François Jullien: Trajetória, Formação e o Diálogo com a China e o Pensamento Europeu
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Reconstituição da Trajetória de François Jullien em Posições Sucessivas:
- Tentativa de reconstituir a trajetória como uma série de posições sucessivas impossíveis de apreender fora de uma conjuntura concreta e datada.
- Dificuldade de executar este trabalho sem nele misturar o julgamento de hoje.
- Necessidade de não fazer a omissão das escolhas livres de um indivíduo, postas ao longo de sua vida, das quais se pode fazer o inventário.
- Propósito de evocar alguns pontos fortes da biografia de François Jullien, indispensáveis para compreender a evolução de seu trabalho.
- Consciência de depender de um saber lacunar.
- A obra Pensar desde um Fora (a China), de Thierry Marchaisse, como principal fonte, ao constranger François Jullien a entregar alguns elementos.
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Anos de Formação na École Normale Supérieure e as Influências Gregas:
- Período decisivo das anos de formação à École normale supérieure, rue d'Ulm, como para a maioria dos intelectuais franceses.
- François Jullien é então épris de literatura grega.
- Oportunidade de seguir os cursos de Jean Bollack e de Jean-Pierre Vernant.
- Jean Bollack e a perspectiva filológica:
- Fazer parte de uma constelação de nomes frequentemente evocada para pintar o contexto de sua formação.
- A citação de François Jullien sobre a influência de Jean Bollack: "Tendo aprendido a encontrar e a defender a letra contra a alegação."
- Falar do interior dos textos da cultura grega.
- Manter-se em todas as circunstâncias neste patrimônio.
- Fazer a parte da História e da sociedade nas diferentes interpretações de um texto, para se liberar das garras destas determinações socio-históricas.
- A citação de Jean Bollack sobre o crítico filólogo: "O crítico filólogo tem por matéria, de um lado, o texto ou a virtualidade de um sentido e, do outro, a totalidade de suas utilizações, isto é, a história, a cultura do intérprete, da qual é preciso bem saber se não se fala em seu nome quando se quer falar em nome do texto."
- Jean-Pierre Vernant e a perspectiva conceitual:
- Tentar fazer amadurecer conceitos que via tecerem a pensamento e os mitos gregos.
- O apego a desprender-se "das condições de possibilidade da pensamento", segundo o próprio François Jullien.
- A abordagem da Grécia a partir de sua formação filosófica e de seu engajamento político.
- A influência mútua e a marca no trabalho de François Jullien:
- Convite de Jean-Pierre Vernant para passar do social ao conceito para aprofundar os fundamentos da cultura grega.
- Impulso de Jean Bollack para interrogar o texto enquanto tal, dobrando-o sobre sua coerência interna.
- O exemplo do Poema de Parmenides:
- Jean-Pierre Vernant o relata ao contexto antropológico, notadamente ao xamanismo das civilizações de Ásia do Norte.
- Jean Bollack se esforça para o reler a novo, explorando suas virtualidades próprias e "tendo" o sentido.
O Desvio Fundamental para a China: Língua, Ontologia e o Conceito de Identidade
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O Estímulo de Georges Dumézil e Émile Benveniste e a Busca do Distanciamento (Desvio/Intervalo):
- Georges Dumézil e Émile Benveniste, filólogos e linguistas, confortaram esta inclinação em François Jullien.
- Diferença na abordagem: estes dois autores privilegiam o campo indo-europeu, buscando filiações semânticas e ideológicas.
- A pressente necessidade de um "distanciamento" mais fundamental em François Jullien para dar conta dos pressupostos da pensamento grega e europeia.
- A China como local da maior exterioridade:
- Exterioridade geográfica.
- Exterioridade histórica, pelo desenvolvimento quase independente do império do Meio da História ocidental até o seculo XVI.
- Exterioridade da língua ao conjunto indo-europeu.
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A Ausência do Verbo Ser em Chinês Clássico e o Conceito de Identidade:
- O sublinhado de François Jullien da importância da ausência do verbo "ser" em chinês clássico.
- Forjamento de uma tradição de pensamento própria.
- Perda de pertinência do conceito de identidade.
- A dupla utilização do verbo "ser" no lado ocidental:
- Citação: "Ora ele é tomado no sentido de existir, ora empregado como simples cópula: o sol é; o sol é um astro luminoso."
- O lado chinês:
- O correspondente pode ligar o predicado ao sujeito, mas não exprime a existência.
- A expressão "Eu sou" não se diz em chinês clássico.
- A China, desde o encontro com o Ocidente, deve juntar duas palavras - cun ("subsistir") e zai ("estar aí") - para dar conta da noção de "ser" no sentido de "existência".
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A Crítica à Formulação de Anne Cheng sobre o Predicado:
- Necessidade de retomar e corrigir o propósito de Anne Cheng: "Ao olhar das línguas indo-europeias, um dos fatos mais chocantes é a ausência, em chinês antigo, do verbo 'ser' como predicado, sendo a identidade, aliás, indicada por uma simples justaposição."
- O enunciado predicativo não está ausente da pensamento chinesa.
- O que falta é o "Ser" da ontologia grega ("o sol é").
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O Debate sobre o Determinismo Linguístico entre Benveniste e Ricœur:
- Émile Benveniste sublinha a importância do verbo "ser" nas pensamentos ontológicas indo-europeias.
- O filósofo Paul Ricœur indica ter "sempre exprimido reservas a respeito do que arrasta de determinismo linguístico".
- O argumento de Paul Ricœur contra o determinismo linguístico aplicado à filosofia grega:
- Citação: "Aplicou-se isto à filosofia grega: é porque os Gregos teriam tido o verbo ser que eles teriam elaborado ontologias. Ora, com o mesmo verbo ser, eles construíram várias ontologias."
- A evolução da leitura do trabalho de François Jullien por Paul Ricœur, atestada por seus dois textos.
- A posição de François Jullien: não é a língua que determina o pensamento, mas sim o pensamento que "explora" a língua, sendo as línguas diversas em recursos.
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A Substantivação e a Questão do Belo como Tutela:
- Constatação (em seu livro sobre o Belo) de que as línguas europeias empregam um substantivo, "o Belo", ao contrário do chinês.
- Este termo "pré-dispõe" a pensamento.
- A possibilidade aberta pela distinção do substantivo do adjetivo.
- "O Belo" assim substantivado se impõe à pensamento e apela ao advento de um julgamento "sobre o Belo".
- O "distanciamento" com a China é esta tutela exercida pelo Belo, mais do que a variedade das fórmulas.
- O que conta mais é a qualidade do processo que funda o objeto (ou o sujeito) em seu ambiente.
- O regime global deste processo é a polaridade.
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As Diferenças Estruturais e a Comparação Cultural:
- O "distanciamneto" que toca, a partir do "ser", no próprio conceito de identidade.
- A língua chinesa é sem morfologia, sem declinações nem conjugações.
- A Europa, ao contrário da China, separa morfologicamente o substantivo e o adjetivo.
- A insistência de François Jullien desde seus inícios em se desaprender da afirmação de uma identidade cultural "específica e exclusiva".
- Tal afirmação "conduziria a um uso rígido e monolítico da comparação".
Estadas na China e no Japão: A Confrontação com a Realidade Histórica e a Crítica Acadêmica
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Roland Barthes, o Diretor de DEA e o Interrogatório da China:
- Roland Barthes como outra figura marcante na formação de François Jullien, que dirigiu seu DEA.
- A recusa de Barthes de interrogar a China de forma exótica, pressentindo que a fadeur (insipidez) poderia caracterizar a civilização chinesa.
- A confirmação por François Jullien do que Roland Barthes apenas esboçou.
- A ligação entre a démarche de Barthes (interrogando objetos da vida contemporânea, afastado da filosofia tradicional) e a de Jullien (partindo em busca de um lugar radicalmente outro, uma "heterotopia" como o diz Michel Foucault).
- O longo período de residência de François Jullien na China, que é ignorado por alguns no mundo da sinologia.
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Primeiro Contato e a Estada como Aprendiz Sinólogo (1974-1977):
- Primeira viagem em 1974 e início da estada de dois anos como aprendiz sinólogo em Pequim e Xangai em 1975.
- O contexto do término da Revolução cultural e o reino findando de Mao Zedong.
- A não adesão positiva e a não posição de rejeição na ideologia dominante da época.
- A recusa de se aliar aos maoístas ou de se fechar a toda compreensão desta China política.
- O desejo de primeiro compreender o que via.
- A escolha de se confrontar à realidade histórica da China, recusando a filière clássica de Harvard.
- A consagração ao decriframento das causas e dos efeitos deste sistema de gestão da sociedade.
- A aspiração a "Ver sem que nos digam o quê".
- A citação sobre o essencial conhecido em Pequim: "o essencial é que lá se conheceu 'os quatro mortos'. A morte de Kang Sheng, que era o pior do Partido, o homem da polícia; depois a de Zhou Enlai, o homem 'bom', se o houve entre os grandes dirigentes chineses, aquele que permitiu em todo caso que as coisas recomeçassem no fim da Revolução cultural, pensando as chagas e tentando reparar o irreparável; depois a de Zhu De, o herói militar da Longa Marcha; e enfim a de Mao, quando chegamos a Xangai, em setembro de 76."
- As experiências de campo e o questionamento sobre a sociedade:
- Idas à campanha ou a fábricas para aprender junto às "massas laboriosas".
- O testemunho de eventos que escapam à vigilância das autoridades (terremoto, condenados).
- A citação sobre a emergência das perguntas: "E então lá, de repente, as coisas que não se podia ver se tornam ofuscantes. Quando se veem os condenados à morte que passam diante de vós com sua tabuleta no pescoço, e que os professores vos põem a mão diante dos olhos para que não os vejam... É lá – e não no conforto de uma biblioteca – que certas perguntas vos saltam literalmente à garganta: o que faz uma sociedade? E o que falar quer dizer? E como se podia haver tanta tensão sob tanto conformismo?"
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Estudo de Lu Xun e Ensino de Literatura Francesa (1978-1979):
- Estudo da obra de Lu Xun na universidade Fudan de Xangai, preparando uma tese de terceiro ciclo.
- O retorno à China (1978) com este novo diploma para ensinar a literatura francesa contemporânea aos professores de francês na universidade de Pequim.
- Um de seus mais belos momentos na China.
- O contexto de Deng Xiaoping fazendo soprar o vento do renovo e da abertura.
- O risco de falar de Proust ou de Barthes a docentes que só viam a literatura francesa através de Victor Hugo ou Alphonse Daudet.
- "A última aula" como o único texto francês lido por todas as crianças chinesas na escola na época.
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Passagem por Hong Kong, Dissidentes e Análise Política (1979):
- Retorno às margens da China e primeiramente a Hong Kong.
- Responsabilidade pela Antenne française de sinologie (recém-criada).
- Redação de um Boletim consagrado à vida política pela análise dos jornais.
- Aprendizagem a decifrar a China lendo esta imprensa mensal.
- Frequência de velhos letrados no Instituto Xinya ("Nova Ásia"), que perpetuam a tradição e escaparam à ditadura comunista.
- Primeiro contato com os dissidentes: os "nageurs" (nadadores) que passavam para Hong Kong.
- Familiarização simultânea com a análise sem interdito da realidade política contemporânea e com os comentários de eruditos (últimos formados na China de antes de 1919).
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Tese sobre a "Valeur Allusive" (Valor Alusivo) e a Língua de Madeira:
- Sustentação da tese sobre o "valor alusivo" após o retorno à França por três anos.
- O objetivo de cercar a relação dos Chinois ao texto, ao alusivo que impregna a concepção chinesa da escrita e da leitura.
- A medição do "distanciamento" com o modo de expressão europeu, à distância das teorias europeias da literatura.
- O enraizamento desta temática na experiência política vivida (esforço de decifrar os textos do Partido).
- Aprendizagem a compreender as nuances da "langue de bois" (linguagem de madeira) oficial.
- A leitura do que dizem e do que não dizem os textos, que evitam mais do que tudo a ruptura.
- O processo de associar evoluções políticas (por vezes "cabeça-a-cauda") isolando, rareando, e modificando fórmulas ultrapassadas.
- A afirmação de uma nova linha sem referência explícita à linha de ontem retira a tomada da contestação.
- A recusa de toda oposição frontal impede o debate democrático.
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Estada no Japão e a Visão "Seuil" (Limiar) e Contraste (1985-1987):
- Partida para o Extremo-Oriente, desta vez para o Japão (inicialmente seis meses, prolongando-se por dois anos).
- O Japão como bom lugar de observação da realidade chinesa por fazer "seuil" (limiar) e fazer contraste.
- O empréstimo do Japão simultaneamente da China e da Europa.
Retorno a Paris, Posição Mediana na Sinologia e Engajamento Filosófico
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Presidência da Associação Francesa dos Estudos Chineses (Fim dos Anos 1980):
- Regresso a Paris e presidência da Association française des études chinoises.
- Prova do impacto inovador de seu trabalho aos olhos de certos sinólogos.
- A divisão dos sinólogos: historiens de la Chine moderne (Jean Chesnaux, Lucien Bianco, Marie-Claire Bergère, Marianne Bastid) e chercheurs em sinologie classique.
- Críticas dos clássicos aos modernos por desconhecerem o chinês clássico.
- A posição mediana de François Jullien, interessado tanto pelos textos dos letrados quanto pela política contemporânea, como razão do acolhimento contrastado dos sinólogos.
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Direção na Universidade Paris-VII e a Crítica da Especialização:
- Diretor da unidade "Asie orientale" da universidade Paris-VII-Denis-Diderot em 1990.
- Críticas de sinólogos por não ser especializado em tal ou tal pane da cultura chinesa.
- Sua resposta à crítica:
- Citação: "uma verdadeira especialização não é somente míope, ela é insustentável; seu confinamento confortável é uma ilusão."
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Engajamento Pedagógico e a Presidência do Collège International de Philosophie:
- A inseparabilidade destas posições de seu cuidado pedagógico.
- O prazer de ensinar, o contato com um público motivado e o incontestável desejo de seduzir.
- O sucesso que o incita a multiplicar as iniciativas de popularização da pensamento filosófica.
- Presidente do Collège international de philosophie em 1995 (por três anos).
- Afirmação como um sucessor apreciado de Jacques Derrida.
- Pontos em comum com Derrida:
- A démarche de desconstrução de um patrimônio cultural muito assegurado.
- A leitura crítica dobrada de uma reconstrução das categorias fundadoras da pensamento.
- O desejo de relançar a filosofia estabelecendo-a numa relação nova com o não filosófico.
- O exemplo do não filosófico:
- Jacques Derrida consagra um livro ao cartão postal.
- François Jullien explica a ausência do Nu na arte chinesa.
- O contraste das fontes:
- Jacques Derrida quis romper com uma certa tradição universitária centrada na única fonte grega, pondo a especificidade do maciço hebraico à luz.
- François Jullien convida a confrontar as fontes gregas ao mundo da China.
- Jacques Derrida e Jean-François Lyotard como aqueles que incitaram François Jullien a tomar a direção do Collège international de philosophie.
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Continuidade no Engajamento Filosófico e a Criação de Revista:
- Prolongamento do engajamento organizando um "curso metódico e popular" de filosofia (em colaboração com a Prefeitura de Paris e a Bibliothèque nationale de France).
- Nascimento do livro "Do universal, do uniforme, do comum e do diálogo entre as culturas" neste contexto.
- Prova da estimulação do trabalho teórico pela relação pedagógica.
- Fundação da revista "Agenda da pensamento contemporânea" em 2005.
- O objetivo: atravessar livros de saber e apresentar o renovamento da pensamento francesa contemporânea nestes diversos campos.
- A proposta de "visitar os canteiros cujos intelectuais são eles mesmos os operários".
- O desejo de ser resistente, polêmico, face ao que François Jullien chama "a demissão dos meios".
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