Mestre Eckhart
Joaquim Carreira das Neves
'"Excertos de "Escritos de São João"''
Mas, depois, segue-se outra unidade literária (15, 9-17), na dependência da primeira, que versa o tema do "amor". Do "permanecer em mim-videira", agora diz-se: "permanecei no meu amor" (vv. 9. 10bis). E como o amor tem exigências, desdobra-se, necessariamente, em mandamentos. A palavra "mandamento" (entolê) aparece três vezes (vv. 10bis. 12) e a unidade termina com o verbo "mandar": "E isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros" (v. 17).
A terceira unidade literária vai de 15,18-16,4a, cujo tema, voltado para fora, ao contrário das duas outras unidades literárias, visa as perseguições do "mundo" aos discípulos (v. 18:"Se o mundo vos odeia, reparai que, antes de vos odiar, me odiou a mim"; 16,2:"Sereis expulsos das sinagogas...").
Em 15, 26-27, Jesus anuncia a terceira promessa do Paráclito. Esta unidade corta as duas outras, mas, como vimos, o tema do Paráclito, esparso em cinco pequenas unidades, é o resultado final duma grande elaboração teológica sobre o Espírito a atuar nas comunidades.
Estudemos um pouco melhor esta unidade bíblica de 15, 1- 16, 4a.
Nos vv. 1-8, o que mais surpreende não é tanto a imagem da videira, mas o verbo "permanecer". Jesus sabe das dificuldades que hão-de aparecer na vida dos discípulos depois da sua partida. E nós já sabemos, tanto pelo evangelho como pelas cartas, que as divisões nas comunidades joanicas (e nas comunidades paulinas) eram fortes; a única videira de Jesus tinha ramos (varas) separados. O apelo de Jesus, pela imagem da videira, é um apelo à unidade dos ramos a Jesus ("permanecei em mim...") e unidade entre uns e outros (vv. 9-17).
Esta unidade não tem a ver apenas com o Filho mas também com o Pai (15, l: "Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai...v. 2: Ele corta todo o ramo...v. 6: Se alguém não permanece em mim, é lançado fora (pelo meu Pai) (eblêthe exô, no passivo divino)...v. 7: ...pedi (ao Pai) o que quiserdes...v. 8: Nisto se manifesta a glória do meu Pai...". A relação entre o "agricultor" ( o Pai), a videira (o Filho) e as varas (os discípulos) é uma relação de unidade e, por isso mesmo, de vida ou morte, pertença ou não pertença. Mas a "glória" regressa sempre à "fonte" (o Pai).Gnosticismo
Roberto Pla
- Evangelho de Tomé
- Para Roberto Pla, desde a perspectiva oculta, segundo a qual Cristo Jesus é o Filho do Homem desde antes do princípio dos tempos (o filho divino, o espírito essencial de todos e de cada um dos homens) se entende muito bem o sentido belíssimo e profundo do gigantesco símbolo emblemático da "vinha verdadeira". Os membros (ou ramas) da espécie humana somos sempre nós, os homens. Revestidos de carne, nos auto-contemplamos como sarmentos independentes, rebentos presuntuosos da vinha de Noé; mas a vinha verdadeira, a oculta, a não visível, é sempre o Filho do Homem, cujos sarmentos jamais poderiam dar fruto se não permanecessem na vinha que os vivifica e sem a qual não existiriam. Se os homens insistem em sua desdenhosa independência é porque só sabem olhar o rebento manifesto e não a essência comum e livre que são realmente, a vinha verdadeira, oculta na unidade do Filho.
NOTAS