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id da página: 9506 Marsilio Ficino – Teologia Platônica – Livro XV – Capítulo 4 Marsilio Ficino

Ficino Teologia Platonica XV 4

FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964

Como a inteligência é apresentada ao corpo

Essa alma tão excelente está unida sem intermediário à matéria informe? Uma forma mais perfeita contém sempre em si as formas mais imperfeitas, assim como o retângulo encerra o triângulo. Se a alma racional possui a potência de intelecção, a mais eminente de todas, possui também a potência de sentir, de nutrir e de governar. Na potência da alma racional estão, pois, incluídas a alma sensitiva e a vegetativa, e também a forma dos corpos mistos privados de vida.

A alma racional, dotada de todas essas formas, acrescenta-se à matéria e, por meio de sua forma ou de sua potência, que corresponde à dos corpos mistos privados de vida, adere o mais estreitamente possível à matéria informe, nela provocando a combinação dos quatro elementos, formando um todo a partir das partes da matéria e dosando seus elementos. Por sua forma, que possui a potência vegetativa, adere ao corpo, que é composto da matéria e da combinação dos elementos, e a essa combinação confere o movimento em toda direção, que se chama vida. Por sua forma, própria dos seres animados, adapta-se a eles e engendra o “espírito”, instrumento dos sentidos. Por sua forma racional, comanda todo o restante.

Assim, por sua potência inferior, é forma da matéria; pela segunda, forma do corpo misto; pela terceira, forma do vegetal; pela quarta, forma do vivente e, além disso, forma das formas. Disso resulta que a alma racional, de um lado, forma os corpos mais do que as demais formas, porque os forma por intermédio de várias potências, e de outro, os forma de modo mais perfeito, porque, com seus pés, toca de perto a matéria informe, enquanto com sua cabeça a domina do alto.

Assim como o fogo difunde no lenho gelado o primeiro dos quatro graus de seu próprio calor, o segundo no lenho já aquecido, o terceiro no lenho aquecido pelos dois primeiros graus, e acrescenta ainda a esses três o quarto, que inflama o lenho no mais alto grau, do mesmo modo a essência da alma racional, também rica de quatro graus — o misto, o vegetativo, o sensitivo e o intelectual — aplica o primeiro à matéria, acrescenta o segundo ao primeiro, sobrepõe o terceiro ao segundo e adiciona o quarto ao terceiro. Então, parece formar a matéria tanto segundo a totalidade da essência quanto segundo todos os seus graus, embora, segundo a totalidade da essência, a forme de maneira idêntica, e, segundo os graus, ora de um modo, ora de outro. Com efeito, o primeiro grau é a forma da matéria; o segundo, a forma do corpo misto; o terceiro, a forma da forma vital; e o quarto, a forma de todas as formas corporais.

Pelos três primeiros graus, a alma recebe sua forma particular; pelo quarto, permanece independente da matéria e capaz das formas que, igualmente, são independentes da matéria. Que há, pois, de admirar, se em tão elevado grau da alma aparecem uma potência e uma operação semelhantes às dos seres divinos, de que esse grau tanto mais se aproxima quanto mais se afasta da matéria, assim como aparecem em certas formas dos corpos mistos, em razão de certo equilíbrio que convém aos corpos celestes, uma potência e uma ação verdadeiramente estranhas aos elementos de que é composto o sujeito dessa forma, embora convenham aos corpos celestes, aos quais esse equilíbrio o torna semelhante?

Não se deve tampouco admirar que a alma, embora forma do corpo, possua, todavia, uma potência que não compartilha com o corpo, pois os anjos não são tirados da matéria, nem quanto à essência, nem quanto à preparação da essência, ao passo que as almas irracionais o são sob ambos os aspectos. As almas racionais, sendo intermediárias, devem, portanto, possuir uma condição intermédia. Ora, não podem provir da matéria quanto à essência, se não nascerem da matéria quanto à preparação. Por isso, delas procedem segundo a preparação, mas de modo algum segundo a essência.

Se a potência acompanha a essência, nenhuma potência do anjo é partilhada com o corpo. Ao contrário, todas as qualidades dos animais pertencem ao mesmo tempo à alma e ao corpo, porque são tiradas da matéria juntamente com a essência, ao passo que as qualidades da alma racional residem unicamente em sua essência, pois com ela provêm do alto. E porque tal alma transcende a compleição do corpo e não está no corpo, mas o corpo está nela, o corpo não contém todas as qualidades dessa alma. Obtém, contudo, algo de uma certa qualidade, porque a alma, que quanto à preparação depende de algum modo da matéria, está tão ligada ao corpo que lhe adapta, até certo ponto, suas potências interiores e opera de bom grado nele e por meio dele.

Não se deve, tampouco, julgar absurdo que uma substância racional seja unida à matéria, pois a ordem da natureza não pode conservar-se de outro modo. Há, com efeito, um espírito separado da matéria, racional, incorruptível: é o anjo. Há também um espírito unido à matéria, irracional e corruptível: a alma dos animais. Esses dois espíritos estão demasiado afastados um do outro. São do gênero espírito, mas diferem entre si de três modos.

Qual, pois, é o intermediário entre um e outro? Não é um espírito simplesmente separado da matéria: tal espírito não pode existir, pois, se está separado da matéria, deve ser racional e imortal. Tampouco é um espírito simplesmente racional, pois um tal espírito deve, além disso, estar unido à matéria ou separado; nem um espírito apenas incorruptível, pois é necessário que seja, além disso, racional; nem um espírito apenas separado da matéria e racional, porque é preciso admitir que também seja incorruptível; nem um espírito apenas separado da matéria e incorruptível, porque, possuindo essas duas qualidades, possui também a razão, visto que, não exercendo função sensitiva ou vegetativa, seria inútil se não possuísse a razão; nem um espírito apenas unido à matéria e irracional, porque um tal espírito é também mortal; nem um espírito apenas unido à matéria e imortal, porque quem partilha com os anjos a vida imortal partilha também a inteligência; nem, enfim, um espírito unido à matéria, racional e perecível, pois, se possui em comum com os anjos a inteligência, que é uma espécie de reflexão da vida sobre si mesma, possui também em comum essa vida.

É necessário, portanto, que exista no corpo um espírito intermediário entre os extremos, que seja racional e incorruptível. Um tal espírito convém a ambos os extremos enquanto espírito; difere do anjo por estar unido à matéria; difere do animal por ser racional. Concorda essencialmente com o anjo por ser imortal, e concorda também com o animal por estar unido à matéria. Além disso, como deve haver entre esses dois extremos um intermediário, em certa medida igualmente distante de um e de outro e participante de ambos, é necessário que haja um espírito em parte separado da matéria, racional, imortal, e em parte unido à matéria, irracional e corruptível. Tal é precisamente a alma humana, que possui em sua parte superior as três primeiras condições, em sua parte inferior as três outras, e, entre ambas, as seis misturadas e temperadas entre si, segundo Platão, “por modos musicais”.