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id da página: 9505 Marsilio Ficino – Teologia Platônica – Livro XV – Capítulo 3 Marsilio Ficino

Ficino Teologia Platonica XV 3

FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964

Como a inteligência entra em contato com o corpo

Como transmitem as almas sua existência ao corpo? Misturam-se a ele? De modo algum. O que é misturado perde-se e confunde-se. Tocam o corpo? De maneira nenhuma. O contato é próprio de dois corpos. Estão encerradas dentro dele? Tampouco. Só se encerra aquilo que é corpo. Que ações, pois, exercem essas formas sobre o corpo quando lhe comunicam sua existência? Penetram-no por todas as partes mediante sua essência e lhe conferem a potência de sua essência. Ora, uma vez que a existência provém da essência e que a operação decorre da potência, ao lhe unirem a essência concedem-lhe a existência, e ao lhe transmitirem a potência comunicam-lhe as operações, de modo que da união da alma e do corpo resultam a existência única e a operação única do ser animado. Essa existência é, por essência, a da própria alma, e torna-se existência do corpo por participação. A alma não mergulha sua própria existência no corpo, mas eleva o corpo até si. Tampouco o corpo recebe essa essência da alma em toda a sua plenitude, mas dela participa segundo sua natureza. Ele não a sustenta, mas é por ela sustentado.

Mas como uma forma não extensa pode preencher a massa de um corpo? Compreender-se-á facilmente, se se considerar que até mesmo uma forma extensa, na maioria das vezes, comporta-se em relação ao corpo de tal modo que qualquer parte da forma tem relação igual com qualquer parte da matéria, e reciprocamente. Por isso, podemos pensar que qualquer parte dessa forma se encontra em cada uma das porções da matéria e lhes imprime uma forma de tal maneira que está presente por inteiro em qualquer ponto.

Tiremos, contudo, dessa forma a extensão, deixando-lhe, entretanto, o encargo de formar o corpo. Podemos fazê-lo, pois formar é algo diverso e mais nobre do que ser extenso. Por conseguinte, se a matéria é, de fato, extensa, mas não forma, uma forma da matéria pode formar sem ser extensa. Ver-se-á, assim, uma forma indivisível e inteira formar toda a matéria e, do mesmo modo, cada uma de suas partes.

E, se é verdadeiro o que diz Pitágoras, a saber, que pelo seu movimento o ponto faz a linha, a linha a superfície, e que, por um movimento da mesma natureza, a superfície cria a profundidade, poderemos facilmente imaginar que, por seu movimento, o mesmo ponto se difunde totalmente e de modo indivisível em comprimento, largura e profundidade.

Segue-se daí que, em todo lugar onde haja divisão ou contato, reencontra-se o ponto. Evidentemente, se esse ponto é acidente, estará necessariamente na massa como em um sujeito; mas, se é substância, como a alma, que subsiste por si mesma, estará efetivamente presente à massa, mas permanecerá sempre em si mesma, separada dessa massa.