VIDE: Tradução de Antonio Carneiro
CAPÍTULO I — DA RENÚNCIA E MENOSPREZO DO MUNDO
DEUS, em sua incompreensível bondade infinita, houve por bem honrar com a dignidade do livre arbítrio as suas criaturas racionais. Destas, umas podem ser chamadas amigos seus, outras fiéis e legítimos servos, outras de todo o qualquer ponto inúteis, outras bárbaros e apartados dele, outras seus inimigos e adversários. Amigos de Deus são aquelas intelectuais e espirituais substâncias que com ele moram. Servos fiéis são aqueles que, sem preguiça e sem cansaço, obedecem à sua santíssima vontade. Servos inúteis são aqueles que, depois de haver sido lavados com a água do santo batismo, não guardam o que nele assentaram e capitularam. Bárbaros são aqueles que estão arredados de sua santa fé. Adversários e inimigos são aqueles que, não contentes de ter sacudido de se o jugo da Lei de Deus, perseguem aos que procuram guardá-la. Cada uma destas classes de pessoas requer especial tratado; mas, o nosso propósito é tratar somente daquelas que justamente merecem ser chamadas fidelíssimos servos de Deus. Foram estes que, com a força potentíssima da caridade, nos impediram a tomar esta carga; e, por obediência, sem tergiversar, estenderemos a nossa rude mão, tomaremos a pena, molharemos na tinta da humildade, para escrever em seus brandos e piedosos corações, como em taboas espirituais, as palavras de Deus. Todavia, e antes de tudo, consignemos que Deus se oferece e propõe, por verdadeira vida e saúde, a todos os que têm vontade e livre arbítrio, sejam fiéis ou infiéis, justos ou injustos, religiosos ou irreligiosos, seculares ou monges, sábios ou ignorantes, sãos ou enfermos, moços ou velhos, como a comunicação da luz, a vista do sol e o curso do tempo, que são feitos para todos. E começaremos pelas definições de alguns vocábulos que mais aproveitam ao nosso propósito.
Irreligioso é criatura racional e mortal, que por sua própria vontade foge à vida, tratando de tal maneira com o seu Criador como se acreditara que ele não existe. Iníquo é aquele que violentamente torce o entendimento da Lei de Deus, para conformá-la com seu apetite e, sendo de contrário parecer, pensa que crê na palavra de Deus. Cristão é aquele que trabalha, quanto ao homem é possível, por imitar a Jesus Cristo, tanto em suas obras, como em suas palavras, crendo firmemente na Santíssima Trindade. Amante de Deus é aquele que, ordenadamente e como deve, usa de todas as coisas naturais e nunca deixa de fazer o bem que pode. Continente é aquele que, no meio das tentações e laços, trabalha, com todas as suas forças, para alcançar paz e tranquilidade de coração e bons costumes. Monge é uma ordem e modo de viver de anjos, estando em corpo mortal; monge é aquele que traz sempre os olhos da alma postos em Deus, e faz oração em todo o tempo, lugar e negócio; monge é uma perpetua contradição e violência da natureza, e uma vigilantíssima e infatigável guarda dos sentidos; monge é um corpo casto, uma boca limpa, e um ânimo esclarecido com os raios da divina luz; monge é um ânimo aflito e triste, o qual, trazendo sempre diante dos olhos a memória da morte, sempre se exercita na virtude.