Tradução anotada em português por Antonio Carneiro, da versão francesa de M. de Gandillac
A HIERARQUIA ECLESIAL — CAPÍTULO 6 (cont.)
III Contemplação
§ 1. Se o iniciado aqui não se ajoelha, se não lhe impõe as Santas Escrituras que contem o depósito da Revelação divina, se ele se contenta em ficar de pé quando o sacrificador pronuncia diante dele as palavras sagradas da santa consagração, esses ritos significam que a ordem monacal não tem missão de dirigir os outros, mas que, permanecendo estável na Santa Unidade, ele obedece às ordens sacerdotais, lhes seguindo como um fiel companheiro de viagem sobre a rota que o conduz à esta ciência divina dos mistérios que lhes são permitidos alcançar.
§ 2. Se o iniciado é solicitado a renunciar à todos seus atos, ver à todos os pensamentos que poderiam dividir sua vida, este rito significa esta perfeita filosofia que confere aos monges a ciência dos preceitos pela qual toda vida se torna uma. Como foi dito, com efeito, sua categoria entre os iniciados não é medíocre, pois é a mais sublime de todas. É porque o que é perfeitamente lícito aos homens da segunda ordem é com muita frequência totalmente proibida aos monges, pois suas vidas estando unificadas, é um dever para eles de não fazer senão com Um, de se unir à Santa Unidade, e de imitar, tanto quanto eles puderem sem sacrilégio, a vida sacerdotal. Já que eles pertencem por muitos pontos à mesma família e que eles estão mais próximos delas que os iniciados das outras ordens.
§ 3. O sinal da cruz significa, como já dissemos, a morte de todos os desejos carnais. A tonsura simboliza uma vida pura e perfeitamente despojada, que não camufla a feiura da inteligência de nenhuma sobrecarga de ornamentos supérfluos, mas que se eleva espontaneamente, graças às belezas que nada tendo de humano unificam a alma e convém ao estado monacal, até a mais alta conformidade divina.
§ 4. O despojamento das antigas vestimentas e a tomada de hábito representam a passagem de uma santidade medíocre para uma maior perfeição; já vimos que a cerimônia pela qual Deus nasce nas almas comporta também uma mudança de hábito que significa a ascensão espiritual da purificação para os estados superiores da contemplação e da iluminação. Quanto ao beijo que se dá no iniciado e no sacrificador que lhe consagra e todos os outros sacrificadores 4 presentes, se vê aí o sinal da santa comunidade que une todos aqueles que se conformam à Deus pelos laços alegres de uma mútua e caridosa congratulação.
§ 5. Ao fim de todas estas cerimônias, o sacrificador chama aquele que ele consagrou para tomar parte na comunhão teárquica, mostrando assim de maneira sagrada que, por pouco que o iniciado se eleve segundo a lei monacal até à unidade espiritual, ele não contemplará somente os santos mistérios que são oferecidos à sua vista, ele não comungará somente como aqueles da ordem média como os símbolos sacratíssimos; mas, graças ao conhecimento divino dos mistérios os quais participará, será admitido na comunhão teárquica segundo um modo todo outro do povo santo. É pelo mesmo motivo que, quando a cerimônia de sua santíssima consagração e por consumir o sacramento de sua ordenação, as ordens sacerdotais recebem a comunhão da santíssima ação de graças das mãos dos grandes padres que acaba de as consagrar, não somente porque a recepção dos mistérios teárquicos coroa toda participação hierárquica, mas porque todas as ordens sagradas, segundo sua ascensão espiritual e sua consagração lhes são divinizadas mais ou menos, participam, cada uma na sua proporção, ao dom diviníssimo desta mesma comunhão.
Resumamos agora. Os santos sacramentos procuram a purificação, a iluminação e a perfeição. Os ministros constituem a ordem que purifica, os sacrificadores a ordem que ilumina, os grandes padres, que vivem em conformidade com Deus, a ordem que torna perfeita. A ordem dos purificados tanto quanto seus membros estão ainda neste estado de purificação, não é ainda permitido se iniciar nem de participar nos santos mistérios. A ordem dos contemplativos se confunde com o povo santo. A ordem dos perfeitos compreende os monges, porque eles unificaram suas vidas. Santa e harmoniosamente divididos em ordem segundo as revelações divinas, nossa própria hierarquia apresenta assim a mesma estrutura que as hierarquias celestiais, conservando cuidadosamente a medida de sua humanidade os carácteres que lhes permitem de se parecer com Deus e de estar de acordo com Ele.
§ 6. Mas tu vás objectar que nas hierarquias celestiais não se acha traço de ordens purificadas (pois isso seria sacrilégio e mentira como pretender que exista no céu uma legião pecadora). Mas para negar que os anjos sejam totalmente imaculados e que possuam a plenitude de uma pureza que não é daqui de baixo, seria necessário que tivessem perdido inteiramente a inteligência dos mistérios os mais sagrados. Se um dos anjos sucumbe ao mal, de pronto se veria rejeitado da harmonia celestial e sem mistura das inteligências divinas. Cairia nas trevas onde vivem as multidões renegadas. E portanto, tem-se o direito de dizer que na hierarquia celestial qualquer coisa corresponde à purificação das essências subordinadas; é a iluminação que lhe dá divinamente acesso aos mistérios que elas ignoraram até lá; que lhes conduziu à uma ciência mais perfeita dos conhecimentos teárquicos; que lhes purifica de qualquer modo que sua ignorância das verdades que permaneciam escondidas à seu olhar; que lhes conduziu enfim, pelo intermédio das essências superiores e mais divinas, até aos esplendores mais altos e mais evidentes dos divinos espetáculos.
É assim que pode-se distinguir na hierarquia celeste ela-própria, de uma parte das ordens que são iluminadas e perfeitas, de outra parte das ordens que purificam, que iluminam e que tornam perfeitas, pois as essências superiores às mais divinas tem bem a tripla marca, segundo ordens proporcionadas às hierarquias celestes, de purificar toda a ignorância as santas legiões celestiais que lhes são subordinadas; de lhes perfazer enfim na ciência iluminadíssima das intelecções teárquicas. Já dissemos, com efeito, que as legiões celestes não são todas idênticas no santo conhecimento das iluminações pelas quais elas podem aceder aos mistérios divinos. Mas é Deus diretamente que ilumina as primeiras legiões e, por seu intermédio, é ainda Deus que ilumina indiretamente as legiões inferiores, na proporção de suas capacidades, quando derrama sobre elas a brilhante luz do Raio teárquico.