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id da página: 9611 Marsilio Ficino – O Livro do Amor – Oração VII – Resumo Marsilio Ficino

Ficino Livro Amor 7

Marsilio Ficino – O Livro do Amor – Oração VII

FICINO, Marsilio. El Libro dell’Amore

Resumo

  • Síntese da doutrina do amor segundo Guido Cavalcanti, filósofo

    • Cristóvoro Marsupino, representando Alcibíades, saúda Marsílio Ficino e exalta a linhagem de Giovanni, que produziu Guido Cavalcanti, filósofo, diligente tutor da pátria e superior a todos na sua época nas sutilezas da lógica.
    • Guido Cavalcanti seguiu o amor socrático em palavras e costumes, e com seus versos resumiu brevemente tudo o que foi dito sobre o amor, sintetizando os discursos de Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão e Sócrates instruído por Diotima.
    • A teoria de Guido compara o processo do amor à forma como o raio do sol, ao atingir um espelho, faz com que este resplandeça e, por sua vez, inflama a lã que está próxima, explicando que a parte da alma chamada 'obscura fantasia e memória' é atingida pela imagem da beleza, que ocupa o lugar do sol, como por um raio que entra pelos olhos.
    • Dessa imagem primeira, a fantasia fabrica outra imagem, um esplendor que inflama a potência de apetecer, tal como a lã se inflama, e assim nasce o amor.
    • Este primeiro amor, aceso no apetite do sentido, é criado pela forma do corpo compreendida pelos olhos, mas essa forma imprime-se na fantasia sem matéria, ainda que como imagem de um homem particular num certo lugar e tempo.
    • Desta imagem da fantasia, reluz imediatamente na mente outra espécie, que não é mais semelhança de um corpo humano particular, mas a razão comum e definição de toda a geração humana.
    • Assim como da fantasia, após receber a imagem do corpo, nasce no apetite do sentido um amor inclinado aos sentidos, da espécie da mente nasce na vontade outro amor, muito alheio à companhia do corpo.
    • Guido coloca o primeiro amor no prazer sensual e o segundo na contemplação, considerando que o primeiro se revolve em torno da forma particular de um corpo, enquanto o segundo se dirige à beleza universal de toda a geração humana.
    • Estes dois amores combatem entre si no homem: o primeiro puxa para baixo, para a vida voluptuosa e bestial; o segundo eleva para cima, para a vida angélica e contemplativa.
    • Guido mesclou na criação do amor uma certa tenebrosidade do caos, quando disse que a obscura fantasia se ilumina, e da mistura dessa obscuridade com esta luz nasce o amor.
    • A origem primeira do amor é posta na beleza das coisas divinas, e a segunda na beleza dos corpos, pois quando nos seus versos diz 'sol' e 'raio', pelo sol entende a luz de Deus, e pelo raio a forma dos corpos.
    • O fim do amor corresponde ao seu princípio, de modo que o instinto do amor faz alguns caírem até ao tato do corpo, e outros faz subir até à visão de Deus.
  • Que Sócrates foi o amante verdadeiro e foi semelhante a Cupido

    • Após os convidados terem louvado o deus dos amantes, restava louvar os enamorados que seguem legitimamente este seu deus, e todos os escritores concordam que entre todos os enamorados nenhum amou mais legitimamente que Sócrates.
    • Sócrates, que seguiu manifestamente e sem hipocrisia o carro de Cupido por toda a sua vida, nunca foi infamado por ninguém por amar de forma menos que honesta, nem mesmo seus poderosos adversários, como Ânito, Meleto, Lícon, os oradores Trasímaco, Polo e Cálias, ou o poeta cômico Aristófanes, o acusaram ou falaram disso.
    • Considera-se que Sócrates pôde evitar as línguas venenosas de tantos detratores precisamente por estar remotíssimo de qualquer suspeita de tal vício.
    • Platão, ao pintar Cupido, retratou-o exactamente à imagem e vida natural de Sócrates, querendo dizer que o verdadeiro amor e Sócrates são muito semelhantes entre si, e que por isso Sócrates é, acima de outros, o verdadeiro e legítimo amante.
    • A figura de Cupido, descrita como magro, árido, esqualido, nu, com os pés descalços, humilde, volante baixo, sem casa, dormindo às portas, na via, a céu sereno, sempre pobre, viril, audaz, feroz, veemente, facundo, que põe emboscadas aos belos e aos bons, callido e sagaz uçellador, maquinador, estudioso de prudência, que por toda a vida vai filosofando, incantador, abbagliatore, malioso, sofístico, e situado no meio entre a sabedoria e a ignorância, corresponde ponto por ponto às características e à vida de Sócrates.
  • Da utilidade do amor socrático e do dano do amor contrário

    • Questiona-se que utilidade confere à geração humana este amor socrático, para que seja digno de tantos louvores, e que dano traz o amor contrário.
    • Platão no Fedro define o furor como alienação da mente, distinguindo duas gerações de alienação: uma que vem de enfermidade humana, chamada estultícia, e outra que vem de inspiração divina, chamada furor divino.
    • Pela doença da estultícia, o homem cai abaixo da espécie do homem e quase se torna besta, sendo duas as gerações da estultícia: uma que nasce do defeito do cérebro e outra do defeito do coração.
    • O cérebro pode ser ocupado pela cólera adusta, pelo sangue adusto ou pela negra fezes do sangue, originando diferentes tipos de loucura: ira e agressividade, riso excessivo e vanglória, ou melancolia e temores, respectivamente.
    • Por defeito do coração vem propriamente aquela estultícia pela qual estão aflitos os que se veem perdidos no amor vulgar, aos quais se atribui falsamente o sacratíssimo nome do amor.
  • Que o amor vulgar é mal de olho

    • Explica-se que o sangue na adolescência é sutil, claro, quente e doce, e dele se geram espíritos com as mesmas qualidades.
    • O coração, pelo seu movimento perpétuo, espalha estes espíritos por todo o corpo, e especialmente pelos olhos, que enviam para fora raios semelhantes a si mesmos.
    • O raio que se emite pelos olhos arrasta consigo o vapor espiritual, e este vapor arrasta consigo o sangue, podendo contagiar e enfermar quem é mirado fixamente, tal como o aspecto de um doente ou de uma mulher menstruada pode causar mal de olho.
    • Quando uma pessoa, com atenção dirigida a outra, lança os raios dos seus olhos, a flecha venenosa trespassa os olhos e, porque foi flechada do coração de quem a lança, lança-se ao coração da pessoa ferida, onde se condensa e torna em sangue, perturbando o sangue próprio do ferido e causando a fascinação, ou mal de olho.
    • Cita-se Apuleio, que se queixa: "A causa toda e origem deste meu dolore, e ainda a medicina e a saúde minha, és tu só, porque estes teus olhos, passando por estes meus olhos até ao centro do meu coração, um acérrimo incêndio nas minhas medulas comovem".
    • Descreve-se o encontro mútuo de olhares entre Fedro e Lísias, onde os raios e os espíritos de ambos se enredam, e o sangue de um se condensa no coração do outro, levando cada um a chamar ao outro "meu coração", "meu sangue", "meu espírito", e a segui-lo ardentemente.
  • Como facilmente se enamora e seus estranhos efeitos

    • O vapor espiritual e sanguíneo que se infunde do mais jovem no mais velho, sendo claro, sutil, quente e doce, age com facilidade e veemência: a clareza alicia, a sutileza permite rápida difusão, o calor altera o sangue do receptor e a doçura conforta e deleita.
    • O doente move-se entre volúpia e dor: volúpia pela clareza e doçura; dor porque a sutileza lacera os interiores e o calor provoca uma mudança que não o deja repousar, puxando-o sempre para a pessoa que o feriu.
    • Cita-se Lucrécio: "O corpo nos atrai àquele objeto donde foi a mente de amor vulnerada", comparando esta atração ao sangue de um ferido que corre para o seu agressor.
    • Refere-se o desejo extremo dos amantes de transferir todo o seu corpo para o outro e de atrair todo o corpo do outro para si, ilustrado pelo exemplo de Artemísia, que, após a morte do marido Mau solo, reduziu o seu corpo a pó e bebeu-o com água.
    • Esta doença amorosa é um encarceramento do sangue, uma febre contínua e melancólica que não deixa repouso ao doente e gera um pensamento fixo e profundo.
  • Como o amante pode tornar-se semelhante ao amado e quem causa o enamoramento

    • A forte e firme cogitação do amante, semelhante à das mulheres grávidas com desejos, pode fazer com que o rosto da pessoa amada, esculpido no coração, se pinte no espírito e se imprima no sangue, refazendo os membros à sua semelhança.
    • As pessoas que mais facilmente causam mal de olho são as de compleição sanguínea, com olhos grandes, azuis e esplendidos, especialmente se castas, sendo os da mesma compleição os mais rapidamente presos, enquanto os fleumáticos nunca são presos e os melancólicos, uma vez presos, nunca se soltam.
    • Diferentes combinações de compleições (sanguínea-sanguínea, colérica-colérica, sanguínea-colérica, sanguínea-melancólica, colérica-melancólica) produzem diferentes tipos de vínculo amoroso, sendo o último, colérico-melancólico, o mais mortal e pestilencial.
  • Do modo de enamorar e de se soltar do amor vulgar

    • O modo principal de contrair o mal de olho é o frequente e fixo encontro de olhares, onde as luzes se conjugam com as luzes, sendo o olho a causa e origem desta doença.
    • O modo de se soltar é de duas razões: natural e da arte. O natural atua com intervalos de tempo, clarificando o sangue encarcerado.
    • A indústria da arte inclui evitar o encontro de olhares, reconsiderar os defeitos da pessoa amada, aplicar-se a diversas e graves tarefas, sangrias, uso de vinho claro e odorífero, exercício frequente, nutrimentos e lactovários apropriados para o coração e cérebro, e o coito universal, para dispersar o humor acumulado.
    • Cita-se Lucrécio: "Quer-se com diligência fugir as falazes imagens e levantar de si a isca do amor, e volver a mente a outro lugar, e lançar o humor ajuntado em diversos corpos".
  • Do dano do amor vulgar e do amor divino com suas quatro espécies de furores

    • Entre as espécies da loucura, a mais estranha é a afanosa cura pela qual os enamorados vulgares são tormentados dia e noite, caindo num precipício como cegos.
    • A espécie de furor que Deus inspira eleva o homem acima do homem e o converte em Deus, sendo uma ilustração da alma racional pela qual Deus retira a alma, caída das coisas superiores para as inferiores, de volta às superiores.
    • A alma desce da unidade divina até ao corpo através de quatro grados: mente, razão, opinião e natureza. Para subir, é necessário fazê-lo também por quatro graus.
    • São quatro as espécies do divino furor: o furor poético (das Musas), o mistérico ou sacerdotal (de Baco), a divinação (de Apolo) e o afeto do amor (de Vênus).
    • O furor poético desperta e tempera as partes dissonantes da alma com tons musicais.
    • O furor mistérial dirige a intenção de todas as partes da alma para a mente, com a qual se adora a Deus, fazendo da alma um todo uno.
    • O furor da divinação reduz a mente à unidade que é o cabeça da alma, permitindo prever coisas futuras.
    • O furor do amor, mediante o desejo da beleza divina, reduz a alma àquele uno que habita acima da essência, isto é, a Deus.
    • Estes quatro furores correspondem à alegoria platônica da alma como carro alado, onde o auriga é a mente, o bom cavalo a razão, o mau cavalo o apetite sensível, e as duas asas a investigação da verdade e o desejo do bem.
  • De todos os furores divinos o amor é o mais nobre e útil

    • De todos os furores, o amor é o mais potente e prestante, pois os outros necessitam dele (pois o estudo, a piedade e o culto são amor) e é aquele que proximamente nos copula com Deus.
    • Existem quatro afetos adulterados que contrafazem estes furores: a música vulgar, a vã superstição, a falaz conjetura da arte humana e o ímpeto da libidine.
    • O verdadeiro amor é um esforço de voar à beleza divina, despertado pela visão da beleza corporal; o amor adulterado é uma ruína do ver para o tato.
    • O amor socrático é útil para a própria alma, recuperando as asas para voar à sua pátria, e útil à pátria, conseguindo a vida honesta e felice, pois o verdadeiro amante defende os jovens dos falsos amantes, como um pastor defende os cordeiros dos lobos.
    • Sócrates, movido pela caridade para com a pátria, mescla-se com os jovens, fazendo-se igual a eles com motejos, simplicidade e pureza, para os atrair, admoestar e finalmente repreender, convertendo-os à filosofia, como fez com Fedão, Platão, Xenofonte, Alcibíades e outros.
  • Conclusão e ação de graças ao Espírito Santo

    • Conclui-se que, graças às disputas dos convidados, se encontrou felizmente o que é o amor, quem é o verdadeiro amante e quão grande é a utilidade do verdadeiro amante.
    • O autor e mestre desta invenção feliz é o próprio amor, causa de ser encontrado, pois os convidados, acesos do amor de encontrar o amor, o buscaram e encontraram.
    • Exalta-se a benignidade do deus Amor, que se faz presente antes de ser buscado, ao contrário de outros celestiais, e que, sendo doador de todos os bens, é amado por todos.
    • Conclama-se os amigos a adorar este divino Amor, venerando a sabedoria e temendo com admiração a potência, para ter toda a divindade propícia e gozá-la perpetuamente com amor.