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id da página: 4875 Epopeia de Gilgamesh

Epopeia de Gilgamesh

LITERATURA — A EPOPEIA DE GILGAMESH



Desesperado, Gilgamesh andava de um lado para outro em torno do corpo do seu amigo Enkidu. Chorou amargamente e riscou o rosto com cinzas; rasgou as vestes e entrajou-se com peles de animais selvagens. No mais profundo do coração gritou:

— Como posso descansar, como posso estar em paz? Contemplai Enkidu, meu irmão e companheiro: o que ele é agora, eu o serei algum dia. Porque tenho medo da morte, preciso procurar Utnapightim, a quem os homens chamam o Distante, pois ingressou na assembleia dos deuses. Vou procurá-lo e aprenderei com ele o segredo da vida eterna.

Isso disse ele, no fundo do coração. Em seguida, varando o ermo, viajando pelas planuras e pelos desertos, Gilgamesh prosseguiu, à cata de Utnapishtim, que os deuses haviam salvo do Dilúvio, instalando-o em Dilmun, no jardim do sol, concedendo-lhe a vida eterna.

Longo era o caminho, através do ermo, que Gilgamesh tomou na direção da terra de Dilmun. Viajava dia e noite. Quando alcançou os passos da montanha, acampou. Por algum tempo, deixou-se ficar de olhos postos nas brasas da fogueira, lembrando do seu amigo Enkidu, depois adormeceu. À noite, porém, despertou de um sonho e deu com uma estranha visão: leões pulavam e brincavam ao luar, contentes da vida. Gilgamesh empunhou a espada e caiu sobre eles, como a seta de um arco retesado e venceu-os, destruiu-os e espalhou-lhes os restos.

De manhã, ergueu-se e seguiu caminho. Escalando os contrafortes no rumo dos passos da montanha, chegou, afinal, à grande montanha Mashu, que guarda o nascer e o pôr do sol. Nessa entrada se encontra o Povo-Escorpião, os dragões que guardam a passagem, cujo olhar é morte. A ele se dirigiu Gilgamesh, Rei de Uruk. Por um momento apenas protegeu os olhos; depois, reuniu os pensamentos e seguiu em frente.

Quando o viu chegar, destemido, o Homem-Escorpião disse ao companheiro:

— Esse que vem a nós é carne dos deuses. Replicou o companheiro:

— Dois terços dele são deus, mas um terço é homem.

Então o Homem-Escorpião interpelou Gilgamesh, filho dos deuses:

— Quem é este que vem a nós, cansado e exausto de viajar? Vejo um homem com o corpo coberto de peles de animais selvagens, o rosto riscado de cinzas. A carne dos deuses está em seu corpo, mas o desespero lhe habita o coração. Percorreste um longo caminho: por que estás aqui? Que é que procuras, que te arriscas a morrer nos passos da montanha?

— Sou Gilgamesh, Rei de Uruk que aqui vim — respondeu Gilgamesh dirigindo-se ao Homem-Escorpião. — Por que não estaria eu cansado e exausto da viagem? Por que não estariam minhas faces desfiguradas e meu rosto pesaroso? Por que não estaria meu coração cheio de desespero e meu semblante cheio de angústia? Há amargura em meu coração, pois Enkidu, meu irmão e companheiro, está morto. Ele era o machado a meu lado, a força do meu escudo: juntos matamos o monstro Humbaba, juntos matamos o Touro do Céu. Enkidu está morto: derribaram-no as mãos dos deuses, e os juízes do mundo dos mortos, os Annunaki, levaram-no para baixo. Ao pé dele me sentei, vi a morte insinuar-se-lhe pelos membros, e fiquei com medo por mim: eu, Gilgamesh, Rei de Uruk, que matou Humbaba e o Touro do Céu, tenho medo de morrer.

Agora procuro Utnapishtim, o Distante, que os deuses salvaram do Dilúvio, que os deuses instalaram em Dilmun a fim de viver para sempre: ele de certo conhece o segredo da vida eterna, pode de certo responder às perguntas que me excruciam, de certo me dirá o que preciso fazer para que o destino do meu amigo não seja o meu também. Eis aí por que meu rosto é o de quem fez uma longa viagem, eis aí por que meu rosto está queimado pelo calor e pelo frio.

— Ninguém transpôs a passagem através do Monte Mashu — retrucou o Homem-Escorpião. — Doze léguas desse caminho estão imersas na escuridão, debaixo da montanha. Queres segui-lo? Não há outro. Nenhum homem realizou jamais a travessia. Não há luz ali, a presença de Shamash não encontra meios de entrar.

Gilgamesh respondeu:

— Ainda que seja na escuridão e no frio, ainda que seja na tristeza e na dor, suspirando e chorando, eu irei: abre a porta da montanha.

Disse, então, o Homem-Escorpião ao Rei de Uruk:

— Gilgamesh, vejo em teu coração que estás decidido a ir, seja qual for o risco. Por conseguinte, Rei de Uruk, abrirei os passos da montanha, abrirei a porta do Monte Mashu. Possa o teu propósito aligeirar-te a jornada nas passagens escuras, possas tu encontrar o que procuras, possam os teus pés trazer-te são e salvo de volta. Prossegue! A porta de Mashu está aberta.