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id da página: 9497 Marsilio Ficino – Sobre a ira divina e outros textos – Sobre o Furor Divino Marsilio Ficino

Ficino Furor Divino

Marsilio Ficino – Sobre a ira divina e outros textos – Sobre o Furor Divino

Marsilio Ficino. Sobre el furor divino y otros textos. Tr. Juan Maluquer y Jaime Sainz

Marsilio Ficino saúda Peregrino Alio.

No terceiro dia antes das calendas de dezembro, Ficino, médico, meu pai, trouxe-me duas cartas com teu nome, estando eu em Figline, uma escrita em prosa livre e outra em verso, cuja leitura, em verdade, muito me alegrou em minhas circunstâncias, porque me deram a conhecer este jovem cuja fama e glória podem ser trazidas à luz.

Por minha parte, Peregrino, amicíssimo amigo, quando reflito acerca de tua idade do mesmo modo que sobre as realizações que de ti emanam a cada dia, não apenas me alegro por tantos bens de meu amigo, mas também me admiro vivamente, e não sei, deixando de lado os mais recentes, quem dentre aqueles antigos, cuja memória veneramos, sobressaiu tanto na idade em que tu agora estás. Não atribuo isso, como afirmam Demócrito e Platão, apenas à técnica e ao estudo, mas muito mais àquele furor divino sem o qual jamais existiu homem verdadeiramente grande.

Certos movimentos bastante excitados e afetos muito ardentes podem servir de prova de que, onde teus escritos os expressam, estás inspirado por esse furor, por assim dizer, e por ele arrebatado até o mais íntimo. Também quiseram especialmente os antigos filósofos que essa mesma excitação, produzida por movimentos externos, fosse a prova de que há em nossos espíritos certa força divina.

Mas, já que mencionamos o furor, relatarei o pensamento de nosso Platão a respeito desse assunto em poucas palavras e com a brevidade que uma epístola requer, a fim de que compreendas facilmente o que é o furor, de quantas partes se compõe e que divindade guia cada espécie de furor. Confio que isto te será ora motivo de prazer, ora mesmo de grande utilidade.

Platão opina, pois, que nosso espírito, antes de cair nos corpos, como já haviam defendido Pitágoras, Empédocles e Heráclito, existia nas regiões celestes, onde, pela contemplação da verdade, como diz Sócrates no Fedro, nutria-se e deleitava-se. Depois que aqueles filósofos, a quem mencionei anteriormente, aprenderam de Mercúrio Trismegisto, o mais sábio de todos os egípcios, que Deus é uma certa fonte altíssima e uma luz na qual os protótipos de todas as coisas, chamados ideias, resplandecem claramente, pensaram que seria natural que o espírito, contemplando sem interrupção a mente eterna de Deus, visse também mais claramente as naturezas de todas as coisas. O espírito via, portanto, diz Platão, a própria justiça, via a sabedoria, via a harmonia e uma certa beleza admirável de natureza divina. A todas essas realidades, que estão na mente eterna de Deus, ele ora chama ideias, ora essências divinas, ora naturezas primeiras. Por um conhecimento perfeito delas, as mentes humanas são alimentadas felizmente todo o tempo em que permanecem naquele lugar.

Mas, quando pelos pensamentos das coisas terrenas e por seu desejo os espíritos descem aos corpos, então se diz que aqueles que antes eram alimentados de ambrósia ou néctar — isto é, do conhecimento e do perfeito gozo de Deus —, nesse mesmo descenso bebem as águas do rio Lete, isto é, o esquecimento das realidades divinas, e não podem voltar a voar para os deuses celestes, de cuja morada os pensamentos terrenos, pelo peso, os haviam separado, antes de começarem a examinar aquelas naturezas divinas que haviam esquecido.

Aquele divino filósofo crê que alcançamos isso, o que se refere aos costumes e, mais ainda, o que diz respeito à contemplação, por meio de duas virtudes: a uma chama justiça, em sentido comum, e à outra, sabedoria. Por essa razão, diz que com duas asas iguais, significando essas virtudes segundo meu parecer, os espíritos se elevam aos deuses celestes. Sócrates sustenta no Fedon que as alcançamos igualmente por meio das duas partes da filosofia, a ativa e a contemplativa. Por isso afirma no Fedro: “Somente a mente do filósofo recobra as asas”.

Mas, nessa mesma recuperação das asas, o espírito se separa do corpo pela força delas e, cheio de Deus, é arrebatado para os deuses celestes e esforça-se com energia. A essa separação e impulso, Platão denomina furor divino e o divide em quatro partes. De fato, pensa que os homens nunca se recordam das realidades divinas, salvo de algumas delas, e apenas como sombras e imagens percebidas pelo corpo e suscitadas pelos sentidos. Assim, Paulo e Dionísio, os mais sábios teólogos cristãos, declaram que o invisível de Deus é conhecido por meio de suas obras visíveis. Platão, por sua vez, sustenta que a sabedoria dos homens é imagem da sabedoria divina; considera imagem da harmonia divina aquela mesma que representamos com vozes e instrumentos musicais, e imagem da beleza divina o acordo e a formosura que resultam da disposição apropriadíssima das partes e membros do corpo.

Mas, como pouquíssimos homens possuem verdadeira ciência, e esta não é contida por nenhum dos sentidos corporais, segue-se que as semelhanças com a sabedoria divina são muito raras entre nós, ocultas aos sentidos e totalmente desconhecidas. Por essa razão, Sócrates, no Fedro, diz que a representação figurada da sabedoria não pode ser vista pelos olhos de modo algum, pois, se pudesse ser vista, despertaria no mais íntimo amores admiráveis por aquela sabedoria divina de que é imagem. Vemos, porém, com os olhos a semelhança daquela beleza divina e percebemos a imagem da harmonia pelos ouvidos, que Platão considera os mais penetrantes de todos os sentidos corporais.

Por isso sucede que, uma vez absorvidas no espírito, por meio dos sentidos, essas espécies de imagens, recordamos de certo modo aquelas coisas que havíamos conhecido quando estávamos fora da prisão do corpo. Por essa recordação, certamente, o espírito é arrebatado e, agitando as asas, purifica-se pouco a pouco do pensamento e das manchas do corpo, sendo movido inteiramente pelo furor divino; e, por meio dos sentidos mencionados, suscitam-se ambas as formas de furor.

Com efeito, ao recuperar pela forma da beleza, que os olhos oferecem, certa lembrança da beleza verdadeira e inteligível, o espírito a deseja com um inefável e oculto ardor da mente. A esse ardor, enfim, Platão costuma chamar amor divino, definindo a elevação a partir da semelhança corpórea como desejo de tornar a contemplar a beleza divina.

É inevitável, depois disso, que aquele que assim é impressionado não apenas anseie por aquela beleza superior, mas também sinta deleite pelo aspecto daquela que se lhe oferece aos olhos. Assim foi ordenado pela natureza que quem deseja algo também se deleite pela semelhança daquilo. Contudo, Platão pensa que é próprio de um engenho mais rústico e de uma natureza corrompida desejar apenas as sombras daquela verdadeira essência e nada admirar fora da aparência sensível.

Sustenta que este é movido por aquele amor de que são companheiros a impetuosidade e o desregramento, definindo-o como desejo irracional e desmedido do prazer percebido pelos sentidos e dirigido à forma do corpo. Define também esse amor de outro modo: como o ardor de um espírito que vive em seu próprio corpo como num cadáver alheio. Por isso diz que o espírito do amante vive em corpo estranho.

Admirando tal afirmação, os epicuristas definem o amor como certa agitação de corpúsculos, que chamam átomos, e entregam-se inteiramente a esse amor que consome as aparências da beleza. Nosso Platão diz que o amor nasce das enfermidades humanas, está cheio de preocupação e cuidado, e convém àqueles homens cuja mente está tão obscurecida de trevas que nada pensa de elevado, nada de distinto, nada senão naquela imagem frágil e vacilante de um corpúsculo, nem observa o ar livre, encerrada nas trevas e na prisão escura.

Mas aqueles cujo engenho foi libertado e desatado do lodo corporal são de tal natureza que, quando se lhes apresenta a forma e o encanto de qualquer corpo, tão logo o veem, deleitam-se em sua semelhança com a beleza divina. Contudo, dessa imagem logo se retiram para aquela memória divina, que admiram sobretudo e verdadeiramente desejam, e por cuja nostalgia são arrebatados às realidades superiores. Platão chama a esse primeiro ímpeto de voo alienação divina e furor.

Parece suficiente o que foi dito acerca do furor que se realiza pelos olhos. Mas o espírito, ao perceber pelos ouvidos certas harmonias e suavíssimos ritmos, é advertido por essas imagens e excitado à música divina, que deve ser examinada por um sentido mais íntimo e agudo da mente.

Entre os intérpretes platônicos, há uma dupla música divina: uma reside realmente na mente eterna de Deus, e a outra, na ordem e no movimento dos céus, pelos quais as esferas e órbitas produzem uma harmonia admirável.

Ambas eram partilhadas por nosso espírito antes de ser encerrado no corpo; mas, nestas trevas, ele serve-se dos ouvidos como de pequenas aberturas, e por meio dos sentidos alcança, como já dissemos, as imagens daquela música incomparável. Por eles é reconduzido a certo silencioso e íntimo recordar da harmonia de que antes gozava, inflama-se de desejo e anseia gozar novamente da verdadeira música e voltar voando às regiões que lhe são próprias; e, embora compreenda que, enquanto a verdadeira música estiver encerrada na sombria morada do corpo, não poderá alcançá-la de modo algum, esforça-se ao menos, tanto quanto pode, por imitá-la.

Essa imitação é dupla entre os homens. Uns imitam a música celestial pelos ritmos das vozes e sons de diferentes instrumentos — a estes chamamos, com razão, músicos leves e quase populares. Outros, imitando com juízo mais nobre e firme a harmonia divina e celeste, dispõem, em sentido inverso, pés e ritmos como percepção e conhecimento da razão íntima. Estes, verdadeiramente, são os que, inspirados por um espírito divino, fazem brotar poemas nobilíssimos e ilustres com uma linguagem, como dizem, inteiramente harmoniosa.

A esta, Platão chama música e poesia nobres, a mais poderosa imitadora da harmonia celeste, porque a mais leve, de que fizemos menção, apenas encanta pela suavidade das vozes. A poesia, porém, reproduz — o que também é próprio da harmonia divina — de modo mais ardente certos sentimentos nobilíssimos, délficos, segundo o poeta, por meio dos ritmos e movimentos das vozes.

Por isso sucede que não apenas agrada aos ouvidos, mas também oferece à mente um suavíssimo alimento, muito semelhante à ambrósia celeste, de modo que parece aproximar-se mais da divindade. Platão, contudo, considera que esse furor poético nasce das Musas. Aquele que, sem inspiração das Musas, se aproxima das portas da Poesia, esperando tornar-se poeta pelo próprio artifício, considera-o vão, a ele e à sua poesia.

Mas crê que os poetas arrebatados por inspiração e força celestiais manifestam pensamentos tão divinos, muitas vezes inspirados pelas Musas, que eles próprios, quando se encontram mais tarde fora do arrebatamento, não compreendem o que haviam revelado.

Segundo creio, aquele varão divino quer que as Musas sejam entendidas como cânticos celestes, e por isso dizem que foram chamadas Canoras ou Camenas, a partir da palavra “canto”. Assim, os homens divinos, movidos pelas Musas — isto é, pelos númenes e pelos cânticos celestes — investigam modos poéticos e ritmos para imitá-las.

Assim, ao tratar Platão, em sua República, do movimento circular das esferas celestes, afirma que uma sereia está sentada em cada uma das linhas, dando a entender, com o movimento das esferas, como explica um platônico, que o canto é produzido pelos númenes.

Com efeito, em língua grega, o termo sereia representa corretamente aquele que canta para a divindade. Também os antigos teólogos quiseram que as nove Musas fossem os oito cânticos musicais das esferas e que a maior, composta de todas, fosse a harmonia.

Segundo esse raciocínio, a poesia procede do furor divino, o furor, das Musas, e as Musas, de Júpiter. Com efeito, os platônicos repetidamente denominam Júpiter a alma de todo o mundo, aquela que alimenta interiormente o céu, as terras, as planícies líquidas, a esfera brilhante da lua e as constelações dos Titãs, e, derramando-se pelos membros, põe em movimento toda a máquina e mistura-se com o grande corpo.

Do modo como move e rege as esferas, infere-se que também seus cânticos musicais, chamados Musas, nascem de Júpiter, alma e mente do mundo inteiro.

Por essa razão, aquele platônico ilustríssimo disse: “De Júpiter é o princípio da Musa; de Júpiter tudo está cheio, porque também em toda parte aquele espírito que chamam Júpiter tem força, tudo preenche e, movendo o céu como uma cítara, segundo o pitagórico Alexandre de Mileto, produz a harmonia celeste”.

Igualmente Orfeu, aquele vate divino, diz: “Júpiter é o primeiro, Júpiter é o mais recente, Júpiter é a cabeça, Júpiter é o centro: tudo nasceu de Júpiter; Júpiter é o fundamento da terra e do céu portador de estrelas; Júpiter manifesta-se como varão; Júpiter é esposa incorruptível; Júpiter é o espírito e a forma de tudo; Júpiter é a raiz do mar; Júpiter é o movimento do fogo infatigável; Júpiter é o Sol e a Lua; Júpiter é rei e príncipe de tudo; e, quando ocultou sua luz, novamente a deixou escapar de seu coração nutrício, dando origem aos pensamentos”.

Por esses fatos compreende-se que Júpiter contém o que está espalhado por todos os corpos e alimenta todas as coisas, para que não se diga sem merecimento que Júpiter é tudo o que vês, tudo o que moves.

Seguem-se, depois destas, as demais categorias de furor divino, que Platão divide em duas. Pensa que uma se refere aos mistérios e outra, chamada profecia, aos acontecimentos futuros. Define o primeiro furor como uma violenta excitação do ânimo nos atos pertencentes ao culto dos deuses, à religião, à expiação e às cerimônias sagradas. Ao afeto da mente que falsamente imita esse furor denomina superstição.

Mas a última natureza do furor, na qual situa a profecia, considera não ser senão um presságio inspirado pelo sopro divino. A essa natureza denominamos com termo mais apropriado adivinhação e profecia. Se a alma, nessa mesma adivinhação, se inflama com maior vivacidade, chama-a furor, quando a mente, livre do corpo, é agitada pelo instinto divino. Se alguém prevê mais por astúcia e sagacidade que por infusão divina os fatos futuros, opina que essa forma de pressentimento deve ser chamada previsão e conjectura.

De tudo isso se conclui claramente que há quatro espécies de furor divino: o amor, a poesia, os mistérios e a profecia. Aquele amor materno, popular e completamente insano imita falsamente o amor divino; a música leve, como já dissemos, à poesia; a superstição, aos mistérios; e a conjectura, à profecia.

Sócrates, segundo Platão, atribui o primeiro furor a Vênus, o segundo às Musas, o terceiro a Dioniso e o último a Apolo.

Por fim, preferi ser prolixo na descrição das duas causas desse furor que se refere ao amor divino e à poesia, porque sei que és movido por ambos com veemência, e para que recordes que o que escreves não procede de ti, mas de Júpiter e das Musas, na medida em que estás cheio do espírito e da divindade. Por essa razão, amigo Peregrino, agirás com justiça e piedade se, como creio que o tens feito até agora, reconheceres que o princípio e o autor das obras maiores e perfeitas não és tu, nem qualquer outro homem em absoluto, mas Deus imortal.

Cuida-te e persuade-te de que nada me é mais caro do que tua pessoa.

Figline, calendas de dezembro de 1457.