ENTRALGO, Pedro Lain. La Curacion por la Palabra en la Antigüedad Clasica. Madrid: Revista de Occidente, 1958.
- A Palavra Terapêutica no Epos Homérico
- O historiador exposto a dois riscos contrários na interpretação do epos homérico e de toda a literatura helênica, chamados "idealização" e "primitivização".
- A Ilíada e a Odisseia como paradigma e ponto de partida desde a Antiguidade até o século XVIII.
- A consideração dos poemas homéricos como "o germe de quase tudo o que no ordem humano veio depois: o bom, segundo o parecer da maioria; o mau, ou ao menos parte do mau, segundo o juízo de alguns, presididos pelo numen ilustre de Platão".
- A constituição dos poemas homéricos durante vinte e cinco séculos como o exemplar mais qualificado e eminente da obra "clássica".
- A visão do historiador e do filólogo, desde o século XIX, nos poemas homéricos, não do que deles tenha sido "origem", mas do que neles é "resultado", mostrando-se como documentos "arcaicos".
- O sentido profundo da famosa "questão homérica".
- A análise do "venerando conteúdo dos hexâmetros de Homero" desde os modos "primitivos" ou "selvagens" de pensar e de agir, olhando-se o conteúdo não tanto desde o que seja posterior a ele, mas desde o que a ele tenha sido anterior.
- A conversão do "clássico" em "primitivo" e, ao mesmo tempo, do "primitivo" em "clássico" pelo helenista atual.
- A advertência de que "após a sistemática idealização da obra homérica, acaso hoje aponte o risco de sua excessiva primitivização".
- A necessidade de a consideração etnológica da Ilíada e da Odisseia não perder de vista o que logo foi a cultura grega.
- O valor dos poemas homéricos como "o sillar primeiro da cultura ocidental", tanto quanto um documento arcaico.
- O risco de "idealização" que os médicos que estudaram Homero têm sofrido, movidos pelo fervor de sua helenofilia, idealizando o poeta "até convertê-lo, como de Hipócrates disse Galeno, em 'inventor de todos os bens'"cite: 35, 36, 40.
- O exemplo da limpeza da sala de Ulisses com fumo de enxofre ardente (theeion) após a morte dos pretendentes, interpretada por O. Körner como medida de caráter higiênico e pelo fato de Ulisses chamar o enxofre kakon akos, "remédio dos males".
- A opinião de A. Botto de que Ulisses usa para "desinfectar" sua casa "um procedimento da mais acabada higiene", a fumigação com enxofre, e o seu espanto com "a previsão de todas estas operações, regida pela mais escrupulosa regra higiênica".
- A idealização médica de Körner e Botto, esquecendo o primeiro que a expressão kakon eidos não indica "aspecto morboso", mas "feiura" (Ilíada, IV, 316), e que kake gyne significa "mulher malvada", não "mulher enferma" (Odisseia, XI, 383).
- A desconsideração por Körner e Botto de que a fumigação com fumo de enxofre (peritheiosis) foi na Grécia durante muitos séculos "rito purificatório ou catártico, expediente religioso contra a impureza moral, e não medida 'higiênica', no sentido atual desta palavra".
- A aspiração de evitar os dois escolhos de "idealização" e "primitivização" nas reflexões sobre a visão homérica da doença humana e seu tratamento.
- O reconhecimento do caráter arcaico do epos, sem desconhecer o valor perenemente humano e exemplar de muitas de suas páginas, como a despedida de Heitor e Andrômaca.
- A sutilíssima sacudida intelectual lida na Odisseia sobre "a redução da physis da moly, essa enigmática planta assim chamada pelos deuses, a um preciso, nítido e comprovável conjunto de propriedades visuais".
- O reconhecimento da condição arcaica e nada "racional" da atitude homérica frente ao estado de ânimo que o epos chama ate, "o cegador arrebato passional da alma humana".
- Um exame detido dos textos do epos em que aparece a enfermidade humana
- Distinção de quatro modos distintos de conceber e interpretar a enfermidade: o traumático, o punitivo, o ambiental e o demoníaco.
- O modo traumático
- Lesões traumáticas como as afecções morbosas mais frequentemente mencionadas, sobretudo na Ilíada.
- A atitude intelectual de Homero frente às afecções traumáticas, que são "consequência imediata de uma violência material, visível pelos olhos do espectador e racionalmente compreensível para sua inteligência".
- O dilema dos Cíclopes na aventura de Ulisses e Polifemo: "ou enfermidade por violência externa (bia, biephi), ou enfermidade (nousos) enviada por Zeus", abrangendo os acidentes morbosos cuja causa pode ser claramente vista e entendida, ou seja, as lesões traumáticas de qualquer índole.
- O modo punitivo e divino
- Distinção das afecções traumáticas e oposição a elas das "enfermidades, tantas vezes mortais, enviadas pelos deuses aos homens".
- O começo da Ilíada com a descrição da peste que Apolo lança sobre os aqueus para castigar o rapto da filha de Crises por Agamenon, sendo a condição punitiva da enfermidade "por completo indubitável".
- A visão do acidente morboso como castigo no caso da morte dos doze filhos de Níobe, castigada com a cólera de Apolo e Artemis por incorrer em pecado de hybris (desmedida).
- As enfermidades que causam a morte a Laodamia, à mãe de Andrômaca, a Rexênor e aos habitantes da ilha Síria, não atribuídas a castigo divino, apesar de terem sido enviadas pelos deuses.
- A melancolia do "hazañoso" Belerofonte, motivada pelo ódio pertinaz dos deuses, não parece castigar delito algum contra a divindade.
- O estremecedor problema humano da dor não merecida que aponta nestas enfermidades infligidas pelos deuses.
- O modo ambiental
- A atribuição de uma causa natural, externa e não traumática à enfermidade, como quando Ulisses teme morrer vítima do frio da noite (Odisseia, V, 453 ss.).
- O modo que Héctor quer evitar, rejeitando a bebida oferecida por sua mãe, pensando na possível ação nociva do vinho (Ilíada, VI, 264-265).
- O modo que podem engendrar as "drogas mortíferas" (thymophthora pharmaka) que Telêmaco havia de buscar em Efira (Odisseia, II, 329).
- A menção do "excessivo calor" (pollon pyreton) que produz a estrela Orion (Ilíada, XXII, 25-31).
- O modo demoníaco
- A atribuição de uma origem demoníaca ao adoecer humano, clara em um texto da Odisseia (V, 394-398).
- A comparação da terra, que aparece diante de Ulisses, náufrago, com a saúde de um pai postrado pela enfermidade (nouso), "presa de graves dolores, consumindo-se por causa da perseguição de um demônio hostil (daimon), se os deuses o livram do mal (kakotes)".
- A essência da enfermidade
- A concepção da enfermidade por F. E. Clements entre os chamados "povos primitivos" em três formas: como uma perda ou evasão da alma do paciente, como a penetração mágica de um objeto em seu corpo ou como a possessão do homem por espíritos malignos.
- Indícios da primeira forma em Homero, onde a possível enfermidade letal por frio é interpretada como exalação ou perda do thymos, embora o termo não seja equivalente ao de psyche.
- A ideia de evasão da psyche como causa imediata do acidente morboso na precisa descrição dos desmaios sofridos por Sarpedón e Andrômaca.
- A concepção de enfermidade como possessão demoníaca, expressa sem rodeios no fragmento da Odisseia (V, 394-398) antes transcrito, onde a penetração de um daimon hostil consume o corpo da vítima.
- A visão da enfermidade como penetração mágica de um objeto
- A descrição da peste no canto I da Ilíada, onde Apolo, "o que fere de longe", atira suas flechas primeiro contra as mulas e os ágeis cães, e depois sobre os homens.
- As flechas de Apolo representando a chegada do agente morboso ao corpo do enfermo: "um objeto físico, ainda que invisível, cuja presença em quem o recebe se manifesta sob forma de impureza ou contaminação material (lyma)".
- A impureza suscetível de lustração catártica mediante a água do mar.
- A enfermidade enviada por Apolo consistindo "de maneira imediata, em um objeto impurificador, em uma realidade material 'divinamente sobre-adicionada' ao corpo do paciente; em suma, em uma 'mancha' física".
- O parentesco entre esta concepção do estado morboso e a ideia da intrusão mágica de um objeto estranho e nocivo.
- O quadro da natureza na mente do grego homérico
- O pensamento médico e a ideia da natureza se acham sempre muito direta e imediatamente relacionados entre si, e a obra de Homero não é uma exceção.
- A palavra physis no epos
- A palavra physis empregada no epos somente uma vez (Odisseia, X, 303), com significação muito eloquente, mas restringida.
- O aparecimento mais frequente do verbo que procede desse nome, phyein ("crescer", "brotar", "nascer") e o adjetivo physizoos (no sentido de "fértil" ou "fecundo").
- A definição de natureza (physis) para Homero como "o conjunto de tudo o que nasce e cresce, a realidade do que brota e se configura por obra de um impulso gerador".
- As coisas que nascem e crescem existindo conforme a um destes dois possíveis destinos: "a imortalidade, sob forma de vida perene e sempre fecunda, e a caducidade e a morte".
- A delimitação de duas zonas: "o mundo dos deuses, os quais nascem e não morrem, e o dos seres que logo chamarão 'sublunares', sujeitos ao imperativo de corromper-se e perecer: as nuvens e as rochas, as águas do mar, as plantas, os animais, o homem".
- Notas que definem a visão da Natureza nos poemas homéricos:
- A mutabilidade: as realidades naturais são por si mesmas cambiantes, e o autor do epos adiciona aos movimentos percebidos diariamente outros que o homem atual chamaria "extraordinários" ou "preternaturais".
- A divindade das propriedades e os movimentos dos seres naturais: os deuses atuam sobre o mundo visível "naturalmente", e algumas coisas do mundo visível são "divinas".
- A conclusão de que "no mundo homérico não há solução de continuidade entre os movimentos do cosmos que parecem espontâneos e os que a vontade dos deuses diretamente suscita; ou, mais concisamente, entre o 'natural' e o 'divino'".
- A frase atribuída a Tales de Mileto por Aristóteles: "tudo está cheio de deuses".
- A caducidade: os seres do mundo visível são caducos, e "no seio da vigorosa luminosidade do mundo homérico late, invencível, a melancolia".
- As famosas palavras de Glauco a Diomedes: "Qual a geração das folhas, assim a dos homens. Esparce o vento as folhas pelo solo, e a selva, reverdecendo, produz outras ao chegar a primavera: de igual sorte, uma geração humana nasce e outra perece" (Ilíada, VI, 145-149).
- A incipiente regularidade: o movimento das realidades naturais não é caprichoso, havendo nele uma regularidade profunda e patente se observado com calma e precisão.
- A acuidade e a exatidão da mirada do poeta, jamais igualadas em nenhuma das restantes narrações épicas da humanidade.
- A observação de que quem sabe contemplar a realidade sensível com tanta minúcia tem que observar "a existência de hondas regularidades, e não só quanto ao curso dos astros e ao ritmo da vegetação, mas também no tocante à intervenção do homem sobre os processos naturais que lhe são acessíveis e às propriedades operativas dos seres que sobre a terra nascem e morrem".
- O princípio implícito que rege a técnica cirúrgica da Ilíada: "Se na realidade vivente do corpo humano ferido se faz tal coisa, disto resultará tal outra", expressão de uma regularidade da Natureza.
- O texto da Odisseia (X, 302-307) em que Homero descreve a erva moly, chamando physis à realidade caracterizada por nascer e crescer, possuir uma figura constante suscetível de descrição precisa, e levar em seu seio uma propriedade operativa.
- A definição de physis como "a regularidade com que uma aparência visível – um eidos – manifesta a existência latente de uma propriedade".
- O germe da physiologia dos pensadores jônicos e, portanto, da filosofia grega e da ciência natural do Ocidente, nessas simples palavras homéricas.
- A exortação para não ver em Homero o primeiro homem de ciência do Ocidente, mas "o homem em que por vez primeira se expressa a mentalidade que fez possível a ciência europeia".
- As práticas terapêuticas
- O marco e o fundamento do "pensamento terapêutico do epos" na realidade sensível, mostrada a Homero como "mudável, divinamente movida, caduca e regular".
- A maior parte das práticas pertencentes aos três capítulos que o pensamento grego ulterior distinguirá na arte de curar: o cirúrgico, o farmacêutico ou medicamentoso e o dietético.
- A necessidade de indagar o relativo à catarse e ao ensalmo, práticas terapêuticas menos estudadas.
- A Catarsis
- A descrição de práticas catárticas, ou pelo menos a alusão a elas, frequente na Ilíada e na Odisseia.
- O problema da intenção de purificação da doença na conduta dos aqueus diante da peste no canto I da Ilíada.
- O discurso de Aquiles para consultar algum adivinho para saber a causa da ira de Apolo, e se ele "acaso recebendo fumo fragrante de cordeiros e cabras escolhidas queira livrar-nos da peste".
- A resposta do áugur Calcante Testórida: "O que fere de longe... não nos livrará aos dánaos da odiosa peste enquanto a donzela dos alegres olhos não for devolvida a seu pai e levemos a Crisa uma sagrada hecatombe".
- A ordem de Agamenon de que "os homens se purificassem (apolymainesthai), e eles fizeram a lustração, atirando ao mar as impurezas (lymata), e sacrificaram à beira do solitário pélago, em honra de Apolo, hecatombes perfeitas de touros e cabras".
- A súplica de Crises a Apolo para que cesse sua cólera: "Afasta já dos dánaos a abominável peste!".
- O aplacamento do deus pelos aqueus "com o canto, entoando um formoso peã a Apolo, o que fere de longe, que lhes ouvia com o coração complacido".
- Os três momentos da conduta terapêutica dos aqueus: "a resoluta terminação do estado de injustiça cujo castigo havia determinado a enfermidade, a satisfação do deus enojado... e a lustração purificadora".
- A negação de O. Körner de que o banho lustral seja uma verdadeira katharsis religiosa e moral, afirmando que foi "tão só uma medida higiênica".
- A objeção de Zóilo e outros sobre a inconsequência de Apolo, que deveria ter castigado a Agamenon e não a anônima multidão de soldados, mulas e cães.
- A prevalência entre os filólogos e historiadores das religiões, como Wächter, Nilsson e Dodds, da atribuição de um caráter rigorosamente catártico ao banho dos sitiadores de Tróia.
- A afirmação de Dodds de que "parece do todo claro que as purificações descritas na Ilíada, I, 314, e na Odisseia, XXII, 480 e seguintes, sejam de índole catártica, conforme ao sentido mágico da palavra".
- A refutação à objeção moral de Zóilo e Körner pela demonstração de Glotz de que "o pecado de Agamenon era, para uma mente arcaica, um pecado do povo de Agamenon, e a todo esse povo havia de chegar, de um modo ou outro, o castigo divino".
- O desconhecimento do decisivo caráter "terapêutico" do banho lustral pelos autores.
- O erro da observação de Moulinier de que a lustração é um prelúdio da hecatombe e que "antes de orar há que lavar-se", por esquecer que, quando Agamenon ordena o banho lustral, a peste ainda não cessou no acampamento aqueucite: 337, 338, 340.
- A precedência da lustração dos aqueus à restituição efetiva de Criseida e à dupla hecatombe.
- O banho dos aqueus no canto I da Ilíada como catártico em duplo sentido: "dispõe ritualmente para o sacrifício aos homens que vão a oferecê-lo, e o faz limpando-lhes ou purificando-lhes da impureza ou contaminação física (lyma) em que cobra realidade sensível e morbígena o castigo infligido por Apolo".
- O tratamento da peste de índole catártica, e a catarsis tendo, em tal caso, "uma intenção a uma vez ritual e terapêutica".
- O Ensalmo
- A utilização terapêutica do ensalmo ou conjuro (epode), com indubitável caráter mágico, mencionada uma só vez no epos homérico.
- A cura da ferida de Ulisses após ser ferido por um javali por meio de vendagem e de um ensalmo (epaoidé) para estancar o fluxo de sangue negruzca (Odisseia, XIX, 457).
- A distinção de uma parte puramente médica (o hábil vendagem) e outra genuinamente mágica (a recitação do ensalmo).
- A observação de Scheftelowitz e Pfister de que os verbos grego deo e latino ligare significam com frequência o ato de encantar atando ou ligando.
- A interpretação de Pfister de que a ligadura (desan) e o ensalmo se unem, e a intervenção dos filhos de Autólico teria "desde seu começo até o fim, um caráter pura e exclusivamente mágico".
- A epaoidé dos filhos de Autólico como testemunho literário de uma tradição muito mais arcaica.
- A vigência da epode mágica na medicina popular da Hélade, com caráter oscilante entre o conjuro (intenção imperativa ou coactiva) e o ensalmo (intenção de impetração, súplica).
- A provável composição do ensalmo de Ulisses por palavra e música, uma fórmula verbal salmodiada ou cantada.
- A existência do ensalmo de intenção terapêutica já nas origens da cultura grega.
- Outras formas de uso da palavra de intenção curativa
- A impetração não mágica da saúde, sob forma de plegaria (eukhe) aos deuses.
- O peã que Ulisses e seus companheiros elevam a Apolo para aplacar a ira do deus, como clara e bela amostra do emprego impetrativo da palavra, em ordem à cura da enfermidade.
- A alusão dos Cíclopes a uma possível plegaria de Polifemo a Posseidon se sua enfermidade não é causada por uma violência exterior visível.
- O ensalmador pretendendo obrigar em alguma medida à natureza, enquanto o orante não passa de pedir aos deuses um curso favorável dos eventos naturais.
- A conversação sugestiva e roborante com o enfermo.
- As palavras de Néstor a Macaón e Patroclo a Eurípilo, distintas do ensalmo e da plegaria, quanto a sua intenção curativa.
- O ato de Néstor e Macaón de "recrear mutuamente com seus relatos, mythoisin terponto" (Ilíada, XI, 643).
- O ato de Patroclo de curar tecnicamente a ferida de Eurípilo e "entretê-lo com palavras (eterpe logois) e curando-lhe a grave ferida com drogas que lhe mitigassem seus acerbos dolores" (Ilíada, XV, 392-94).
- A utilização terapêutica da palavra humana com um designo distinto: "deliberada utilização de alguma das ações psicológicas – psicosomáticas mais bem – que o dizer humano pode produzir em quem o ouve", neste caso, a ação de recrear ou contentar o ânimo (terpo).
- O terapeuta falando para que "o efeito recreativo das palavras que então pronunciam coopere de algum modo à correta execução e ao bom êxito de sua operação terapêutica".
- O "encantamento" dos enfermos não sendo consequência da virtude mágica de uma fórmula verbal, mas "o sugestivo deleite que o que se diz, quando 'de seu' é deleitável, produz por sua significação mesma na alma de quem o escuta".
- O emprego "natural" da ação psicológica que por si mesma possui a fala do homem.
- A peculiaridade e a estrutura do ensalmo e do dizer prazeroso
- A palavra mágica como ensalmo (epode).
- A prática da epode na maioria das culturas primitivas e arcaicas, florescendo visivelmente na de Egito, Suméria ou pré-helênicas.
- A pretensão do ensalmo de obrigar a natureza, mediante a recitação ou o canto de uma expressão verbal, ao cumprimento do que dela se deseja.
- O ensalmo terapêutico grego não reservado aos membros de uma casta determinada, como sacerdotes, xamãs ou Medicine-men.
- O ensalmo não dirigido à pessoa do enfermo, mas sim às "potências que de maneira normal ou em transe anômalo regem os movimentos da natureza".
- O presunto mecanismo da ação mágica não provindo de "nomear" secreta e magicamente a realidade, mas de "encantar" ou "seduzir" o ânimo das potências divinas e invisíveis que governam o processocite: 469, 470, 471.
- A fórmula verbal do ensalmo grego não sendo "palavra secreta", mas "expressão funcional mais ou menos adequada à natureza do fim que se pretende alcançar".
- A repetição, mutatis mutandis, para a epaoidé com que é tratada a ferida de Ulisses, do que se diz do peã de Ulisses e seus companheiros: "Apolo lhes ouvia com o coração complacido" (Ilíada, I, 474).
- A possível virtude catártica do ensalmo se este tivesse como fim a expulsão ou inatividade de um daimon nocivo.
- A palavra de intenção psicológica como "dizer prazeroso" (terpnos logos) ou "sugestivo" (thelkterios logos).
- O alto prestígio que a fala e suas diversas operações psicológicas possuem no epos.
- A cultura grega, "magicamente umas vezes, racionalmente outras, é uma cultura do logos, da fala".
- O "dizer prazeroso" dirigido ao enfermo, não a sua intimidade moral, mas a seu ânimo ou thymos, ou seja, ao que nele é "capaz de produzir movimentos afetivos e somáticos".
- Néstor e Patroclo falando à natureza individual de seus pacientes, o que manifesta "uma vez mais" o contraste entre o personalismo da mentalidade semítica e o naturalismo da mentalidade grega.
- A ação terapêutica exercida pela eficácia que naturalmente possui o que dizem, "não por obra de uma presunta virtude mágica desse dizer seu".
- A operação curativa do terpnos logos sendo "natural" em duplo sentido: "por sua índole própria e pela realidade sobre que atua".
- O terapeuta falando para que "suas palavras, atuando sobre a natureza do enfermo, produzam nela a operação que lhes é natural".
- A physis do "dizer prazeroso" consistindo na "regularidade com que sua aparência sonora – suas palavras, a entonação destas – manifesta sua latente propriedade de modificar de maneira favorável o ânimo de quem menesterosamente o ouve".
- A palavra mágica como ensalmo (epode).
- O quadro geral
- A doença podendo ser "traumática, ambiental, demoníaca e punitiva", e a terapêutica adotando formas variadas: "cirúrgica, farmacológica, dietética, catártica ou purificatória e verbal, e neste caso com intenção mágica ou por via estritamente natural".
- A visão homérica da natureza como fundo do quadro: "uma realidade cambiante, lábil, com movimentos submetidos a determinações e influências de muito diverso gênero e ainda incalculáveis pelo homem que os contempla, mas em cujo seio a mente humana começa a entrever certa regularidade radical e imanente".
- A possibilidade e a probabilidade de Tales de Mileto e Anaximandro, no futuro de uma sociedade que chama physis "ao conjunto das notas visíveis em que se faz patente a índole de uma planta".
- A possibilidade e a probabilidade de Sócrates e Platão na estirpe espiritual de quem tão altamente estimou e entendeu "a excelência da palavra humana".
- A cultura grega dos séculos subsequentes mostrando como "em ordem ao emprego terapêutico da palavra se realizam – ou não se realizam – as possibilidades contidas na rica, inesgotável trama de seus versos".