STEIN, Edith. La science de la croix passion d’amour de Saint Jean de la Croix. Etienne de Sainte Marie. Beauvechain: Nauwelaerts, 1998
A NOITE DA FÉ CONSIDERADA COMO A VIA DA UNIÃO
- A segunda Noite, que é a da fé, ser mais obscura do que a primeira Noite, que é a dos sentidos, por referir-se à parte superior e racional do homem e, portanto, ser interior, cegando a luz da razão.
- Os teólogos definirem a fé como um hábito da alma que é certo, mas obscuro, porque faz crer verdades reveladas por Deus que estão acima de toda luz natural e superam desproporcionalmente o entendimento humano.
- A luz excessiva da fé, por seu grande excesso, constituir-se em obscuras trevas para a alma, pois supera e ofusca a luz natural do entendimento.
- O entendimento humano, por si mesmo, só poder adquirir conhecimento natural mediante os sentidos, necessitando de imagens e figuras dos objetos.
- A analogia do cego de nascença, que não pode formar ideia das cores, para ilustrar como a fé nos faz conhecer coisas nunca vistas nem ouvidas, sem termos referências que a elas se assemelhem.
- A fé exigir que se aceite simplesmente o que é anunciado, abstraindo da luz do conhecimento natural, o que a torna uma noite absolutamente obscura para a alma.
- A mesma fé, porém, trazer à alma uma luz de certeza absoluta que supera toda ciência, sendo a contemplação perfeita que permite formar uma justa ideia dela, conforme a Escritura: Se non credideritis, non intelligetis ("Se não crerdes, não compreendereis" - Isaías VII, 9).
- A fé não ser apenas uma noite obscura, mas também o caminho que conduz a alma à sua união com Deus, por ser ela que dá a conhecer Deus.
- Para ser conduzida a este fim pela fé, a alma deve entrar voluntária e ativamente na noite da fé, morrendo para suas forças naturais, sentidos e razão, a fim de alcançar a transformação sobrenatural.
- A alma dever desprender-se inclusive dos bens sobrenaturais quando concedidos, e de tudo o que o intelecto possa compreender, permanecendo como um cego nas trevas, apoiando-se apenas na fé obscura como seu guia.
- Quem não se torna completamente cego e ainda confia no pouco que vê, não se deixando conduzir apenas pelo guia, facilmente se desviar ou deter no caminho.
- Para alcançar a união com Deus, é necessário simplesmente crer que Deus é, o que não é uma operação do entendimento, da imaginação ou de qualquer sentido, pois nesta vida não se pode conhecê-Lo como Ele é.
- A alma que aspira unir-se perfeitamente a Deus nesta vida deve tornar-se insensível a tudo o que os sentidos e o coração podem perceber, conforme a citação de São Paulo: "o que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem penetrou" (1 Cor 2,9; Isaías LXIV, 4).
- O abandono do modo próprio de agir e o esforço para além dos limites naturais equivalerem a chegar a Deus, que é o Fim sem modo, pois a alma unida não possui mais modos próprios e possui todas as coisas como quem nada tem e tudo possui.
- Ao transcender seus limites naturais, a alma ingressar plenamente no sobrenatural, que contém todas as maneiras em substância, devendo elevar-se acima de todo o espiritual cognoscível naturalmente ou por via sensível.
- Quanto mais a alma despreza as coisas espirituais acessíveis em relação ao Bem supremo, mais avança na obscuridade rumo à união pela fé.
- São João da Cruz distinguir a união essencial, que Deus tem com todas as criaturas, da união e transformação da alma em Deus por amor, que é sobrenatural e só persiste quando a alma alcança a semelhança por amor.
- A união sobrenatural ocorrer quando as vontades de Deus e da alma se conformam numa só, o que exige que a alma se despoje interiormente de tudo o que é contrário à vontade divina, tanto em ato como em hábito.
- Porque nenhuma criatura pode, por sua ação ou capacidade, alcançar o ser de Deus, a alma deve desprender-se de toda a criação e de suas próprias capacidades para que sua transformação em Deus se realize.
- A luz divina habitar naturalmente na alma, mas esta só poder ser iluminada e transformada em Deus quando, por vontade divina, se esvazia de tudo o que não é Deus, ato que constitui o verdadeiro amor.
- Na união, Deus comunicar tão plenamente seu Ser sobrenatural à alma que esta parece ser o próprio Deus, chamando seu o que é de Deus, numa unidade de participação em que parece mais Deus que alma, embora conserve seu ser natural distinto.
A PURIFICAÇÃO DAS POTÊNCIAS ESPIRITUAIS CONSIDERADA COMO UM CAMINHO DE CRUZ E UMA MORTE NA CRUZ
- A purificação para a união transformante operar-se na razão pela fé, na memória pela esperança e na vontade pela caridade.
- A fé, ao mostrar Deus como luz inatingível e infinita perante a qual as potências naturais desfalecem, reconduzir a razão ao seu nada, fazendo-a reconhecer sua impotência e a grandeza de Deus.
- A esperança esvaziar a memória, ocupando-a com um bem que ainda não possui, conforme São Paulo: "pois o que se vê, como esperá-lo ainda?" (Romanos 8,24), ensinando a esperar tudo de Deus e a renunciar a todo gozo temporal.
- A caridade liberta a vontade de todas as coisas, impondo o dever de amar Deus sobre tudo, o que só se torna possível com a remoção do desejo pelas coisas criadas.
- Esta via de total renúncia ser identificada como a via estreita, que poucos encontram, e que conduz ao cume da perfeição, sendo o caminho da cruz indicado por Nosso Senhor: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Marcos 8,34).
- O que é exigido não ser um mero recolhimento ou aperfeiçoamento parcial, mas a renúncia absoluta a toda suavidade em Deus, aceitando a secura, o desgosto e os trabalhos da verdadeira cruz espiritual.
- Buscar a si mesmo em Deus, procurando seus dons e delícias, ser contrário ao amor, enquanto buscar Deus em si significa escolher, por amor a Cristo, o que há de mais insípido, tanto de Deus como do mundo.
- Odiar a própria alma para guardá-la implica renunciar, por Cristo, a tudo o que a vontade pode desejar, escolhendo o que mais se assemelha à sua cruz, o que equivale a beber o cálice com o Senheiro e morrer para a natureza sensível e espiritual.
- A abnegação e a cruz constituírem a única via estreita, sendo a cruz um bordão que aligeira a marcha, tornando suave o jugo e leve o fardo, como disse o Senhor (Mateus 11,30).
- O apego egoísta a qualquer coisa, mesmo divina, impedir o ingresso no caminho estreito do desnudamento total.
- Para as almas religiosas, o caminho que conduz a Deus não consistir na multiplicidade de considerações, exercícios ou sentimentos deliciosos, mas no verdadeiro renúncia interior e exterior, na prontidão para sofrer com alegria por Cristo e aniquilar-se em tudo.
- Cristo ser nossa via, e a imitação de seu exemplo exigir que se morra espiritualmente aos sentidos durante a vida e naturalmente na morte, como Ele, que não teve onde reclinar a cabeça.
- No momento de sua morte, Cristo ter experimentado o abandono total e o aniquilamento na alma, clamando: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" (Mateus 27,46), e foi nesse estado de maior aniquilamento que operou a maior obra: a reconciliação e união da humanidade com Deus.
- O homem espiritual deve compreender pelo mistério de Cristo que, quanto mais se aniquila por amor a Deus, mais se une a Ele, e a união espiritual suprema nesta vida realizar-se na morte viva na cruz, sensível e espiritual, e não em consolações ou sentimentos.
INAPTIDÃO DE TODAS AS CRIATURAS COMO MEIO DE UNIÃO. INSUFICIÊNCIA DO CONHECIMENTO NATURAL E SOBRENATURAL
- O coração da doutrina de São João da Cruz bater ao ensinar que o fim é a união a Deus, a via é Cristo crucificado, e o meio próprio é a fé, provando-se que nenhuma outra coisa criada ou pensada pode servir a esse fim.
- O meio de união deve ser proporcionado ao fim, e só a fé, por nos unir a Deus e Lhe ser semelhante, pode produzi-la, o que não se pode afirmar de nenhum ser criado.
- Embora as criaturas tenham uma certa relação com Deus e tragam seu vestígio, não há entre elas e Deus proporção ou semelhança essencial, sendo a distância infinita, pelo que o entendimento não O pode atingir perfeitamente por meio delas.
- Esta insuficiência aplicar-se também aos anjos, aos santos e a tudo o que a imaginação e a inteligência possam conceber nesta vida.
- O entendimento, a memória e a vontade serem incapazes, por si mesmos, de formar uma ideia proporcional a Deus, de criar imagens que O exprimam ou de saborear delícias semelhantes a Ele.
- Para chegar a Deus, deve-se procurar antes não entender, cegar-se e entrar nas trevas, do que abrir os olhos, razão pela qual o Areopagita chama à contemplação de "teologia mística", uma sabedoria secreta de Deus, um raio de trevas.
- A obscuridade que conduz a Deus ser a fé, meio único de união, pois O apresenta tal como é, infinito, uno e trino, e a ela assemelha-se por ambos cegarem a inteligência e aparecerem como trevas.
- A alma unir-se tanto mais estreitamente a Deus quanto mais cheia de fé estiver, cuja obscuridade a Escritura simboliza pela nuvem que envolvia Deus em suas aparições no Antigo Testamento.
- A luz da verdade estar escondida na obscuridade da fé, a qual, finda esta vida, resplandecerá sem véu.
- Entretanto, a fé proporcionar a contemplação, um conhecimento obscuro e geral, que se opõe não só à atividade natural do intelecto, mas também a conhecimentos sobrenaturais distintos, como visões, revelações, palavras interiores e sentimentos espirituais.
- Ser preferível rejeitar todas as aparições e percepções sensíveis, pois Deus comunica-se melhor ao espírito, com maior certeza e menos perigo, enquanto o sensível pode induzir ao erro, à estima própria e é terreno propício para a ação do demônio.
- Mesmo as comunicações sensíveis que vêm de Deus serem menos proveitosas por estimularem menos a oração, parecerem mais importantes que a fé e induzirem a alma a uma alta estima de si.
- A alma prudente e desapegada de tais fenômenos verá o demônio cessar sua ação e Deus conceder-lhe favores cada vez maiores, elevando-a à união divina, como ao servo fiel nas pequenas coisas (Mateus 25,21).
- As fantasias dos sentidos interiores, da imaginação e da fantasia também devem ser rejeitadas, pois não podem representar nada além do que os sentidos exteriores experimentaram, não constituindo um meio próximo para a união com Deus.
- As representações imaginárias de Deus, como fogo ou luz, poderem ser um meio afastado e necessário para os principiantes, mas a alma deve apenas passar por elas, sem aí se fixar, para chegar ao repouso do espírito.
- Os três sinais conhecidos da noite dos sentidos – falta de gosto na meditação, falta de inclinação para outra coisa e gosto em estar na quietude com Deus – indicarem o momento de abandonar a meditação discursiva.
- O conhecimento amoroso e geral ser geralmente o fruto de longa meditação, mas Deus pode infundi-lo instantaneamente na alma, colocando-a no estado de contemplação.
- Neste estado, a alma assemelhar-se a quem tem água à mão e se sacia sem esforço, possuindo um conhecimento confuso, saboroso e tranquilo onde bebe sabedoria, amor e sabor, sem necessidade de raciocínios ou imagens.
- As inquietações nesta fase provirem da incompreensão do estado e da volta à reflexão, agora inútil, enquanto na contemplação as faculdades superiores atuam em concerto.
- Quanto mais puro, simples e interior for o conhecimento geral, mais ele será livre, doce e subtil, podendo a alma cair num profundo esquecimento, onde o tempo parece curto.
- Esta oração curta penetrar os céus por a alma estar unida a Deus pela inteligência, deixando como efeito uma elevação do espírito e um desapego de todas as formas.
- A vontade ser inundada por um gozo de amor, e a atividade da alma reduzir-se a receber passivamente as iluminações divinas, sendo a aplicação a assuntos particulares um obstáculo à luz geral do espírito divino.
- A alma, ao esvaziar-se de todos os véus das criaturas e dedicar-se à pobreza de espírito, transformar-se na pura Sabedoria divina, que é o Filho de Deus, recebendo então a paz e conhecimentos divinos acompanhados de amor.
- No alto estado de união, Deus comunicar-se à alma não por visões ou figuras, mas "boca a boca" (Números 12,6-8), onde a essência de Deus se comunica à essência da alma pela vontade amorosa.
- Deus conduzir a alma a este cume gradualmente, adaptando-Se à sua natureza, comunicando-lhe o espiritual inicialmente por vias sensíveis e imaginárias, das quais a alma deve tomar apenas o espírito de devoção.
- No Antigo Testamento, as visões e revelações serem permitidas e necessárias, mas, com a vinda de Cristo, em quem estão todos os tesouros da sabedoria, desejar novas revelações seria falta de fé.
- Os fiéis devem deixar-se conduzir pelo ensinamento de Cristo homem, de sua Igreja e de seus ministros, não crendo em nada sobrenatural que não esteja conforme a esse ensinamento.
- Deus querer que os homens sejam governados por outros homens e pela razão natural, não dando inteira crença às verdades sobrenaturais antes de confirmadas pela autoridade humana.
- As comunicações puramente espirituais, ou visões intelectuais, apresentarem-se à inteligência sem intermediação dos sentidos, de modo passivo, e São João da Cruz distingui-las em visões, revelações, locuções e sentimentos espirituais.
- As visões intelectuais de substâncias espirituais, como Deus e os anjos, normalmente exigirem a luz da glória e, nesta vida, só se dão por exceção, como em São Paulo, requerendo a suspensão da vida natural.
- Ordinariamente, as substâncias espirituais podem ser "sentidas" na substância da alma por uma obscura e amorosa notícia, que é a fé, meio para a união divina nesta vida.
- As visões espirituais de coisas corpóreas, percebidas pela inteligência em luz sobrenatural, serem mais nítidas que a visão corporal e imprimirem-se profundamente na alma, produzindo efeitos de paz, amor e humildade.
- Apesar de seus bons efeitos, a alma deve recusar o apego a tais visões, pois o apego a qualquer criatura é um obstáculo no caminho do desapego total que conduz a Deus.
- A fé pura poder conduzir a alma a um amor muito superior ao que o mero recordar das visões pode produzir.
- São João da Cruz distinguir, sob o nome de revelações, as notícias intelectuais de verdades e as revelações propriamente ditas de segredos.
- As notícias intelectuais sobre Deus darem um sentimento profundo de seus atributos, gravando-se duravelmente na alma e sendo incomunicáveis por palavras.
- As altas notícias de amor, que são a própria união divina, serem certos toques da divindade na substância da alma, capazes de limpá-la de todas as suas imperfeições e enchê-la de bens em um instante.
- Uma só dessas notícias poder compensar a alma de todos os trabalhos da sua vida, sendo concedidas por Deus à sua discrição, sem que a alma deva procurá-las nem rejeitá-las, mas manter-se humilde e desapegada.
- As notícias sobre coisas, ações e eventos humanos pertencerem ao espírito de profecia e ao dom de discernir os espíritos, exigindo que a alma submeta seu juízo a um diretor espiritual, pois a fé é via mais segura.
- As revelações propriamente ditas, que concernem a mistérios da fé ou a ações divinas, não devem ser cridas por si mesmas, mas apenas se conformes ao ensinamento da Igreja, sendo mais seguro caminhar pela noite obscura da fé.
- As locuções intelectuais dividirem-se em sucessivas, formais e substanciais.
- As locuções sucessivas serem palavras e raciocínios que o espírito forma com facilidade quando profundamente recolhido, sob a iluminação do Espírito Santo, mas não estão isentas de erro pela mistura da própria capacidade natural.
- A luz da fé ser infinitamente superior a estas verdades particulares, pois nela comunica-se a própria Sabedoria de Deus, o Filho, pelo que a alma deve aplicar-se antes a amar e sofrer por Deus.
- As locuções formais serem recebidas pela alma sem sua contribuição, podendo ser breves ou longas, e a alma não lhes deve fazer caso, consultando sempre um diretor espiritual antes de agir.
- As locuções substanciais produzirem na alma, pela sua própria virtude, o que significam, como infundir amor ou coragem, operando um bem maior que todas as obras da vida, sem perigo de ilusão, pois nem o entendimento nem o demônio podem agir de modo tão substancial.
- Os sentimentos espirituais poderem residir na afetividade da vontade ou, de modo mais sublime, na substância da alma, sendo concedidos por Deus soberanamente, sem depender diretamente dos méritos ou obras.
- A inteligência receber desses sentimentos uma luz e um conhecimento de Deus elevados e saborosos, mas indefiníveis.
- Para não obstruir estas graças, o entendimento não deve intervir com sua atividade natural, e a alma deve manter-se em tranquilidade, humildade e abandono, sem desejá-las, para que Deus as comunique quando Lhe aprouver.