ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988
Veja: versão francesa, da tradução abaixo
Atribui-se ordinariamente a Dhu 'l-Nun o Egípcio (morto em 246/861), um contemporâneo de al-Muhasibi cuja lápide subsiste ainda em Gizé, o mérito de ter introduzido a ideia de gnose (ma'rifa) no sufismo. A torto, pois essa concepção já está presente nos fragmentos de ascetas mais antigos. Dhu 'l-Nun faz figura nas biografias sufis de personagem quase lendário, metade místico metade alquimista; teria conhecido os hieróglifos do Egito antigo e teria sido iniciado na sabedoria hermética. Atribuem-se-lhe um certo número de curtos tratados de autenticidade extremamente duvidosa. Os poemas e as orações que nos restam dele dão uma impressão mais fiel de seu pensamento, que é caracterizado por tendências nitidamente panteístas.
Ó Deus, nunca prestei ouvido ao grito das feras selvagens nem ao sussurro das árvores, ao murmúrio das águas nem ao canto dos pássaros, ao assobio do vento nem aos ribombos do trovão sem perceber neles um testemunho de tua Unidade (wahdaniya) e uma prova de teu caráter incomparável. Tu és o Todo-Poderoso, o Onisciente, o Sábio, o Justo, o Verdadeiro, em ti não há derrota, nem ignorância, nem loucura, nem injustiça, nem mentira. Ó Deus, reconheço-te na prova da obra de tuas mãos e no testemunho de teus atos: concede-me, ó Deus, buscar tua satisfação com minha satisfação e as delícias de um Pai em seu filho, lembrando-me de ti em meu amor por ti, com serena tranquilidade e firme resolução.
Em seus versos Dhu 'l-Nun emprega a linguagem passionada do piedoso amante, da qual Rabi'a de Basra tinha dado o exemplo, e contribui, nesse ponto, a fixar uma tradição que se tornará um dos traços mais impressionantes da literatura sufi.
Eu morro, sem que todavia morra em mim
A ardor de meu amor por Ti,
E teu amor, meu único fim,
Não aplacou a febre de minha alma
A Ti só meu espírito lança seu grito;
Em Ti repousa toda minha ambição,
E todamente Tua riqueza está bem acima
Da pobreza de meu humilde amor.
Volto para Ti minha oração
E busco em Ti meu repouso derradeiro;
A Ti sobe a surda queixa,
Tu assombra meu pensamento secreto.
Por mais que dure minha doença,
Essa fastidiosa enfermidade,
Nunca direi aos homens
O fardo que Tu me fizeste carregar.
A Ti só é manifesto
O pesado pesar de meu coração,
Nenhum outro, próximo nem vizinho, soube nunca
A medida transbordante de minha pena
Uma febre queima em meu coração
E me devasta por completo;
Destruiu minha força e meu apoio
E consumiu lentamente minha alma.
Não guias no caminho
O cavaleiro fatigado de seu fardo?
Não livras dos passos da morte
O viajante vagabundo?
Não acendeste um farol também
Para aqueles que encontraram a boa direção
Mas não portavam em suas mãos
A mais pequena luz de sua tocha?
Oh! Dá-me portanto tua graça
Para que eu viva, assim assistido,
E por Ti supere sem pena
As rigores de minha pobreza.