Ioan Couliano: Excertos de PSYCHANODIA
Numerosas fontes rabínicas, a qual a mais antiga é a “Mekhilta”, “midrash” tanaíta sobre o “Shemot” (Livro do Êxodo), que remonta ao século II, registra uma doutrina « herética », aquela de STY RSWYWT BSMYM, «Dois poderes celestes». Os testemunhos rabínicos provem da Palestina e precedem então o contato com o zoroastrismo que terá lugar na Babilônia da época dos amoraítas (“expositores” do Talmud). A doutrina incriminada, que é o diteísmo (dualismo teísta) ou o binitarianismo (exclui o Espírito Santo), provém da interpretação das passagens « perigosas » da Escritura, por exemplo, o plural (formal?) Elohim do Bereshith (Gênesis), o anjo do “Shemot” 20s ou o « Filho do Homem » em Daniel 7,9. Os RR. Yohannan e Simlaï são os primeiros que utilizam a gramática para combater as ideias errôneas derivadas pelos heréticos do plural Elohim. O diteísmo judaico era, sem dúvida, pré-cristão, pois Fílon de Alexandria discute com bastante frequência a hipótese de dois Deuses.
Tudo isso concorda muito bem com o testemunho (muito recente: Xº século) d'Al-Qirisânî concernente à seita judaica pré-cristã dos “Magharianos” (seita gnóstica palestina do 1º século a.C.). Os Magharianos consideravam que o próprio Deus não era responsável pela criação do mundo: ele havia delegado como seu lugar-tenente, um dos anjos de seu séquito. Segundo G. Quispel, esses judeus pré-cristãos eram, sem dúvida, conscientes da contradição entre os gêneros de criações antropomórficas descritas no Gênese (por meio da palavra, etc.) e o caráter não antropomorfo de seu Deus. A conclusão que era um anjo que tinha criado o mundo derivava verdadeiramente do rigor lógico com o qual os Magharianos tinham considerado esta questão, e de seus esforços por evitar toda idolatria. Ora, a ideia que um anjo do Senhor fosse o criador do mundo é atribuída à Simão o Mago de Samaria pelas “Recognitiones” pseudo-clementinas 37 e à Cerinto (vide: A ESSÊNCIA DO DUALISMO GNÓSTICO) por Irineu e pelo Pseudo-Tertuliano. A crença que o demiurgo era um anjo foi também partilhada por outros representantes do mesmo tipo de gnosticismo. Então é verdadeiro que Simão se serve da ideia de um deus secundário criador à seita pré-cristã dos “Magharianos”, que eram os representantes da heresia dos « Dois Poderes celestes ». Em Simão, esse deus secundário é identificado com o Deus dos judeus. Notar-se-á a perversidade do Samaritano, que não se contenta em adotar uma teoria herética, como também a corrige em um sentido desfavorável ao Deus de seus vizinhos!
Esta demonstração nos pareceu bem sólida, tanto mais que a literatura apocalíptica (a partir de 1 Enoque), as fontes essênias e rabínicas insistem bastante sobre a figura de um lugar-tenente de Deus.
Tudo leva a crer que uma doutrina diteísta existia no judaísmo pré-cristão, e que no 1º século após J.C. ou antes, esta doutrina se desenvolveu em dois sentidos:
- nos relatos visionários, o lugar-tenente de Deus podia ser ocupado pelo próprio Deus;
- nos relatos cosmogônicos, atribuía-se ao lugar-tenente de Deus a criação do mundo.
Por outro lado, o lugar-tenente de Deus, enquanto chefe dos anjos dos povos tinha o título de SR H'WLM, « Príncipe do Mundo ». Ora, ao mesmo tempo, esse título coube ao anjo de Roma, que se identificava com Sammaël, o anjo da morte, e também com o adversário de Deus, o chefe dos anjos maus. É assim que o « Príncipe do Mundo » se tornou o criador do mundo e é sempre assim como o criador mau desse mundo.