Eu ocasionalmente disse que existe um poder dentro da alma que só ele pode ser dito livre. Algumas vezes chamei-o um refúgio do espírito, outras disse que era uma luz do espírito, outras ainda disse que era uma centelha. Mas agora digo que não é isso nem aquilo, e no entanto é algo que é tão mais elevado que isto ou aquilo, assim como o céu é acima da terra. Por isto agora falo dele de uma maneira mais nobre do que jamais fiz, embora ele troce de toda minha reverência e da maneira que falo dele, e ele é acima de tais coisas. É livre de todos os nomes e não tem forma; é completamente livre e solitário, assim como Deus é livre e solitário em si mesmo. É plenamente uno e simples, como Deus é uno e simples, de modo que ninguém pode vislumbrá-lo.
Eckhart Sermão 2
Ele é qualquer coisa que é acima do ser criado da alma, que não toca nada de criado, que é nada; mesmo o anjo não o possui, ele que tem um ser límpido que é límpido e amplo; isto que é seu não toca aquilo. É um parentesco de tipo divino, é o Uno em si mesmo, isso não tem nada de comum com nada. Aqui que tropeçam grandes clérigos. É um estranhamento e é um deserto e tanto inominável quanto isto não tem nome, e tanto desconhecido quanto isto não é conhecido. Se v. pudesse se suprimir a ti mesmo um instante, digo mesmo mais breve que um instante, então terias de modo próprio isto que é em si mesmo. Enquanto prestas atenção a qualquer coisa, a ti mesmo ou a alguma coisa,sabes tão pouco o que Deus é quanto minha boca sabe o que é a cor, e que meu olho sabe o que é o gosto: tão pouco sabes e te é conhecido aquilo que Deus é.
Sermão XXVIII
Jeanne Ancelet-Hustache
No livro coletivo escrito para o sexto centenário de Eckhart, Bernard Dietsch nos informa que Eckhart denominou em sessenta sermões trinta termos diferentes para designar esta outra realidade presente na alma, mesmo após sua introdução na materialidade pelo corpo ao qual se uniu. Uma destas expressões é "pequena centelha da alma" ou "faísca da alma" (na tradução espanhola que usamos "chispita"), que juntamente com "fundo da alma" é das mais sugestivas e frequentes. Ela é a luz impressa do alto: "... é uma imagem da natureza divina que se opõe àquilo que não é divino; não é um poder da alma como quiseram alguns mestres e está sempre voltada para o bem; mesmo no inferno ela ainda está inclinada para o bem. Os mestres dizem: esta luz é de tal natureza que sua luta é constante, ela se nomeia "sindérese", o que quer dizer unir e desviar. Ela tem duas operações. Por uma delas, ela está em conflito como o que não é puro. A outra operação é de atrair sem cessar para o bem — e ela está impressa diretamente na alma — mesmo ainda naqueles que estão no inferno" SERMÃO 20.
Segundo Edouard-Henri Weber, os temas de "centelha da alma" ou "chispa da alma" e de "fundo da alma" estão em relação profunda, pouco evidente. Por um lado a pequena centelha que brilha na alma humana é identificada à luz intelectiva; por outro o fundo da alma é determinado como sua essência e apresentado distinto do poder ou faculdade intelectiva que dele emana. Outros textos expõem que esta mesma centelha, em razão da qual se realiza a união a Deus, reside no intelecto parte mais nobre da alma. Tenta-se aqui discernir na obra do mestre o que elucida estas divergências pelo menos aparentes.
Além das diferentes imagens adotadas por Eckhart em suas referências à configuração da alma, destaca-se, com efeito, a centelha da alma. De origem gnóstica Oráculos Caldeus e já prenhe de considerações mais ou menos místicas (associado ao tema corrente da "luz", desde a antiguidade), ela foi herdada pelos latinos através de Macróbio e Jerônimo nos quais quais ainda guardou o viés grego de synderesis. Em sua melhor interpretação, ela significa o brilho da consciência moral referida ao primeiro princípio da razão prática: "é preciso fazer o bem e evitar o mal". Autores do século XII, ainda desprovidos de instrumentos filosóficos pertinentes, dele fazem uso em domínio de psicologia e de espiritualidade.
A este tema da centelha, Eckhart confere a princípio o sentido filosófico de intelecto a título de participação da alma racional, logo de possessão sobre um modo limitado de uma natureza inteligente que imita de longe a plenitude própria a Deus Intelecto por essência, como em Alberto o Grande e Tomás de Aquino. Se se limita por vezes a simplesmente assimilar a centelha e o intelecto da alma, sublinha todavia que com o tema do intelecto é preciso entender, não precisamente a faculdade nua ainda no estado virtual, mas o poder intelectivo já atualizado e tornado detentor em permanência de uma determinação ou forma inteligível, ou luz, estabelecendo-o em tensão para o bem e correlativamente em hostilidade ao mal.