Marsilio Ficino. Sobre el furor divino y otros textos. Tr. Juan Maluquer y Jaime Sainz
Marsilio Ficino saúda seu amigo Antonio Pellocto Baccio Ugolino.
Ao lerem Antonio Calderini e eu, juntamente com Bindaccio Ricasolana, meus amigos, aquilo que cada um de vós, discípulos das Musas, compôs em louvor a Carlo Marsupino, concordamos plenamente em que é certíssima aquela sentença de nosso Platão, segundo a qual a poesia não se origina da técnica, mas de certo furor. Embora não haja necessidade de demonstrações quando o próprio fato se apresenta diante dos olhos, direi, contudo, que o juízo de Platão é convincente. Platão trata, no Fedro e no Ion, acerca do furor divino, do qual oferece principalmente três imagens.
Primeiramente, que cada homem sem o auxílio divino, com dificuldade e somente após longo tempo, alcança uma técnica singular. Mas os poetas genuínos, como foram, segundo ele, Orfeu, Homero, Hesíodo e Píndaro, introduziram em suas obras certos indícios e argumentos de todas as artes.
Em segundo lugar, que em estado de furor cantam muitos feitos, verdadeiramente admiráveis, os quais, pouco depois, ao se dissipar o furor, eles próprios não compreendem bem, como se não os tivessem pronunciado, mas como se Deus houvesse clamado por meio deles, tal qual por trombetas.
Em terceiro, que os varões mais prudentes e eruditos desde a juventude não vieram a ser os melhores poetas, mas antes alguns perturbados, como se sabe que foram Homero e Lucrécio, ou incultos, como Hesíodo o atesta acerca de si mesmo, e como foram, segundo escreve Platão, Ion e Tínico de Cálcis. Estes se distinguiram inesperadamente, além da técnica, nas obras poéticas de modo admirável.
Acrescenta ainda que alguns homens muito ineptos são arrebatados pelas Musas porque a divina providência quer manifestar ao gênero humano que os poemas ilustres não são invenções dos homens, mas dons celestes. E oferece a seguinte prova no Fedro, a saber, que jamais alguém, por mais diligente e erudito em todas as artes que fosse, sobressaiu na poesia se não se acrescentasse a essas qualidades aquele arrebatamento ardente do espírito, que sentimos quando Deus está em nós e nos inflama com sua moção. Tal ímpeto contém as sementes da mente sagrada.
Cuidai de vossa saúde.
4 de março de 1473