Traduzido de MAÎTRE ECKHART. Et ce néant était Dieu... : Sermons LXI à XC. Paris: Albin Michel, 2000
ES65<= Sermão LXVI – Euge, serve bone et fidelis... =>ES67
Euge, serve bone et fidelis quia super pauca fuisti fidelis, intra in gaudium domini tui
Lemos no evangelho que Nosso Senhor diz: “Pois bem, entra, bom e fiel servo, na alegria do teu mestre; porque foste fiel em pouco, por isso quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”.
Pois bem, notemos agora com zelo a palavra de Nosso Senhor que Ele pronunciou e disse: “Bom servo e fiel, entra na alegria do teu mestre; porque foste fiel em pouco, por isso quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”. Ora Nosso Senhor, em outro evangelho, disse a um jovem que O interpelava e O chamava bom: “Então Nosso Senhor diz: ‘Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus só’”, e isso é igualmente verdade na verdade. Tudo o que é criatura, na medida em que isso se mantém em si mesmo, não é bom. Nada é bom senão Deus só. Deus, portanto, contradisse a sua própria palavra? Que não, em nada de nada!
Notemos agora este discurso! Na medida em que o homem se renuncia a si mesmo por Deus e se encontra unido com Deus, nessa medida é mais Deus que criatura. Quando o homem é plenamente desapegado por Deus e não é para ninguém senão para Deus só e não vive para nada senão para Deus só, então é na verdade a mesma coisa por graça que o que Deus é por natureza, e Deus, de si mesmo, não conhece nenhuma diferença entre Ele e este homem. Ora dissemos: Por graça. Pois Deus é e este homem é, e assim como Deus é bom por natureza, assim este homem é bom por graça, pois a vida de Deus e o seu ser estão plenamente neste homem. É por isso que Ele chamou este homem bom, e é lá a palavra que diz Nosso Senhor: “Bom servo”. Pois este servo, diante de Deus, não é bom de nenhuma outra bondade que daquela onde Deus é bom. Já dissemos muitas vezes que a vida e o ser de Deus estão também numa pedra ou num pedaço de madeira e também em outras criaturas que por causa disso não são, no entanto, bem-aventuradas. Neste servo Deus está segundo um outro modo, pelo qual este é bem-aventurado e bom, pois Ele (Deus) está nele com prazer e vive nele e com ele em alegria e conhecimento como em si mesmo e com si mesmo; é a razão pela qual Ele (o servo) é bem-aventurado e bom. É por isso que Nosso Senhor diz: “Entra, bom e fiel servo, na alegria do teu mestre, porque foste fiel em pouco, quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”. Ora dissemos certas coisas a respeito da sua bondade, o porquê este servo é bom. Agora queremos vos entreter a respeito da sua fidelidade, pois Nosso Senhor diz: “Bom, fiel servo, porque foste fiel em pouco”.
Pois bem, notemos agora o que é o pouco em que este servo foi fiel. Tudo o que Deus criou nos céus e sobre a terra, que não é Ele mesmo, isso é pouco diante d’Ele. Em tudo isso, este bom servo foi fiel. O que isso é, queremos expor. Deus colocou este servo entre tempo e eternidade. A nenhum deles ele pertencia de maneira própria, mas era livre no seu intelecto e na sua vontade e também em todas as coisas. Por intelecto ele penetrava todas as coisas que Deus criou; por vontade, ele deixava todas as coisas e também a si mesmo e tudo o que Deus criou, que não é Deus Ele mesmo; por intelecto, ele as assumia e dava a Deus a respeito delas louvor e glória e as remetia a Deus na sua natureza sem fundo, e a si mesmo na medida em que ele é criado. Lá ele se deixava a si mesmo e a todas as coisas, de maneira que com a sua vontade criada jamais tinha contato com si mesmo nem com nenhuma coisa criada. Em boa verdade, quem seria assim fiel, Deus teria nele tão grande alegria indizível que aquele que o espoliaria desta alegria, esse o espoliaria plenamente da sua vida e do seu ser e da sua divindade.
Mas dizemos mais – não tenhamos medo, pois esta alegria está próxima de nós, e ela está em nós: Não há ninguém de entre vós tão frustrado e tão pobre de entendimento e tão afastado destas coisas que não possa encontrar esta alegria nele na verdade, tal como ela é, com alegria e entendimento, antes que hoje saiam desta igreja, sim, antes que hoje tenhamos acabado o nosso sermão; ele pode encontrá-la nele e vivê-la e a ter tão verdadeiramente como Deus é Deus e como somos homens! Estejam certos disso, porque é verdade, e a Verdade o diz ela mesma. É isso que queremos vos expor por uma parábola que se encontra consignada no evangelho.
Nosso Senhor estava sentado uma vez perto de um poço, pois estava cansado. Então veio uma mulher que era uma Samaritana de entre os pagãos, e ela trazia uma jarra e uma corda e quis tirar água. E Nosso Senhor lhe diz: “Mulher, dá-me de beber!” E ela lhe respondeu e disse: “Por que me pedes de beber? Pois tu és de entre os judeus, e eu sou uma Samaritana, e a nossa fé e a vossa fé não têm nada em comum”. Então Nosso Senhor respondeu e disse: “Se soubesses quem te pede de beber, e se conhecesses a graça de Deus, sem dúvida me pedirias de beber, e eu te daria de água viva. Quem bebe dessa água tem sede ainda; mas quem bebe da água que eu dou não tem mais sede jamais, e dele deve jorrar uma fonte da vida eterna”. A mulher notou esta palavra de Nosso Senhor, pois ela não vinha com prazer ao poço. Então a mulher disse: “Senhor, dá-me de beber desta água para que eu não tenha mais sede”. Então Nosso Senhor disse: “Vai e traz aqui o teu marido”. E ela disse: “Senhor, não tenho marido”. Então Nosso Senhor disse: “Mulher, tens razão: tiveste no entanto cinco maridos, e aquele que tens agora não é o teu marido”. Então ela deixou cair corda e jarra e disse a Nosso Senhor: “Senhor, quem és tu? Pois está escrito: quando vier o Messias, aquele que se nomeia Cristo, ele deve nos ensinar todas as coisas e deve nos anunciar a verdade”. Então Nosso Senhor disse: “Mulher, eu sou Ele, eu que te falo”, e esta palavra encheu todo o seu coração. Então ela disse: “Senhor, os nossos pais rezam debaixo das árvores sobre a montanha, e os vossos pais saídos da judeidade rezam no templo: Senhor, quais de entre eles rezam a Deus da forma mais verdadeira, e qual é o lugar certo? Ensina-me”. Então Nosso Senhor disse: “Mulher, o tempo deve vir e já está aqui onde os verdadeiros adoradores não rezarão somente sobre a montanha nem no templo, mas é no espírito e na verdade que assim adorarão o Pai; pois Deus é um espírito, e aquele que o deve adorar deve adorá-lo no espírito e na verdade, e é de tais adoradores que o Pai procura”. A mulher foi então cheia de Deus e transbordante e jorrante da plenitude de Deus, e se pôs a pregar e a chamar em voz alta e queria levar a Deus e encher de Deus tudo o que via com os seus olhos, como ela mesma estava cheia. Vejam, isso lhe aconteceu quando ela reencontrou o seu “marido”. Jamais Deus se dá à alma de forma manifesta nem de forma tão plena que ela não traga o seu “marido”, ou seja, a sua vontade livre. É por isso que Nosso Senhor diz: “Mulher, dizes a verdade, tiveste cinco maridos, eles morreram; e o marido que tens agora, ele não é teu”: eram os cinco sentidos, pelos quais ela tinha pecado, e é por isso que eles estavam mortos. “E o marido que tens agora, ele não é teu”: era a sua livre vontade que não era dela, pois ela estava ligada por pecados mortais, e ela estava sem poder sobre ela; e é por isso que ela (a vontade) não era dela: pois aquilo sobre o que o homem não tem poder, isso não é dele; é antes de quem tem poder sobre si. Mas dizemos agora: Quando o homem tem poder sobre a sua vontade livre na graça e que pode a unir totalmente à vontade de Deus e ser como um Único Uno, então não precisa de nada mais que de dizer como a mulher diz: “Senhor, ensina-me onde devo rezar e o que devo fazer para que isso te seja o mais agradável na verdade”. E Jesus responde, ou seja, Ele se revela verdadeiramente e totalmente e tudo como Ele é, e enche o homem de forma tão transbordante que ele jorra e flui para fora a partir da plenitude superabundante de Deus, como esta mulher o veio a fazer num curto lapso de tempo perto do poço, ela que antes era muito inapta a isso. E é por isso que dizemos portanto, como dissemos acima, que não há aqui ninguém de tão frustrado e de tão pouco dotado de entendimento e de tão inapto a isso que não possa, com a graça de Deus, unir a sua vontade limpidamente e totalmente com a vontade de Deus, e ele não precisa mais de dizer no seu desejo: “Senhor, ensina-me a tua vontade mais querida, e fortifica-me para que eu a cumpra!”, e Deus o faz tão verdadeiramente como Ele vive, e Deus a lhe dá perfeitamente em todo o modo em tão rica plenitude que Ele a deu jamais a esta mulher. Vejam, o mais frustrado e o menor de vós todos pode o receber de Deus antes que hoje ele saia desta igreja, sim, antes que hoje tenhamos acabado o nosso sermão, em boa verdade tão verdadeiramente como Deus vive e como somos homens. E é por isso que dizemos: “Não temam, esta alegria não está longe de vós se quiserem a procurar com sabedoria”. Ora dizemos agora, como Nosso Senhor diz: “Entra, bom servo e fiel, na alegria do teu mestre; porque foste fiel em pouco, quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”. Pois bem, notemos agora a nobre palavra que Ele diz: “Sobre todo o meu bem”.
O que é, então, o bem do Senhor? É a bondade, na medida em que ela é espalhada e repartida em todas as coisas e em todas as criaturas que são boas da sua bondade, nos céus ou sobre a terra: é lá o bem do Senhor, pois ninguém é bom nem tem bem nem bondade que d’Ele só. É por isso que é lá o seu bem, e também tudo o que de Deus Ele mesmo se pode dizer ou se pode apreender pelo intelecto ou que se pode de alguma forma que seja fazer vir ao dia ou que se pode examinar ou demonstrar: tudo isso é ainda o bem do Senhor; e é sobre tudo isso que Ele quer plenamente estabelecer o seu servo, pois ele (o servo) é bom e foi fiel em pouco. E para além de todo este bem o Senhor é ainda um outro (bem) e é no entanto o mesmo e é no entanto um algo que não é nem isto nem aquilo e não é nem aqui nem lá. E é por isso que Ele diz: “Entra, bom servo e fiel, na alegria do teu mestre; pois foste fiel em pouco, é por isso que quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”.
Ora vos dissemos qual é o bem do Senhor, e é por isso que Ele diz: “Entra na alegria do teu mestre; quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”, como se Ele quisesse dizer: “Sai de todo o bem criado e de todo o bem dividido e de todo o bem esfacelado: sobre tudo isso quero estabelecer-te no bem incriado e no bem indiviso e no bem não esfacelado que Eu mesmo sou”, e diz também: “Entra na alegria do teu mestre”, justamente como se quisesse dizer: “Sai de toda a alegria que é dividida e que por ela mesma não é o que ela é na alegria indivisa que por ela mesma e nela mesma é o que ela é”, e isso não é outra coisa que a alegria do Senhor.
Ainda uma pequena palavra sobre isso: o que é, então, a alegria do Senhor? Uma pergunta espantosa! Como se poderia relatar ou dizer o que ninguém pode entender nem pode conhecer! Antes: algo no entanto sobre isso. A alegria do Senhor, é o Senhor Ele mesmo e ninguém mais, e o Senhor é um intelecto vivo, essencial, que-é, que se compreende a si mesmo e é e vive a si mesmo em si mesmo e é a mesma coisa. Por lá não Lhe adicionamos nenhum modo, mas Lhe subtraímos todos os modos, segundo que Ele é Ele mesmo modo sem modo e vive e é em alegria de que Ele é. Vejam, é isso a alegria do Senhor, e é o Senhor Ele mesmo, e é nela que Ele intimou o seu servo a entrar, assim como Ele o disse Ele mesmo: “Entra, bom servo e fiel, na alegria do teu mestre; porque foste fiel em pouco, quero estabelecer-te sobre todo o meu bem”.
Para que tenhamos, nós também, que nos tornar “bons” e “fiéis”, para que também Nosso Senhor nos intime a entrar e a permanecer eternamente com Ele e Ele conosco, que a isso Deus nos ajude. Amém.