Veja também: SOFIA
... O exemplo mais intrigante é o de Edith Stein. Apaixonada pela fenomenologia, pelo retorno às coisas mesmas, esta aluna e assistente de Husserl despertou para a fé e até mesmo tomou o hábito de carmelita sem renegar suas convicções filosóficas, unicamente por preocupação interior de se completar, por preocupação com a sinceridade para com a filosofia e a razão, porque ela acabava de reconhecer que existia uma outra dimensão, não mais apenas intelectual mas espiritual. O que há de notável em seu caso é que, embora ela já fosse conhecida nos meios filosóficos, ela fez sua trajetória sem alarde, sem apostasia turbulenta e sem agitação exterior, mas em uma serenidade por assim dizer natural, com a única preocupação do aprofundamento de sua reflexão. Sua obra, Endliches und ewiges Sein, redigida no Carmelo de Echt, na Holanda, não é a de uma renegada, pois ela não abdica de forma alguma da fenomenologia, mas ela tenta trazer à luz de seu conhecimento na ordem da filosofia a questão da fé como um enriquecimento sobre um problema árduo. A fé não anulou sua razão, nem seu senso crítico, nem sua lucidez. Ela não enlouqueceu, mas ao contrário, assumiu seu trágico destino com a maior dignidade. Contrariamente a uma lenda mantida por três séculos, a aquisição da fé não é um empobrecimento nem um estreitamento, mas testemunha um desejo de aprofundamento ao sondar outras possibilidades que não as da representação por ideias. [Julien Freund, Philosophie philosophique]