STEIN, Edith. La science de la croix passion d’amour de Saint Jean de la Croix. Etienne de Sainte Marie. Beauvechain: Nauwelaerts, 1998
A Cruz e a Noite (Noite dos Sentidos)
Signo representativo e expressão cósmica
Inicialmente, é preciso nos perguntar se a cruz e a noite constituem símbolos no mesmo sentido da palavra. Este vocábulo comporta, com efeito, vários significados. É frequentemente tomado em um sentido muito amplo. Compreende, então, tudo o que cai sob os sentidos e por meio do qual designamos algo de espiritual ou bem tudo o que é conhecido pela experiência natural e por meio do qual é significado algo de desconhecido ou que mesmo não pode ser demonstrado por nossos conhecimentos naturais. Segundo esta ampla acepção, a Cruz, assim como a Noite, pode ser chamada de símbolo. Mas assim que consideramos a distinção entre sinal e figura, um contraste aparece.
A figura como imagem faz ver o figurado graças a uma íntima semelhança que ela tem com ele. Quem a vê é imediatamente remetido ao original que ele reconhece nela ou que ele aprende a conhecer por ela. Mas entre o sinal e o que ele designa, esta conformidade substancial não é necessária. Suas relações são estabelecidas em uma base arbitrária: para compreender o sinal, será preciso, de antemão, conhecer esta base. A cruz não é, evidentemente, uma figura no sentido próprio da palavra. Quando se diz dela que é uma imagem carregada de sentido (Sinnbild) não se diz muito mais do que se a chamamos de símbolo na ampla acepção da palavra da qual acabamos de falar. Trata-se sempre de um objeto concreto que evoca para nós um sentido que se encontra escondido nele. Entre a cruz e a dor, não existe semelhança imediata que se possa apreender, nem, aliás, relação arbitrária entre estes dois sinais. É por sua história que a cruz acabou por receber esta significação. A cruz não é um objeto dado como tal pela natureza, é um instrumento moldado pela mão do homem e empregado com um fim totalmente determinado. Como instrumento, ela desempenhou na história um papel de um alcance incomparável. Quem vive em um ambiente cristão conhece algo deste papel. É por isso que pela simples intuição da cruz somos introduzidos imediatamente na plenitude da ideia que está ligada a ela. Ela é, portanto, um sinal, mas um sinal à parte. A significação que comporta não foi adicionada a ela de maneira artificial, mas lhe retorna verdadeiramente em razão de sua ação e de sua história. Sua forma visível sozinha evoca em nós um conjunto de ideias no qual ela se encaixa. Ela merece, portanto, ser chamada de um sinal representativo.
A noite, por outro lado, é algo de natural; é o contrário da luz que nos envolve, a nós e a todas as coisas. Ela não é um objeto no sentido próprio da palavra: não se opõe a nós e não tem consistência por si mesma. Não é tampouco uma figura, na medida em que se entende por isso uma forma visível. Ela é informe e invisível. E, no entanto, a percebemos, ela está, aliás, mais próxima de nós do que todas as formas e todas as coisas, e bem mais estreitamente unida ao nosso ser. Da mesma forma que a luz faz as coisas aparecerem com seus caracteres visíveis, assim a noite as engole enquanto ameaça nos engolir com elas. O que se perde nela, não é simplesmente o nada: isso continua a existir, mas de uma forma vaga, invisível e informe como a própria noite ou bem de uma forma tenebrosa e fantasmagórica e, por esta razão, cheia de ameaças. Além disso, nosso próprio ser não é apenas ameaçado do exterior pelos perigos escondidos na noite; interiormente também é surpreendido pela noite. Ela nos tira o uso dos sentidos, impede nossos movimentos, paralisa nossas forças, nos bane para a solidão e nos converte a nós mesmos em trevas e em fantasmas. Ela é como um presságio da morte. Tudo isso não tem apenas importância para a vida de nossos corpos. Tudo isso age também em nossa vida espiritual e intelectual.
A noite cósmica age sobre nós da mesma maneira que o que chamamos de noite no sentido figurado. Ou, inversamente, o que age em nós de maneira semelhante à da noite cósmica, este algo é chamado de noite. Antes, no entanto, de tentar compreender bem este algo, é preciso ver com clareza que a noite cósmica possui, de fato, uma dupla face.
À noite escura e pouco tranquilizadora se opõe a noite encantada do luar, aquela que se banha na luz suave e terna. Aquela não engole as coisas, ao contrário, ela lhes permite fazer aparecer sua face noturna. A dureza, o corte, o brilho das coisas, tudo é desbotado e suavizado. Traços essenciais se descobrem que jamais aparecem na luz brilhante do dia. Vozes que os ruídos do dia ensurdecem também se deixam perceber. Não apenas a noite cheia de claridade, mas a noite escura também, possui seu valor próprio. Ela põe fim à pressa e aos ruídos do dia, trazendo o repouso e a paz. Tudo isso age igualmente na alma e no espírito. Existe uma suave claridade noturna do espírito na qual, livre do peso das ocupações do dia, destacado e recolhido ao mesmo tempo, ele é levado para o profundo acordo harmonioso de seu ser e de sua própria vida, do mundo e do além. Há um profundo repouso cheio de gratidão na paz da noite. É preciso pensar em tudo isso se quisermos compreender o simbolismo da noite em São João da Cruz.
Quando em seus tratados o nosso Pensador discorre sobre a noite, há no fundo toda a plenitude do que esta palavra representa para o homem e o poeta. Tentou-se, na medida em que se tratava ali de uma expressão simbólica, descrevê-la em alguns traços, sem, no entanto, esgotar o assunto. Por agora, esforcemo-nos por apreender o que, dessa maneira, se deve exprimir simbolicamente. João expôs-no detalhadamente e havemos de retornar a este assunto. Por ora, trata-se apenas de lançar-lhe um primeiro olhar para tornar aparente o que de característico tem o subjacente laço simbólico.
A noite mística não se deve compreender à maneira da noite cósmica. Não é, de fato, do exterior que ela penetra. Tira, ao contrário, sua origem do fundo íntimo da alma e surpreende, ademais, unicamente a alma na qual ela cai. Contudo, os efeitos que produz no interior dessa alma são em tudo comparáveis aos da noite cósmica. Determina uma submersão do mundo exterior, mesmo quando este se estende ao redor na plena claridade do dia. Transpõe a alma para a solidão, o abandono e o vazio, embaraçando a atividade de suas forças e amedrontando-a pela ameaça de todos esses temores que abriga em si. No entanto, aqui também se levanta uma claridade noturna que, no fundo íntimo da alma, descobre um mundo novo. Essa mesma claridade ilumina tão bem pelo interior o mundo exterior que este nos é restituído em seguida completamente transformado.
Procuremos, pois, tanto quanto possível, partindo destas poucas considerações preliminares, esclarecer a relação que existe entre a noite cósmica e a noite mística. É evidente que não se trata aqui de relação entre signos, nada tendo sido estabelecido do exterior ou de forma arbitrária. Não se trata tampouco para o signo representativo de um acordo proveniente de causas ou de fatos históricos. O que autoriza aqui e ali o emprego do mesmo termo é simplesmente a ampla conformidade que ele encerra.
Quando se fala da noite enquanto figura, quer-se certamente dizer por aí que este nome cabe em primeiro lugar à noite cósmica. Mas se pode dizer também que este termo é aplicável à noite mística a fim de fazer apreender, por uma coisa perfeitamente conhecida e familiar, algo desconhecido e difícil de apreender, mas que, no entanto, lhe é semelhante. Não pode, todavia, ser questão aqui de semelhança entre essas duas imagens. Com efeito, uma não constitui uma imagem da outra. Deve-se antes pensar na relação que possui a expressão simbólica tal como existe geralmente entre o sensível e o espiritual.
É assim que a fisionomia e a mímica são expressões da vida e das qualidades distintivas da alma e assim ainda que se manifestam na natureza o espiritual e mesmo o divino. A existência de uma comunidade de origem e de uma homogeneidade real torna o sensível apto a dar a conhecer o espiritual. Entre essas duas imagens, resta como relação apenas uma semelhança, mas uma semelhança, contudo, na qual o que é idêntico dos dois lados não é propriamente discernível, pois se pode indicá-lo somente pela conformidade de certos traços. O que é característico nesta relação de imagens não é apenas essa ausência de semelhanças, mas ainda essa circunstância de não haver aqui figuras de contornos bem definidos.
Há aí também uma oposição com a expressão mímica. Com efeito, uma mudança de fisionomia bem determinada que o artista pode reproduzir com seu pincel ou seu lápis corresponde a um processo similarmente bem determinado da alma. A noite, no entanto, quer se trate da noite cósmica ou da noite mística, é algo informe, algo que nos apreende. A plenitude de vistas que ela encerra, pode-se apenas designá-la, mas não esgotá-la. Encerra de fato toda uma visão do mundo e toda uma concepção da existência. É aí justamente o que a noite e a cruz têm em comum. Tem-se de parte a parte algo de inapreensível e ao mesmo tempo algo cuja significação é tão ampla que uma pode coincidir com a outra e mesmo servir de introdução à outra. Esta introdução à outra não se realiza segundo uma escolha arbitrária ou segundo uma comparação construída conforme um plano preconcebido, mas graças a uma experiência simbólica. Como se depara aqui com um conjunto de intuições primitivas e originais que não podem se traduzir em linguagem abstrata, tem-se necessariamente recurso a uma expressão figurada.
Estamos presentemente em condições de resumir brevemente a diferença que separa o caráter simbólico da Cruz daquele da noite. A cruz é o signo que nos representa tudo o que se relaciona à Cruz de Cristo, quer se trate de uma relação de causa ou de uma relação histórica. A noite, por outro lado, é a indispensável expressão cósmica do mundo místico tal como o contempla são João da Cruz. A predominância do símbolo da noite é um indício de que, nos escritos do santo Doutor da Igreja, não era o teólogo, mas o poeta e o místico que tinham a palavra, mesmo quando o teólogo vigiava conscienciosamente os pensamentos assim como sua expressão.