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id da página: 9509 Marsilio Ficino – Teologia Platônica – Livro XV – Capítulo 7 Marsilio Ficino

Ficino Teologia Platonica XV 7

FICINO, Marsile. Théologie platonicienne de l’immortalité des âmes. Raymond Marcel. Paris: Les Belles Lettres, 1964

Segundo argumento. O homem compreende

  • Exposição da doutrina aristotélica sobre o homem como um animal composto de corpo e inteligência, cuja operação própria é a intelecção.

    • Aristóteles, no primeiro livro da Ética, propõe-se falar da felicidade própria do homem, que consiste na sua atividade própria, e no livro décimo identifica a operação própria do homem como a intelecção, por referir-se à inteligência, que nos é mais própria que os sentidos e é a parte mais alta da alma.
    • Acrescenta que somos ou bem inteligência, ou bem sobretudo inteligência, embora sustente que não somos compostos, como se a inteligência fosse a forma mais natural ao homem.
    • No primeiro livro do tratado Da Alma, afirma ser melhor dizer que é o homem que compreende por sua alma inteligente, do que dizer que é a alma mesma que compreende.
  • Refutação da interpretação averroísta, que atribui a intelecção a um composto formado pela inteligência separada e pelo animal cogitativo.

    • Averróis reconhece que a intelecção, como também o sentido, pertence ao composto todo, mas os averroístas, quando interrogados sobre o que, no homem, tem o privilégio de compreender, respondem que não é a inteligência – que para eles não é o homem – nem o animal cogitativo – que não tem a potência de compreender –, mas um agregado formado da inteligência e desse animal.
    • Esta resposta é absurda, pois tal agregado não está numa espécie ou gênero único, nem possui a unidade necessária para uma operação única como a intelecção.
    • A ação da parte é atribuída ao todo apenas quando a parte faz um com outra numa única essência, ou está num mesmo ser, ou num único efeito de movimento, o que não se aplica à inteligência separada dos averroístas.
  • Crítica aos argumentos averroístas baseados em analogias inválidas, como a do movimento do céu ou a da visão por um olho separado.

    • O exemplo do céu que se move porque uma parte move outra não vale, pois o movimento passa da inteligência do céu para o céu, enquanto a intelecção não passa da inteligência humana para o animal, nem inversamente.
    • A afirmação de que todos os homens compreendem por uma só inteligência separada é tão absurda quanto dizer que todos os homens veem por um mesmo olho, separado de todos.
  • Rejeição do suposto vínculo entre a inteligência e a fantasia através da espécie inteligível, argumentando que este não pode fundi-las numa unidade real.

    • Os averroístas propõem que a espécie inteligível, tirada da imagem na fantasia, forma um vínculo que une a inteligência à fantasia num homem único e inteligente.
    • Contudo, a espécie inteligível não pode ser um vínculo, pois, enquanto adere às imagens da fantasia, é particular e separada da inteligência, e, quando se torna universal na inteligência, está afastada das imagens, nunca podendo existir simultaneamente em ambas.
    • O ato de intelecção ocorre somente na inteligência, e o fato de a inteligência receber espécies da fantasia não faz com que a fantasia compreenda, mas sim que seus objetos sejam compreendidos.
  • Demonstração de que a intelecção não pode ser transmitida ou partilhada, estando sempre limitada ao intelecto onde ocorre.

    • Dado que o ato de intelecção é sempre limitado ao intelecto e não passa para fora, segue-se que a intelecção não pode ser transmitida a ninguém sem a inteligência.
    • Tentar constituir uma unidade inteligente a partir de um sujeito inteligente e de uma coisa compreendida é como fazer um sujeito que vê da visão e de uma coisa vista.
  • Refutação final da conexão averroísta pela impossibilidade de uma forma idêntica ser recebida simultaneamente em sujeitos de natureza radicalmente diferente.

    • Os averroístas propõem que uma forma única, chamada fantasma na fantasia e espécie inteligível na inteligência, funde as duas num só composto.
    • Porém, é impossível que uma forma absolutamente idêntica seja recebida ao mesmo tempo num sujeito eterno e num sujeito perecível, pois os modos de ser são tão diferentes quanto os sujeitos, implicando formas totalmente diferentes como princípios de ser.
    • Mesmo que se concedesse a identidade da forma, a intelecção não seria comum, pois só há intelecção onde estão os princípios próprios e intrínsecos dela – a potência intelectiva e a espécie inteligível no estado independente –, os quais não existem na fantasia.
  • Conclusão da necessidade de os averroístas reconhecerem, com Aristóteles, que o princípio da intelecção é a forma própria do homem.

    • O princípio pelo qual um sujeito exerce uma ação própria é sua forma própria e criadora da espécie; a ação própria do homem é a intelecção, pela qual seus atos diferem especificamente dos atos dos brutos.
    • Consequentemente, é pelo intelecto, considerado como sua forma interna, que o homem difere especificamente na sua existência das almas irracionais.
  • Exegese de passagens aristotélicas que confirmam a alma intelectiva como forma do corpo, unida a ele mas distinta.

    • Aristóteles mostra que a alma é forma pelo fato de o animal viver e sentir por ela; o homem compreende, e unicamente pelo intelecto.
    • Na Alma, ele designa a parte intelectual da alma como aquela pela qual compreendemos, empregando o plural para mostrar que somos nós, propriamente, que compreendemos, e nela coloca tanto o intelecto agente como o possível.
    • A definição da alma como ato de um corpo natural orgânico que tem a vida em potência aplica-se a todas as almas, e o termo "ato" designa em toda a parte o ato natural do corpo, a forma que é parte do composto.
    • Embora a potência de intelecção seja separada (distinta e separável) das outras, como o durável do perecível, ela se distingue no sujeito ou racionalmente, mas não como um princípio separado.
  • Confirmação da doutrina pela autoridade de Aristóteles sobre a alma humana como forma natural, distinta da matéria mas unida a ela, que começa com o corpo mas não termina com ele.

    • Aristóteles, no segundo livro da Física, afirma que a alma do homem é uma forma natural, ao mesmo tempo distinta da matéria e unida a ela.
    • No décimo segundo livro da Metafísica, nega que qualquer forma possa existir anteriormente à sua matéria, mas admite que uma alma, a intelectiva, lhe pode sobreviver.
    • Isto declara manifestamente que nossa alma é a forma do corpo, que começa com o corpo mas, no entanto, não termina com ele, o que não se aplica à inteligência separada de Averróis.
  • Menção da doutrina da origem exterior do intelecto em Aristóteles e do consenso de Teofrasto e Temístio sobre a sua união com a alma desde o início.

    • No segundo livro dos Animais, Aristóteles atribui-nos o intelecto desde a origem, ainda que proveniente do exterior.
    • Teofrasto e Temístio também admitem que o intelecto nos é unido e implantado em nossa alma desde o começo.
  • Consideração sobre a multiplicidade das almas humanas e a possibilidade do seu número infinito, com referência a doutrinas pitagóricas e peripatéticas.

    • Se a geração dos homens sempre existiu, há agora uma multidão inumerável de almas, desde que sejam da mesma espécie, embora não possa haver um número infinito de espécies.
    • Alguns peripatéticos demonstram que os seres espirituais e da mesma espécie podem ser inumeráveis, tal como imagens inumeráveis são criadas no ar pela cor e pela luz.
    • Alguns filósofos pensam, não obstante, que a geração dos homens teve um princípio, deixando-se de lado a doutrina pitagórica da geração eterna e do número fixo de almas que mudam de corpo.