada.
Pode-se ficar surpreso. Uma abadia beneditina não ofereceria a seus adeptos uma espiritualidade profunda, capaz de satisfazer sua sede? É possível falar de uma carência cristã e monástica? Não se trata disso. No entanto, como não evocar uma época árdua para ser vivida por homens apaixonados por uma profundidade dificilmente realizável no seio de uma comunidade. Esta, com efeito, dirige-se a uma pluralidade de indivíduos cujas diferenças é importante apreender, no seio de uma certa uniformidade. O Vaticano II ainda não havia trazido um movimento novo e libertador.
Antes da guerra de 1939-1945, o ensinamento tomista, digamos antes escolástico, regia os seminários e a maioria dos monastérios. Ele não favorecia a mística. De modo geral, opunha-se voluntariamente a fé à ciência. Nas universidades, um certo racionalismo reinava. A civilização cristã, a filosofia cristã levantavam contestações.
A existência monástica beneditina, vivida pelo monge Henri Le Saux, mostra-se ao mesmo tempo negativa e positiva. Mais uma vez, convém situá-la em um contexto histórico, o de uma época em que o ensinamento religioso se movia em uma atmosfera neotomista mais ou menos paralisante. A escolástica se fazia pesada com todo seu aparato intelectual. O saber não se transmutava irremediavelmente em conhecimento. Assim, a porta que dava acesso a um novo estado não rolava facilmente sobre seus gonzos. O Cristianismo é considerado e vivido demais como a única via que conduz à verdade; e esta corre o risco de poder se tornar uma propriedade. Ora, toda apropriação espiritual dessacraliza profanando. A teologia só é esclarecedora na medida em que é apofática. Especular sobre a divindade, discursar a seu respeito é vão. O Deus absconditus está escondido, é inefável e inacessível. Somente o homem escondido do coração (1 Pe 3,4) pode ter acesso a ele, pelo menos se aproximar dele.
Nos monastérios, era sem dúvida difícil abrir um caminho respeitando um aparato cuja uniformidade, considerada de fora, pode parecer esmagadora, se ela não é interiorizada de uma forma justa, equilibrada e dinâmica. A esclerose corre o risco de bloquear o ímpeto de uma escolha fora do comum.
Daí a necessidade, para Henri Le Saux, de um desvio: o da metafísica apresentada pelas Upanishads. Depois, seu encontro com sannyasis será esclarecedor. É preciso que ele saia de uma fortaleza, de um gueto, aprenda a perceber a voz de sua consciência. Esta escorre de uma fonte original da qual ele sem dúvida não aprendeu em seu monastério a distinguir o suave murmúrio.
Atolado em um sistema, Henri Le Saux ignorava como traçar um caminho de acesso ao essencial. A obediência até a morte (usque ad mortem), preconizada pelo Cristo, leva em conta as diferenças entre os homens e a diversidade das vocações particulares. Henri Le Saux sofrerá. É normal que se inquiete interiorizando uma estrutura que se impõe primeiramente exteriormente.
O aspecto positivo da vida monástica é significativo na abordagem de Henri Le Saux. Ele foi formado para a modéstia e a humildade. Uma e outra não minimizam a personalidade. Elas situam na medida, na ordem, na harmonia, orientando pouco a pouco para o essencial. Suprimir a vaidade mais ou menos estúpida daquele que atribui a si mesmo o que ele deve ao mundo invisível. Mas o vazio é necessário para que este encontre um lugar para invadir o sujeito do qual um ego pesado não mais fará obstrução. A liturgia gregoriana provoca, conforme as festas, sofrimento e jubilação. Ela constitui um clima primaveril atraindo as energias sutis ao mesmo tempo cósmicas e divinas.
Educando o ouvido e o olhar, a vida monástica desperta os sentidos interiores. Estes se desenvolvem conforme o pensamento de Orígenes. No entanto, parece provável que os formadores monásticos não facilitavam o acesso aos mistérios. Pode-se entender isso. A virtude da prudência se mostra tanto mais necessária quanto se refere a homens solitários, não distraídos pelo exterior, trocando unicamente com confrades que levam uma existência semelhante. Ora, a diversidade dos encontros pode gerar aberturas novas e benéficas em seu desdobramento. É depois que Deus preencherá.
Henri Le Saux deve ter sentido a falta de confidentes. Em sua abadia, ele não tinha que divulgar seu interesse pelo Hinduísmo, a não ser de uma forma comedida. Quando se encontra na Índia, ele terá trocas frutuosas, mas deverá conservar em si mesmo o drama de seu perpétuo questionamento. É por isso que ele se confidenciará a seu Diário. Em suas diferentes obras, a tragédia que ele vive interiormente não aparece. Esta o oprime, o consome. Mas ele a conserva em si mesmo, como um segredo.
Poder-se-ia dizer, sem exagerar, que a interiorização de Henri Le Saux será provocada por seus encontros na Índia: Ramana Maharshi, Gnanananda e a montanha de Arunachala com sua carga de mistérios e de presença.
No início, o monge beneditino tornado sannyasi, viverá no ashram do Shantivanam com Jules Monchanin. Alguns de seus biógrafos insistirão na diferença de temperamento entre os dois homens. Não se poderia negá-la. No entanto, o importante não está aí. Henri Le Saux se encontra na necessidade de viver em solitude para se descobrir e se realizar. Por comodidade, alguns desses mesmos biógrafos se admiram de vê-lo procurar o isolamento das grutas, e depois falar, viajar, ensinar. Isso é esquecer o caso particular de Henri Le Saux e desconhecer a grande tradição do Oriente cristão. Os monges passam facilmente da solidão para a pregação. A viagem exterior pode acompanhar o périplo do interior. Porque é de fato de uma viagem que se trata.
Cada percurso é rigorosamente singular, ninguém saberia realizá-lo por outrem. As experiências não são intercambiáveis. É por isso que o peregrino é dedicado à solidão. Que sua experiência se torne abissal, toda troca se mostra a partir de então impossível. Aqueles que não se mantêm em um mesmo nível recusam o que lhes escapa. Assim, Le Saux levou anos para apreender intuitivamente o além das pessoas divinas. Ora, Eckhart havia apresentado as Pessoas (Pai-Filho-Espírito) como “modos” de manifestações de uma única Superessência divina. Tal linguagem havia sido contestada. Não é surpreendente que a experiência de Le Saux suscite recusas e também incompreensões.
O isolamento de Henri Le Saux será quebrado em outubro de 1971 pela presença de Marc Chaduc tornado seu discípulo. A alegria sentida pelo monge beneditino-sannyasi não é, por isso, suspeita. Que um solitário se torne guru e se aceite como tal pode surpreender. Como esquecer o abandono de Le Saux, sua necessidade de comunicar o que ele pôde apreender. Sua passagem pelos seminários e pela abadia de Kergonan não cessa de frear suas descobertas. Marc Chaduc não tem que se libertar de uma ganga, ele mergulha com facilidade em seu fundo secreto. Henri Le Saux fica tão deslumbrado, que ele proclama alegremente a superação do mestre pelo discípulo.
Em razão de sua opção por uma vida duplamente monástica, Henri Le Saux escolheu uma via orientada para a unidade. Cassiano, reunindo as diversas interpretações transmitidas pela Antiguidade, já havia associado os termos de “solitário” e de “singular”. O monge está sozinho com Deus. O isolamento facilita o acesso à unidade sem no entanto o constituir. Em um comentário atribuído a Gregório o Grande sobre o primeiro livro dos Reis, o autor mostra que a renúncia ao mundo significa menos um estado de vida do que um estado da alma do qual o monaquismo não tem o privilégio, mas que ele favorece.
As diferentes tradições apresentam o acesso à unidade como um percurso. O homem é antes de tudo um homo viator. O Cristianismo o afirma com Paulo. A dificuldade é passar de um saber teórico para um conhecimento transfigurador.
Experiência dolorosa. Longo período de angústia, de sofrimento, de dilaceramento ou melhor de esquartejamento para o monge beneditino tornado Swami Abhishiktananda. Antes de poder chegar a formular um “sim” com todo seu ser, o peregrino é convidado a se esvaziar de si mesmo e de seus falsos saberes. O que provoca sua opacidade deve cair naturalmente à maneira das folhas de árvore em período outonal. Suportar sua nudez não é algo fácil. Um novo tipo de fragilidade surge. Esta saída da omnitude, da consciência comum, corre o risco de tornar a abordagem hesitante. A purificação consome as últimas escórias, espécies de cascas que cercam a amêndoa e seu fogo. Henri Le Saux compreenderá lentamente o erro de seu perpétuo questionamento.
Seu amor pela unidade o havia conduzido necessariamente para o advaita, isto é, a não-dualidade. Esta constitui a doutrina central das Upanishads. Mas ela está presente em toda parte, no Judeu-cristianismo e no Islã. No entanto, para ser descoberta, esta não-dualidade exige uma superação das leis exteriores oriundas de um juridismo pesado, a fim de ter acesso à santa liberdade. Esta, ao contrário do que se poderia crer, não rejeita nada. Seu objetivo é integrar tudo interiormente. Mas convém ter a experiência de tal superação.
Durante longos anos, Henri Le Saux vai atravessar um período de agonia. Parece-lhe que o advaita não é atingido pelo Cristianismo. Primeiramente ele o apreende em sua exterioridade. Ele levará muito tempo — e isso é perfeitamente normal — para entender que a não-dualidade resulta da “unidade total da totalidade”. A pluralidade vela, ela obscurece, ela é neblina. A súplica do salmista “Faze levantar sobre nós a luz de tua face” (4,7), isto é, mostra-me tua essência, significa o apelo ao rosto da unidade. Rosto inacessível e insustentável em razão de sua fulgurância. A aproximação da unidade vai permitir em seguida um retorno para a pluralidade que a unidade metamorfoseia. Em tal caso, a pluralidade não é mais opaca. Libertada de sua obscuridade, ela se move em luz. A unidade se torna resplandecente na multidão das formas.
O verdadeiro conhecimento de si, de sua beleza, graças à presença da imagem divina e também de sua miséria, pelo fato de ser desviado de sua origem, segundo a linguagem de Bernardo de Claraval, permite adquirir um novo conhecimento e um inalterável amor. Realização de uma perfeita unidade da qual Eckhart poderá dizer: “O olho pelo qual eu O vejo é o olho pelo qual Ele me vê.” Toda dualidade é superada, e o que conhece pode exclamar: aham asmi (eu sou); aham brahma asmi (eu sou Brahman). Nascido de novo, ele está sem signo (alinga) e sem lugar (aloka), totalmente livre porque liberto dos diversos apegos (asanga). Segundo as Upanishads, não há dualidade entre atman (o princípio da vida pessoal) e Brahman (o princípio da vida universal).
Esta não-dualidade se encontra afirmada em todas as tradições. Para saber a profundidade, convém ter a experiência.
A experiência fundamental de Henri Le Saux vai lhe permitir integrar tudo. Ele para de questionar, de se interrogar sobre o Cristianismo e o Hinduísmo. As comparações se desvanecem por si mesmas. À sua angústia sucede uma beatitude. Os amantes dos mistérios, os buscadores de verdade passam normalmente por uma abordagem horizontal necessária, mas exaustiva. E isso até o instante em que o aprofundamento se impõe. Pouco a pouco as metamorfoses se tornam operantes. O homem se inclina no sentido da árvore invertida de Platão. “Filho da mulher” durante sua viagem horizontal, o buscador se torna “Filho do homem” quando a verticalidade se impõe. Ele supera o tempo, o espaço, a manifestação. Nada é renegado. Tudo se interioriza. Nesta interiorização, os contrários se reconciliam.
Certamente, há um perigo. Aceitando viver em si mesmo o tempo e a eternidade, a terra e o céu, o homem corre o risco da loucura e até da morte. A densidade da revelação se mostra vasta demais para ser suportada sem danos. Henri Le Saux sucumbirá. Seu coração já frágil não poderá suportar tal acesso à profundidade das profundezas. Novo nascimento, “Deus nasce no homem e o homem nasce em Deus”, dizia Mestre Eckhart.
Após sua crise cardíaca em Rishikesh (14.7.73), Henri Le Saux anota em seu Diário: “Ao cabo de alguns dias me veio enfim como a solução maravilhosa de uma equação: eu descobri o Graal. ... A busca do Graal não é outra, no fundo, senão a busca de si. Busca única significada sob todos os mitos e símbolos. É a si que se procura através de tudo. E para esta busca corre-se por toda parte, enquanto o Graal está aqui, bem perto; basta abrir os olhos. E esta é a descoberta do Graal em sua verdade última” (11.9.73).
Descobrir o Graal significa o termo da viagem, o fim da busca, o além da morte e a ressurreição. Os véus se rasgam e uma visão se esboça. Depois de ter vivido na angústia uma trágica tensão entre o advaita e o Cristianismo, Le Saux compreende que o advaita e o Cristianismo estão integrados nele. Trata-se de uma saída do mundo da dualidade sem, no entanto, renegá-lo, mas vivendo-o existencialmente de uma forma nova. Assim, aqueles que são tentados a acusar Le Saux de sincretismo dão prova de ignorância. Henry Corbin dirá a propósito de Uma liturgia shia do Graal: “... quando os gnósticos percebem que várias lâmpadas são acesas por uma mesma luz, a abordagem de seu pensamento é o inverso do chamado sincretismo.”
Pouco tempo antes de sua morte, Le Saux poderá escrever: “A alegria permanece, cresce, se aprofunda na descoberta cada vez mais íntima do essencial. ... Saltar para fora dos limites; noite para a mente ... vinho inebriante que se tem medo de comunicar. ... Aqui, na solidão do exterior e do interior, a solidão do Sozinho, na superação de todo dizer e de todo pensar. ... Então a Páscoa se torna esse despertar para nada de novo, mas para o que é, para essa realidade que não tem nem origem nem fim” (21.4.73).
Tal será a última experiência de Henri Le Saux, Swami Abhishiktananda.
Que os trechos das obras de Henri Le Saux possam fazer conhecer o caminho de um monge unindo o Ocidente ao Oriente. Aventura de um homem cuja existência foi inteiramente dedicada ao misterioso encontro com o Absoluto.