Embora tema preferido do pensamento filosófico só poderemos reunir aqui algumas poucas citações, não esquecendo de recomendar é claro nosso site sobre PLATÃO onde o tema é amplamente tratado, assim como nossos sites sobre: MARTIN HEIDEGGER E SUAS REFERÊNCIAS e FILOSOFIA DA CIÊNCIA.
Michel Henry: EU SOU A VERDADE
Na auto-revelação da Vida tem nascimento a realidade, toda realidade possível. E é preciso compreender bem porque. É claro de pronto que uma realidade qualquer só pode se edificar se as condições que a tornariam à priori impossível são excluídas, na incapacidade de exercer sua obra de destruição. Aí onde o “no de fora” que projeta toda coisa fora de si e a despoja precisamente de sua realidade não tem nem lugar nem poder, na essência da Vida, aí somente algo como uma realidade é possível. Eis porque convém desde agora (e mesmo se tivermos que retornar longamente sobre este ponto) rejeitar a ideia que encontrou na filosofia de Hegel, e em seus subprodutos como o marxismo, sua expressão mais tenaz, antes de determinar em retorno uma boa parte dos lugares comuns do pensamento moderno. É a ideia que o cristianismo é uma fuga da realidade e isso na medida que é uma fuga do mundo. Se a realidade reside na Vida e somente nela, esta reprovação se desagrega para aparecer finalmente como um sem-sentido.
Ora, a realidade reside na Vida não somente porque o que experimenta esta, sendo experimentado sem distância nem diferença de nenhuma espécie,não se esvaziou de si no “fora de si” de um mundo, na irrealidade noemática daquilo que só se faz ver — porque o que ela experimenta, é ainda ela. Que o conteúdo da Vida, o que ela experimenta, seja a Vida ela mesma, remete à condição mais fundamental, à essência mesma do “viver” — seja a um modo de revelação cuja fenomenalidade específica é a carne de um pathos, uma matéria afetiva pura, da qual toda cisão, toda separação se encontra radicalmente excluída. É unicamente porque tal é a matéria fenomenológica da qual é feita esta revelação que se pode dizer que nela o que se revela e o que é revelado não fazem senão um. É esta substância fenomenológica patética do viver que define e contém toda “realidade” concebível.
Quando dizemos: no viver onde se mantém toda a realidade, na auto-revelação que constitui a essência da vida e assim aquela de Deus ele mesmo, o que se revela é o mesmo que o que é revelado — entre o primeiro destes termos e o segundo que declaramos ser o mesmo, uma distinção não é traçada, pré-esboçada em todo caso? Não é esta distinção que supera ou pretende superar uma identificação que de fato a pressupõe? Da mesma maneira quando, a respeito do “se experimentar” que nada exprime de outro que o viver, afirmamos que o que se experimenta é o mesmo que o que é experimentado, já não rompemos o que pensamos ser a unidade primordial do viver? Somente estas diferenciações potenciais, assim como o par que os supera, pertencem à morfologia da linguagem e se enraízam ultimamente no mundo do qual esta linguagem é a linguagem. Se experimentar como o fato a Vida, é o desfrutar-se de si. O desfrute não pressupões qualquer diferenciação semelhante àquela onde tem nascimento um mundo: é uma matéria fenomenológica homogênea, uma carne afetiva monolítica cuja fenomenalidade é a afetividade como tal. A auto-revelação da Vida não é uma estrutura formal concebível a partir do “fora de si” e de suas próprias estruturas, estas se encontrando ultrapassadas, superadas ao mesmo tempo sendo conservadas nesta superação mesma. A auto-revelação da Vida é seu desfrute primordial que define a essência do viver e assim aquela de Deus ele mesmo. Segundo o cristianismo, Deus é Amor. O Amor não é outro senão a auto-revelação de Deus compreendida em sua essência fenomenológica patética, a saber o auto-desfrute da Vida absoluta. Eis porque o Amor de Deus é o amor infinito do qual ele se ama eternamente ele mesmo, e a Revelação de Deus nada mais é que este Amor.
Heraldo Barbuy: CAPAS DA REALIDADE