EVANGELHO DE JESUS: Candeia do Corpo
Hermenêutica
Roberto Pla
O sentido mais importante deste logion é o que deriva do logion canônico: "A lâmpada do corpo é o olho" (vide Candeia do Corpo).
Com a candeia e o olho entra o evangelho em um jogo de intenções entre a luz material que o olho contempla e a luz do conhecimento que em todo homem brilha, pois vem do espírito que, como diz João: “mora em vós”.
- ...a saber, o Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber; porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque ele habita convosco, e estará em vós. (Jo 14,17)
Das duas cegueiras, a do olho e a do conhecimento, a primeira é manifesta e a segunda difícil de ser reconhecida por si mesmo. A estes os quais não percebem a luz que vem de dentro, lhes cabe ocorrer que negam, incrédulos, o brilho persistente de tal luz, ou melhor, em outro caso, creem estar seguros de ser homens de cérebro iluminado, mas o certo é que sua luz não consegue romper as barreiras do coração. Aos primeiro diz Jesus: “Se a luz que há em ti é obscuridade, que obscuridade haverá!”, e aos outros dos adverte: “Como dizeis “vemos”, vosso pecado permanece”. Em definitivo, esse é o juízo que levanta por si só “a luz do mundo”, essa luz que é a luz dos homens que brilha nas trevas. Por este juízo, os que não viam alcançam a ver e muitos dos que creem ver se auto-descobrem como cegos.
- Prosseguiu então Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos. (Jo 9:39)
Ocorre, além disso, que a obstrução do próprio olho incapacita para qualquer distinção, e este é o mistério da luz: que é igual e a mesma em todo lugar. Por isso se diz que uma vez retirada a trava do próprio olho, é possível ver a farpa do olho alheio. Mas só em tal caso, pois do contrário se trataria de cegos que guiam a cegos, e como diz Mateus: “Se um cego guia a outro cego, os dois cairão no barranco” (Mt 15,14).