Extrato da tradução portuguesa de Isabel Braga, Edições 70
A ETIMOLOGIA LATINA E GREGA DA PALAVRA SÍMBOLO
Symbola, diz-nos Charles Du Fresne (senhor Du Cange, 1610-1688), designava o ciborium ou a píxide (pyxis) onde eram guardadas as hóstias consagradas. Há um decreto do Parlamento de Paris de 1354 respeitante àqueles que, por «um impulso diabólico», instinctu diabolico, perfurassem o «símbolo» no qual fora colocado o corpo de Cristo. Symbolae corresponde ao grego agapai, «ágapes», no sentido de «refeição pública».
Du Cange refere-se em pormenor aos diversos usos da palavra symbolum no sentido de «súmula da fé católica» e de «colação» e observa que ele evoca a assembleia apostólica na qual cada um dos Apóstolos é portador duma parte da confissão geral da fé. Aliás, é isso que Santo Agostinho declara sobre o assunto: «Quod Graecae symbolum dicitur, latine collatio nominatur. Collatio ideo, quia in untim collata Catholicae legis fides... Petrus dixit: Credo in unum Patrem, etc. Joanes dixit: Creatorem coeli et terrae. Jacobus dixit..., etc.» (Cf. Lerm. 115. De tempore).
«Violar o símbolo», Symbolum violare, diz-nos Du Cange, é «pecar». Só de modo acessório e sem indicação da sua etimologia grega encontramos mencionadas nesse dicionário duas palavras importantes: symbolum, no sentido de «téssera» e no sentido de «insígnia, estandarte» (vexillum).
Estas observações não bastam, como vemos, para esclarecer o problema do significado exato da palavra «símbolo».
As várias enciclopédias consultadas não adiantam mais pormenores sobre este assunto. O Dictionnaire étymologique de la langue française de Albert Dauzat (1938) apenas indica um empréstimo do vocábulo latino cristão symbolum («marca, sinal») pelo grego symbolon, «sinal», de symbállein, «juntar, reunir» (p. 694). Também me parece necessário acrescentar alguns elementos informativos sobre este ponto, que podem ser úteis aos investigadores.
O primeiro sentido grego é topológico. É o de Symbola, que encontramos em Pausânias (VIII, 54). Designa a «assembleia das águas», o lugar onde elas se reúnem, se precipitam e «correm». Este sentido verbal de symbállein, essencialmente dinâmico, é utilizado com o mesmo significado desde Homero. Assim, chamava-se Symbola a uma localidade situada no limite da Lacônia e do território de Tegeu, porque naquele lugar se reuniam , vários cursos de água.
Symbola era também um termo técnico da navegação grega. Chamava-se symbola à parte central da verga porque as duas metades desta, uma vez juntas (symbállein), sobrepõem-se no cimo do mastro, sendo nessa altura ligadas por correias.
Em ambos os casos, o sentido concreto, natural e dinâmico do verbo é bastante claro. Evoca um movimento que «junta», que «reúne» elementos anteriormente separados uns dos outros e designa os seus resultados.
Por conseguinte, se se refere ao «ato de reunião» que junta as partes contratantes juridicamente e por escrito, chama-se, ao seu redator, o notário profissional: symbolai graphós, literalmente, «aquele que escreve o símbolo jurídico».
Eis porque os documentos redigidos pelos notários privados eram designados por symboláia ou, mais exatamente, por symboláia agoráia, na acepção jurídica justiniana. Os derrogatórios de Justiniano usavam o equivalente latino da palavra symbolai graphós, «notário»: tabéllio.
O direito grego antigo não tinha ainda termo genérico para exprimir o conceito de «contrato» mas, em direito privado, a palavra symboláion surgiu rapidamente para significar os casos de contestação juridicamente válida. Vemos surgir também outro termo para «convenção», synálagma e syntéke, muito mais próximo dos verbos que indicam uma ação de «ligar em conjunto» e evocam um «elo» do que symbállein, essencialmente dinâmico. É preciso notar que a noção de «reunir», de «juntar» está ainda subjacente na própria noção de symboláion enquanto «contrato», pois a homologação deste era obtida pela reunião dum número determinado de testemunhas ou jurados. A «coisa escrita» e a sua autoridade impuseram-se cedo na Grécia e vamos encontrar o rasto dela em Esparta, onde o devedor escrevia o seu contrato na presença de duas testemunhas. Na origem, a cópia dum ato era apenas a sua prova material, mas desde o século IV que em Atenas ele passou a servir para estabelecer os motivos da responsabilidade jurídica. Podemos perguntar-nos se não se constata já a formação de duas orientações distintas da mesma palavra: uma, a original, era concreta, e evocava um movimento que reúne e junta, a outra, segunda, era abstrata e referia-se à consequência desse ato, isto é, à ligação mútua das partes reunidas; um dos significados era dinâmico e causal; o outro, estático e efetuado. Aliás, o verbo symbállein apresenta em primeiro lugar um uso transitivo: «lançar ou atar em conjunto, pôr em conjunto», daí «trazer em massa», «reunir, aproximar» e, por extensão, «trocar de palavras com alguém», em Platão, por exemplo, na República, symbállein symboláia prós allélous (425 c), e até «lançar um contra o outro», no sentido de «provocar uma luta», de galos de combate, por exemplo, symbállein alectruónas (Xenofonte, Banquete (Convivium), 4,9). Neste sentido transitivo, passa-se também de «reunir, aproximar» para «comparar» uma coisa ou uma pessoa com outra, depois para «conjecturar», «interpretar», «calcular», «avaliar». Por exemplo, no Crátilo, Platão usa: symbállein kresmón, no sentido de «interpretar um oráculo».
Este mesmo verbo, no seu uso intransitivo, liga-se a significados não já «dinâmicos» e «causais», mas «estáticos» e «efetuados». Como o fato de «precipitar-se em conjunto» leva ao mesmo ponto, symbállein designa então essa consequência enquanto «encontro», por exemplo, de estradas, ou enquanto «relação» entre pessoas; daí o sentido de «encontrar-se com» e de «relacionar-se com».
Todas estas noções verbais são evocadas pelos substantivos derivados de symbállein. O significado de «troca» é confirmado, por exemplo, numa acepção econômica: symbolatéuo que se aplica à ação de «fazer uma troca», de «negociar». Da mesma forma, a palavra symbolikós é utilizada simultaneamente num sentido dinâmico para designar «aquilo que se explica com a ajuda dum sinal», o que é «simbólico», por exemplo, em Théon de Alexandria, e o resultado desta propriedade do símbolo, isto é, o próprio «caráter simbólico»: Tó symbolikón, em Plutarco, ou mesmo aquilo que é «convencional», no tratado das conjunções e dos advérbios do gramático Apolônio Díscolo de Alexandria (meados do século II d.C).
Chegamos assim a symbolon, enquanto «sinal de reconhecimento». A que se refere exatamente o exemplo, tantas vezes citado, do objeto partido em dois, em sinal de «laço de hospitalidade», por exemplo, ficando o hospedeiro com uma das metades e o hóspede com a outra, a fim de poderem reconhecê-lo ao juntarem essas duas partes? Devemos lembrar em primeiro lugar que este sentido não é o único do verbo symbállein, muito pelo contrário, como acabamos de ver. Trata-se dum ato em todos os pontos comparável ao evocado por symbola, já referido a propósito da reunião das duas metades da verga, no vocabulário técnico marítimo.
O objeto que se tornava no sinal do «laço mútuo» era transmitido aos filhos e a junção das duas metades servia para que os seus portadores se reconhecessem e para provar a realidade dos elos de hospitalidade contraídos anteriormente pelos pais. Eurípides utiliza a palavra symbolon neste sentido, na tragédia de «Medeia». Assim, pessoas separadas há muito tempo dispunham, em resumo, daquilo a que chamei um sintema mnemotécnico, simples sinal convencional mais do que «símbolo» de tipo iniciático ou religioso. Aliás, symbolon é utilizado a maior parte das vezes nesta acepção sintemática elementar. As senhas que os juízes atenienses recebiam à entrada do tribunal contra a entrega das quais recebiam o soldo, eram também designadas por essa palavra que se aplicava até à licença de estadia destinada aos estrangeiros de passagem, assim como a toda a espécie de convenções comerciais e políticas.
No entanto, há que ter em conta um pormenor importante a propósito de symbolon. A palavra não se aplica apenas a uma convenção que permite identificar um elo mútuo através da reunião das partes que comunicam entre si. Este aspecto sintomático é acompanhado, de certa maneira, dum aspecto propriamente simbólico, na medida em que já não se aplica a «objetos» como uma vara partida ou uma senha, mas designa aquilo que permite a sujeitos reunirem-se em volta do sinal duma crença ou dum valor e menos dum contrato social que duma aliança sagrada ou considerada como tal.