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Eckhart Sermon 57



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Vidi civitatem sanctam Ierusalem novam descendentem de caelo a domino etc.

São João viu “uma cidade” (Apocalipse 21, 2).

Uma “cidade” significa duas coisas. Primeiro: que está fortificada de modo que ninguém pode danificá-la; segundo: a harmonia entre as pessoas. “Essa cidade não tinha oratório, Deus mesmo era o templo. Não se precisa de nenhuma luz, nem do sol nem da lua; a claridade de Nosso Senhor a ilumina” (Apocalipse 21, 22 s.).

Essa “cidade” significa qualquer alma espiritual, segundo diz São Paulo: “A alma é um templo de Deus” (Cfr. 1 Cor. 3, 16), e é tão forte, de acordo com o dito por São Agostinho, que ninguém pode danificá-la, a não ser que ela mesma se faça mal por capricho.

Em primeiro lugar, é preciso reparar na paz que há de reinar na alma. Por isso, se a chama “Jerusalém”. São Dionísio diz: “A paz divina atravessa e ordena e termina todas as coisas; e se a paz não o fizesse, todas as coisas se espalhariam e não haveria ordem nelas”… Em segundo lugar: a paz faz com que as criaturas se vertam e fluam por amor e não para danificar… Em terceiro lugar faz com que as criaturas se voltem serviçais umas com as outras de maneira que mutuamente se deem estabilidade. Aquilo que uma não pode ter por si mesma, recebe-o de outra. Por isso, uma criatura provém de outras… Em quarto lugar faz com que as criaturas se voltem a dobrar outra vez até o seu primeiro origem, ou seja: até Deus.

O outro significado se vê quando afirma que a “cidade” é “santa”. São Dionísio diz que a “santidade é pureza total, liberdade e perfeição”. A pureza reside em que o homem se encontra afastado dos pecados; este fato liberta a alma. O deleite e a alegria máximos que existem no céu, se constituem na semelhança; e se Deus entrasse na alma e ela não fosse semelhante a Ele, esse fato a atormentaria, pois São João diz: “Quem comete o pecado, é servo do pecado” (João 8, 34). Podemos afirmar dos anjos e dos santos que são perfeitos, mas dos santos não em sentido pleno, já que ainda abrigam amor aos seus corpos que jazem ainda em cinzas; somente em Deus há completa perfeição. Nos surpreendemos que São João alguma vez tenha ousado dizer que existem três pessoas divinas a não ser que o tenha visto no espírito: como o Pai, com toda perfeição, se verte no Filho no nascimento, e se verte com bondade no Espírito Santo como em um fluxo de amor.

Em segundo termo: “santidade” significa “aquilo que foi tirado da terra”. Deus é um algo e um ser puro, e o pecado é a nada e afasta de Deus. Deus criou os anjos e a alma de acordo com um algo, quer dizer, de acordo com Deus (à sua imagem). A alma foi criada como à sombra do anjo e, no entanto, eles compartilham uma natureza comum e todas as coisas corpóreas foram criadas de acordo com a nada e distanciadas de Deus. A alma, pelo fato de que se derrama sobre o corpo, é obscurecida e faz falta que, junto com o corpo, seja elevada novamente para Deus. Quando a alma está livre das coisas terrestres, então é “santa”. Enquanto Zaqueu se encontrava ao nível da terra, não podia ver a Nosso Senhor (Cfr. Lucas 19, 2 a 4). São Agostinho diz: “Se o homem deseja voltar-se puro, que deixe as coisas terrestres”. Já dissemos várias vezes que a alma não pode voltar-se pura se não é empurrada outra vez à sua pureza primigênia, tal como Deus a criou; do mesmo modo, que não se pode fazer ouro do cobre que se afina pelo fogo duas ou três vezes, a não ser que o façamos retroceder à sua natureza primigênia. Porque todas as coisas que se derretem pelo calor ou se endurecem pelo frio, têm uma natureza totalmente aquosa. Portanto, é preciso fazê-las retroceder de todo à água, privando-as por completo da natureza em que se encontram neste momento; de tal maneira, o céu e a arte emprestam auxílio para que o cobre seja transformado integralmente em ouro. É certo que o ferro se compara com a prata, e o cobre com o ouro: mas quanto mais se o compara (o um com o outro), sem privá-lo (da sua natureza), tanto maior é a equivocação. O mesmo acontece com a alma. É fácil assinalar as virtudes ou falar delas; mas, para possuí-las na verdade, são muito raras.

Em terceiro termo diz que essa “cidade” é “nova”. “Novo” se chama aquilo que não está exercitado ou se encontra perto do seu começo. Deus é o nosso começo. Quando estamos unidos a Ele, nos tornamos “novos”. Algumas pessoas, por néscias, imaginam que Deus teria feito eternamente, ou retido n’Ele mesmo, as coisas que vemos agora, e que as deixaria sair à luz no tempo. Devemos entender que a obra divina não implica trabalho, segundo queremos explicar: Estamos parados aqui, e se tivéssemos estado parados aqui há trinta anos, e se o nosso rosto tivesse estado desemboçado sem que ninguém o tivesse visto, teríamos estado aqui o mesmo. E se tivessem à mão um espelho e o colocassem diante de nós, o nosso rosto se projetaria e configuraria nele sem o nosso trabalho; e se isso tivesse acontecido ontem, seria novo, e outra vez, se fosse hoje, seria mais novo ainda, e o mesmo depois de trinta anos ou na eternidade, seria eternamente; e se houvesse milhares de espelhos, seria sem o nosso trabalho. Assim também Deus contém em si, eternamente, todas as imagens, e isto não como alma ou como qualquer criatura, mas sim como Deus. N’Ele não há nada novo nem imagem alguma, senão que – tal como dissemos do espelho – em nós é tanto novo como eterno. Quando o corpo está preparado, Deus lhe infunde a alma e a forma de acordo com o corpo, e ela tem semelhança com ele e por causa desta semelhança, amor (por ele). Por isso não existe ninguém que não se ame a si mesmo; se enganam a si mesmos quem imaginam que não se querem a si mesmos. Deveriam odiar-se e já não poderiam existir. Devemos amar corretamente as coisas que nos conduzem a Deus; só isto é amor junto com o amor divino. Se o nosso amor se cifrasse em atravessar o mar, e nos agradasse ter um barco, isso seria tão só porque desejaríamos estar do outro lado do mar; e quando tivéssemos conseguido cruzar o mar, o barco já não nos faria falta. Diz Platão: O que é o que é Deus, não o sabemos – e quer dizer: A alma, enquanto se encontra no corpo, não pode conhecer a Deus – mas o que não é, sabemos bem, como se pode observar no sol cujo brilho não o pode aguentar ninguém, a não ser que primeiro seja envolvido no ar e que depois alume assim a terra. São Dionísio diz: “Se a luz divina há de alumiar o nosso foro íntimo, tem que estar inserida nele tal como está inserida a nossa alma (no corpo). Ele diz também: A luz divina aparece em cinco classes de pessoas. As primeiras não a recolhem. São como os animais, incapazes de receber, como se pode ver num símile. Se nos aproximássemos da água e esta estivesse revolta e turva, não poderíamos ver nela a nossa cara por causa do desnível (da superfície da água)… Aos segundos se lhes faz visível só um pouco de luz, como por exemplo o resplendor de uma espada quando alguém a está forjando… Os terceiros recebem mais (da luz divina), (algo assim) como um forte resplendor que ora é luz e ora escuridão; são todos aqueles que renegam da luz divina, (caindo) em pecado… Os quartos recebem mais ainda dela; mas às vezes os elude (Deus com a sua luz), só para incitá-los e ampliar os seus anseios. É certo, se alguém quisesse encher o regaço de cada um de nós, cada qual alargaria o seu regaço para poder receber muito. Agostinho: Quem quer receber muito, que amplie o seu anseio… Os quintos recebem uma grande luz, como se fosse de dia, e, no entanto, é como se tivesse entrado por uma fissura. Por isso diz a alma no O Livro de Amor: “O meu amado me olhou através de uma fissura; (e) o seu rosto era agraciado” (Cfr. Cantar dos Cant. 2, 9 e 14). Por isso diz também São Agostinho: “Senhor, tu dás às vezes uma doçura tão grande que, se ela se fizesse completa e isto não fosse o reino dos céus, nós não saberíamos o que é o reino dos céus”. Um mestre diz: Quem quer conhecer a Deus sem estar adornado com obras divinas, será atirado para trás para as coisas más. Mas não faz falta nenhum meio para conhecer a Deus por completo?… Ah sim, disto fala a alma no O Livro de Amor: “O meu amado me olhava através de uma janela” (Cantar dos Cant. 2, 9) – isto quer dizer: sem impedimento –, “e eu o percebia, estava parado perto da parede” – isto quer dizer: perto do corpo que é decrépito –, e disse: “Abra-me, minha amiga!” (Cantar 5, 2), isto quer dizer: Ela me pertence por completo no amor porque “Ele é para mim, e eu sou só para ele” (Cfr. Cant. 2, 16); “minha pomba” (Cantar 2, 14) – isto quer dizer: simples no anseio –, “minha formosa” – isto quer dizer: nas obras –, “Levanta-te rápido e vem para mim! O frio passou” (Cfr. Cantar 2, 10 e 11) pelo qual morrem todas as coisas; por outra parte, todas as coisas vivem pelo calor. “Desapareceu a chuva” (Cantar 2, 11) – esta é a concupiscência das coisas perecíveis. “As flores brotaram na nossa terra” (Cantar 2, 12) – as flores são o fruto da vida eterna. “Vai-te, aquilão” que ressecas! (Cantar 4, 16) – com isso Deus manda à tentação que já não estorve a alma. “Vem, auster e sopra pelo meu jardim para que os meus aromas se espalhem!” (Cfr. Cantar 4, 16) – com isso Deus ordena a toda a perfeição que se adentre na alma.