FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964
Como a inteligência está no corpo
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Negação da união da alma racional com o corpo à maneira de um sólido com outro sólido, devido à falta de verdadeira unidade e ação conjunta nos corpos meramente justapostos.
- A alma, como fonte eficaz do movimento vital, não se pode comparar a corpos pesados e espessos, que carecem de atividade natural e movimento vital, permanecendo dispersos quando divididos.
- Os seres de mínima espessura corpórea evitam facilmente o choque, penetram eficazmente e recuperam prontamente a unidade, ao contrário dos sólidos.
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Rejeição da analogia da união como a da água com o vinho, pois os líquidos perdem sua força original ao se misturarem, o que não se aplica à alma incorpórea.
- Sendo incorpórea e sem matéria comum com o corpo, a alma não pode ser misturada ou confundida com uma qualidade corporal.
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Consideração da analogia do calor do fogo unido à água, que se assemelha mais à alma por não ser um corpo, mas é insatisfatória por não estar o calor todo em toda a água.
- A alma, por contraste, está toda em cada parte do corpo, governando-o e compreendendo.
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Proposta da analogia da palavra com o ar, onde uma mesma palavra está toda em qualquer parte de uma sala, mas é rejeitada por sua fragilidade e passibilidade.
- A palavra, sendo frágil e carregada pela mais leve brisa, não se equipara à estabilidade da alma.
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Sugestão da imagem da cor no ar como comparação mais adequada, por ser espiritual, instantânea, presente por toda parte e formar a visão, mas com a ressalva de que não governa o ar como a alma governa o corpo.
- A cor colora o ar e forma a visão, mas falta-lhe o governo que a alma exerce sobre o corpo.
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Exame da analogia do piloto no navio, que é rejeitada porque o piloto não preenche todo o navio, não está presente em toda a parte e não move o navio sozinho, mas com auxílio do leme.
- A arte do pilotagem, embora passe para o leme e o dirija, é movida externamente e não confere nada de sua natureza à substância do leme, ao passo que a alma move o corpo por sua própria natureza.
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Invocação da luz do sol como a analogia suprema para compreender a união da alma com o corpo, baseada em Plotino.
- A luz é una e indivisa, toda em cada parte do ar, iluminando-o e aquecendo-o sem nada tirar do ar, sem sofrer violência ou mácula.
- Como diz Plotino, "o ar ondula aos ventos, a luz permanece estável", vindo do sol instantaneamente, sem se separar dele e refletindo-se sobre ele.
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Análise das duas qualidades da luz – o esplendor e o calor – e sua relação com o ar.
- A luz manifesta seu esplendor no ar, mas não o dá ao ar, ao passo que lhe dá o calor, razão pela qual, quando o sol se põe, a luz retira-se toda de repente, mas restos de calor permanecem.
- O ar participa do calor, mas não da luz, pois o ser da luz é iluminar, e sem ela o ar não é iluminado, mas sem o ar a luz ilumina.
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Defesa da opinião de Plotino de que a luz não depende de modo algum do diáfano, mas constantemente apenas do sol, sendo seu ato perpétuo.
- O esplendor é uma só coisa que faz brilhar tanto a luz como o ar, convindo à luz por essência e ao ar por participação, havendo assim uma única existência que de algum modo convém a ambos.
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Afirmação de que, propriamente, não é a luz que está no ar, mas o ar que está na luz, pois o que é menos extenso e sujeito a padecer está contido no que é mais vasto e não sujeito à paixão.
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Aplicação da analogia da luz à descida da alma humana na matéria por Deus.
- A alma passa imediatamente para a matéria sem se separar de Deus, governa o corpo e atinge a verdade das coisas, que é o próprio Deus, pelo intelecto.
- Como a luz se reflete para o sol, a alma se volta para Deus pela vontade, desejando a bondade de todas as coisas.
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Descrição do modo como a alma preenche e governa o corpo sem sofrer com ele.
- A alma preenche o corpo sem chocá-lo, está presente por toda parte e toda de mesma forma, não padece quando o corpo padece, mas sente e aprecia as paixões, e permanece estável quando o corpo desfalece.
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Exposição das duas potências principais da alma – a judicativa e a vital – e suas funções distintas.
- A alma não confia o juízo ao corpo, mas o executa ela mesma, e comunica ao corpo uma potência que é imagem de sua própria vida, sendo, portanto, só a alma que julga, mas o corpo e a alma que vivem.
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Explicação de que o ser da alma é viver, e a vida da alma unida ao corpo é a vida do composto.
- Ambos, alma e corpo, vivem de uma só e mesma vida, que é a essência da alma, mas a alma vive de vida própria e o corpo por vida alheia.
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Inversão da percepção comum: não é a alma que está no corpo, mas o corpo que está na alma.
- Para quem vê principalmente o corpo, a alma parece escondida nele como num vaso, mas para quem considera que a alma penetra o corpo interiormente, transcende-o exteriormente, envolve-o, sustenta-o e move-o, o corpo está contido na alma.
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Argumentação de que a alma é mais extensa que o corpo, contendo-o como o contente contém o conteúdo.
- A alma, por sua potência vital, de certo modo iguala o corpo, e por sua potência judicativa, excede-o, estando o corpo presente apenas à parte inferior da alma, a vital.
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Confirmação desta tese pela superioridade da potência da alma, que exige que ela não apenas esteja presente ao corpo todo, mas também o exceda em presença, segundo Jâmblico.
- Sendo indivisível, a alma está toda onde está, mas como o corpo não iguala toda a sua potência, não iguala toda a sua presença.
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Citação de Platão no Timeu e na República para corroborar que o corpo está na alma e é movido por sua parte inferior.
- No Timeu, o artífice do universo colocou o corpo na alma; na República, o corpo do universo gira entre os joelhos da Necessidade, dirigido pela alma celeste.
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Defesa da possibilidade de a alma, mesmo transcendendo o corpo, atrair a matéria para formar com ela um composto único, como é próprio das formas perfeitas.
- Todas as formas inferiores aperfeiçoam e unem a matéria, e as formas superiores, que naturalmente o desejam, também o podem fazer, ao contrário das formas angélicas, que não têm inclinação para completar uma espécie de ser animado.
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Menção do consenso entre Platônicos e Peripatéticos antigos sobre a animação das esferas celestes por almas racionais.
- Entre os Platônicos, Plotino, Porfírio, Jâmblico e Proclo; entre os Peripatéticos, Teofrasto, Avicena e Algazel; e entre os astrónomos, Ptolomeu, Albumazar, Zael e Manílio, todos afirmam que os corpos celestes são dotados de almas e inteligências divinas.
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Justificação racional desta crença pela previsão astrológica e pela influência das almas celestes sobre as humanas.
- A previsão de eventos dependentes das almas só é possível se os astros forem animados e virem as ações futuras.
- Assim como os raios dos corpos celestes influem em nossos corpos, os raios de suas almas agem sobre as nossas, embora os efeitos possam ser desnaturados pela mistura de causas e pela falha da matéria.