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Filosofia Silêncio

FILOSOFIA — O SILÊNCIO


Marie Madeleine Davy: Excertos do livro "O Deserto Interior"
Lendo as Sentenças dos Padres do Deserto, vários autores notaram a raridade dos textos referentes a Cristo, a Nossa Senhora, à contemplação e à vida apostólica. Aqui, este silêncio não é uma privação de palavras, mas seu ápice. Tal silêncio é mais significativo do que a palavra, porque contém o que os argumentos mais incisivos seriam incapazes de exprimir. Para entendermos o seu impacto, basta evocarmos os silêncios de Jesus, de que falam os evangelhos. Quando Jesus se calava, passava-se alguma coisa mais importante do que as palavras. Essa profundeza do silêncio é apresentada nos Apotegmas. Eis um exemplo: Teófilo, arcebispo de Alexandria, foi visitar o aba Pambo para receber dele uma "palavra de vida". Este não disse nada. Os irmãos intervieram em favor do visitante contristado, rogando ao aba que falasse, ao que ele respondeu: "Se ele não se edificou com o meu silêncio, não se edificará com as minhas palavras". Citando esse texto, o introdutor dos Apotegmas acrescenta: "Por mais espontâneos que muitas vezes apareçam nos textos que no-los apresentam, os Apotegmas são fruto de uma longa e lenta germinação no silêncio do deserto. Com dificuldade foram arrancados desse silêncio e por ele continuam sempre envolvidos" (Ibid.).

Essa qualidade de silêncio é, sem dúvida, mais oriental do que ocidental. Ela é encontrada, por exemplo, em Sri Ramana Maharshi, e é frequente nos sábios da Índia. No Ocidente, consideraríamos incorreto se, ao visitarmos uma pessoa, ela nos recebesse, mas se calasse. Ficaríamos muito "sentidos" de nos termos incomodado por "nada", tão difícil é para nós compreendermos que o silêncio é mais eloquente do que as palavras, pois o silêncio jorra do mais profundo.

Tal silêncio se parece também com o pudor. O "segredo do rei" não deve ser formulado, ele "transpira" através do silêncio, e não está necessariamente presente nas palavras. Entretanto, é bom repeti-lo, o silêncio pode também camuflar uma loquacidade interior; neste caso, ele é hipócrita, e deve ser evitado. Daí a variedade dos silêncios e a profundeza ou a superficialidade do seu conteúdo.

Emmanuel Carneiro Leão: Aprendendo a pensar
Desta universalidade do silêncio dá testemunho toda experiência criadora da condição humana. Pois o vigor do silêncio não está nem em se aprender a refletir, nem em se ensinar a agir. O vigor do silêncio é deixar ser o nada da realidade em toda realização de qualquer real. A fala encontra o viço mais originário deste deixar ser no pensamento dos pensadores, na poesia dos poetas, na convivência dos homens. Por isso mesmo, Lao- Tsé nos reconduziu ao coração de nossas línguas, ao insinuar a vigência do silêncio em todo discurso: “Falam-se palavras e se apalavram falas / Mas é no silêncio que mora a linguagem”

Arcângelo Buzzi
O introito ao pensar é o silêncio. Silenciar é colocar-se num estado de calmaria. É não-agitar-se. É não potencializar o que se pode. É a morte da vontade de poder. Para que tudo isso? Precisamente para permitir que o ser em sua verdade se dê ao pensamento, diga ele mesmo quem é.

Depois da semeada, o agricultor entrega o campo ao silêncio. Para. Não agita mais a terra. Recolhe as ferramentas. Não trabalha, apenas visita o campo. Visitas de contemplação das sementeiras. Ele sente que no silêncio da terra algo de extraordinário está para acontecer. É da terra que recebe o dom da vida, os frutos de seu sustento. O homem que pensa é qual agricultor que dispõe, prepara, ex-põe o pensamento ao ser. Nessa silenciosa dis-posição que é toda empenho, escuta, aguarda a revelação do ser, contempla-o em sua verdade primeira, originária. É próprio do sábio recolher na ação a verdade do ser e a liberdade do agir:

«Disse o mestre ao discípulo:
- limpa o jardim!
O discípulo varreu limpo o jardim.
Disse o mestre:
- não basta!
O discípulo espanou limpo as ramagens e os troncos das árvores.
Disse o mestre:
- não basta!
O discípulo lavou limpo as pedras ao longo do caminho e disse:
- nada mais resta a fazer.
O mestre sacudiu as árvores. Suaves, caíram folhas sobre a areia.
Disse o mestre ao discípulo:
- limpar é deixar ser».
(Cf. Takagami Kakusho, Han-Nya-Shin-Gyo Kogy, pp. 124-125, Ed. Kadogawa, Col. Kadogawa, n. 468, Tokyo 1949).