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id da página: 6891 Corbin – Sohravardi – Estrofes litúrgicas. Ofícios divinos

Estrofes litúrgicas Ofícios divinos

Estrofes litúrgicas e ofícios divinos

  • O conjunto de textos agrupados sob o título de "Livro de Horas" constitui uma recapitulação da doutrina ishraqi e, simultaneamente, o último ato dos relatos iniciáticos, no qual a experiência da alma ressoa a uma oitava superior ao se expressar como hino e ação litúrgica.

    • A liturgia, em união com a doutrina vivida e pensada, configura-se como expressão e alimento da espiritualidade ishraqi, testemunhada pela escola zoroastriana de Azar Kayvân, que, oriunda de Shîrâz, emigrou para a Índia com seus discípulos nos séculos XVI e XVII.
    • Alguns dos adeptos dessa escola transformaram o "Livro de Horas" de Sohravardi em ritual litúrgico pessoal, confirmando que o autor havia previsto uma comunidade litúrgica ishraqi para a qual compôs a obra.
  • Os textos árabes que compõem o "Livro de Horas" permaneceram inéditos, salvo duas peças já traduzidas e comentadas, a saber, o hino ao arcanjo do Sol e o hino à Natureza Perfeita, o "anjo do filósofo", que por essa razão não são reproduzidos.

    • Os manuscritos são raros, fragmentários e de difícil leitura, devido à complexidade do pensamento de Sohravardi, que frequentemente confundiu os copistas.
  • Hellmut Ritter reuniu bibliograficamente os fragmentos dispersos do "Livro de Horas", sem que exista manuscrito completo, designando-os sob o título "Wâridât wa-taqdîsât".

    • O termo "Wâridât" remete às inspirações súbitas, improvisações inspiradas.
    • O termo "awrâd" designa passagens corânicas recitadas em diferentes horas, aproximando a tradição ishraqi da tradição ocidental do "Livro de Horas".
    • O termo "taqdîsât" designa atos de consagração litúrgica, equivalentes a ofícios divinos, traduzidos como "estrofes" segundo o uso do próprio Sohravardi.
  • O clima das liturgias ishraqi associa elementos herméticos, neoplatônicos e zoroastrianos, mantendo também a fé corânica e a glorificação do Único.

    • Ritter relacionou-as às liturgias astrais dos sabianos hermetistas de Harran e à obra do teólogo Fakhroddîn Râzî.
    • A fé corânica, assim como a bíblica, é de natureza profética, mas não implica a dessacralização do mundo.
    • A tese moderna que opõe fé e religião é refutada pelo exemplo de Sohravardi, cuja resposta é litúrgica: "Sua oração sabe mais que você."
  • A linguagem litúrgica de Sohravardi revela o segredo de sua alma em tom lírico, exigindo tradução literal e precisa para conservar sua cadência.

    • As alusões obscuras são esclarecidas pelos quatorze tratados anteriores.
    • As notas críticas permitem ao leitor apreender, mediante releituras, as intenções espirituais do Shaykh.
  • A visão do mundo expressa nas estrofes litúrgicas ordena-se pela doutrina tradicional das hierarquias mediadoras, modulando sistemas de correspondência entre os mundos de Denys e de Proclo.

    • O Arcanjo Gabriel, Espírito Santo, surge como inteligência mediadora que pensa o homem e o universo humano, ascendendo até o "Deus dos Deuses, Luz das Luzes".
    • O pleroma arquangélico, denominado "raça real de Bahman-Luz", constitui a revelação divina e a teofania, paralela às sefirot cabalísticas.
    • Por Gabriel, as almas humanas recebem o chamado a se unirem aos "irmãos de raça", numa confraria iniciática espiritual, como no "Relato do exílio ocidental".
    • O apelo do anjo mediador rompe a solidão humana, expressando o segredo do amor nostálgico.
  • As estrofes do "Livro de Horas" dividem-se em cinco grupos principais:

    • I. Estrofes da Observação Vigilante

      • Criadas para cerimônia comunitária dos Ishraqiyun, repartindo a liturgia entre grupos de participantes.
      • Cada grupo é designado por termos alusivos não explicados, concluindo sua intervenção com uma antífona repetida: "Faz subir a litania da Luz. Vem em auxílio do povo da Luz. Guia a Luz para a Luz!"
      • A liturgia dos mostabsirûn associa expressões técnicas: "Deus de cada Deus", "família do Sinai", "Qoddâs al-Ishraq", "lâmpada do santuário", "sóis que se erguem quando declinam".
      • Inclui invocação ao "Luminar maior", remetendo ao hino ao arcanjo do Sol.
    • II. Estrofes do Grande Testamento

      • Expressam autobiografia espiritual do Shaykh al-Ishraq.
      • A estrofe inicial declara: "Emprestei sua chama aos meteoros e incendiei a região."
      • Segue-se a invocação ao Anjo Espírito Santo como "Anjo da teurgia da raça humana".
      • Descrevem a saída das trevas, investidura da sabedoria, beleza e poder real, assimilados à Luz de Glória (Xvarnah).
      • O Shaykh designa-se como "faminto, menestrel do canto perpétuo", andando "à noite em plena luz enquanto os homens andam no dia em trevas".
      • As estrofes 12-13 narram ascensão ao templo celeste, onde é acolhido sem intermediários humanos, evocando a Jerusalém celeste.
      • O "Grande Testamento" culmina com a gravação do compromisso na Tábua de Hermes, testemunhando que a religião profética do Único preserva e é preservada pelos "templos da Luz".
    • III. Estrofes Litúrgicas de Cada Estação

      • Expressam a união entre piedade hermética e inspiração zoroastriana.
      • Sohravardi invoca Ohrmazd (Ahura Mazda), Bahman (Vohu-Manah), Shahrîvar (Xshathra Vairya) e Gabriel, identificado com o anjo zoroastriano Serôsh.
      • A liturgia, "Liturgia de Todos os Santos", organiza-se em dezessete estações (mawqif), celebrando progressivamente Ohrmazd, Bahman-Luz, as Inteligências arquangélicas, as Almas celestes, os anjos dos elementos, as almas dos profetas e dos justos.
      • O esquema litúrgico reflete a cosmologia avicenno-sohravardiana, em triades de Inteligência, céu e alma motriz, correlacionadas à estrutura antropológica (intelecto, alma, corpo).
      • O papel do Imago caeli é enfatizado como visão imaginal transcendente às observações astronômicas, vinculada ao destino antropológico.
      • Gabriel, identificado a Sraosha, é mediador entre angelogias bíblica, corânica e neoplatônico-zoroastriana.
      • As estrofes glorificam as almas proféticas como investidas de Xvarnah, equivalente à Luz mohammadiana, integrando profetologia iraniana à tradição bíblico-corânica.
    • IV. Estrofes dos Seres de Luz

      • Configuram um "invitatorium", exortando a alma, "filha da Luz", a não sucumbir ao corpo material: "A vida da carne consome tua morte; a morte da carne é a exaltação de tua vida."
      • Reafirmam a filiação das almas aos seres de Luz, seus "pais celestes", cuja nutrição é a pura Luz.
      • O Deus dos Deuses exorta a alma a celebrar liturgias em honra desses seres, para retornar à pátria originária.
      • Mencionam Hûrakhsh, Shahrîvar-Luz, os "Sete Sublimes", as hierarquias do mundo das Mães e dos senhores das espécies, reunidos como "reis da raça de Bahman-Luz".
      • Gabriel-Sraosha reaparece como fonte da "dimensão oriental" da alma, que torna o homem descendente da "raça Bahman-Luz".
      • Incluem um ritual para cada dia da semana, composto por Sohravardi.
    • V. Estrofes da Rememoração

      • Funcionam como orações em segunda pessoa dirigidas à alma humana, em tom próximo ao "Relato do Exílio" e ao "Canto da Pérola".
      • A alma é saudada como "ausente de seu mundo", "filha do Espírito Santo" e "filha dos Sacrossantos".
      • Estruturalmente, distinguem-se quatro momentos:
        • Estr. 1-9: o Anjo Espírito Santo fala em nome de seu Senhor eterno.
        • Estr. 10-12: o salmista fala como "aquele que fala por Deus", atribuindo ao Shaykh missão profética.
        • Estr. 13-15: o salmista fala como porta-voz do Espírito Santo.
        • Estr. 16-25: oração de intercessão ao Espírito Santo, "pai" da humanidade.
      • A figura do anjo assume função equivalente ao Christos Angelos do cristianismo primitivo e ao Imã no xiismo, revelando a centralidade da mediação no hermetismo ishraqi.
      • Pela mediação do Espírito Santo, as almas humanas respondem ao chamado e reivindicam sua filiação à "raça real de Bahman-Luz".
      • A última estrofe evoca o termo "badîl" (abdâl), traduzido como "substituto-guardião", cujo chamado anuncia a aurora da "cognitio matutina", a iluminação definitiva da alma em seu Oriente.