GILLABERT, Émile. Paroles de Jésus et pensée orientale. Montélimar: Métanoïa, 1974
Como acceder ao Reino?
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I. A Natureza do Reino e a Condição para Acessá-lo
- O Reino de Deus está presente e é oferecido à humanidade, mas permanece velado enquanto não se está nas disposições requeridas para recebê-lo.
- O acesso é impedido pelo "eu" ilusório, que funciona como uma tela que impede a percepção do "Si" (Self), nosso centro verdadeiro e estado de bem-aventurança eterna.
- O Si-mesmo, ou o Reino, não é algo a ser conquistado, pois já está dentro de cada um, aqui e agora; a dificuldade reside na ignorância desse estado, que leva à confusão entre o Si-mesmo e os atributos do ego.
- A condição necessária e suficiente para acessar o Reino é o renúncia ao ego, "perder a vida" egótica para "encontrar" a Vida verdadeira, um processo descrito como o mais difícil, especialmente para a mentalidade ocidental, orientada para a aquisição e a posse, e não para o despojamento e o Ser.
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II. O Ensinamento Central e a Pedagogia Divina
- O ensinamento universal, transmitido pelas Escrituras e pelos sábios, consiste em desvalorizar e negar tudo o que não é o Ser, permitindo que o Si se torne conscientemente nosso estado.
- Jesus resume este princípio na frase: "Quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á, e quem a perder guardá-la-á viva".
- Acesso ao Reino ocorre na medida em que o ego aceita "soltar-se", desaprender, tornar-se disponível para ser agido (não para agir), vulnerável e dizer "sim" tanto às dores quanto às alegrias.
- A bem-aventurança é encontrada por aquele que se submete à provação, indicando que a realização passa pela aceitação integral da experiência humana.
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III. A Necessidade de Compensações e a Realização Natural
- O trabalho de desobstrução mental é crucial, mas a sociedade moderna, com seus múltiplos condicionamentos, deixa pouco espaço para a interiorização e a aventura do Reino.
- Doutrinas e catecismos impostos antes do surgimento de uma interrogação genuína podem ser prejudiciais, representando um endoutrinamento que impede a experiência direta.
- É fundamental viver plenamente a vida natural e fenomenal antes de poder renunciar a ela; a fase de desenvolvimento físico e psíquico deve decorrer de forma satisfatória.
- Perturbações na infância, especialmente na relação primordial com a mãe, podem criar neuroses ou bloqueios que impedem um verdadeiro desabrochar e, consequentemente, a realização posterior.
- A estrutura psíquica requer que suas compensações naturais sejam encontradas; o "não vivido" é considerado mais traumático do que o "excesso de vivência".
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IV. A Superação do Dualismo e a Integração dos Opostos
- Uma espiritualidade que se opõe à natureza deve ser rejeitada em favor de uma atitude de acolhimento à vida em sua totalidade.
- Uma visão dualista, que opõe carne e espírito, qualificando as fontes naturais da vida como más ou pecaminosas, gera neuroses, repressões, desvios e perversões.
- A sublimação (como o voto de castidade) só é bem-sucedida quando não há mais oposição entre instinto e dever; caso contrário, leva a repressões e formações reativas.
- A tentativa de ser apenas "anjo" (o ideal) sem integrar a "besta" (os instintos e aspectos negados) leva a conflitos internos graves, podendo culminar em angústia, culpa e até suicídio.
- O caminho para a unificação consiste em aceitar e integrar os elementos positivos e negativos do comportamento, assumindo a "besta" em vez de tentar esmagá-la.
- Figuras como o Dragão ou o Demônio simbolizam esses aspectos negados que devem ser enfrentados e aceitos como parte de si mesmo.
- A terceira força unificadora só entra em jogo quando o homem aceita ambos os polos de sua natureza e renuncia às parcialidades de sua mente.
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V. A Crise do Ego e o Processo de Realização
- O processo de realização assemelha-se ao combate de Jacó com o anjo: o ego deve travar uma batalha que está fadado a perder contra o Si-mesmo.
- Inicialmente, o ego, alienado e condicionado pela sociedade, busca segurança e afirmação através de aquisições (riqueza, cultura, fama, amor, virtude), confundindo o "ter" com o "ser".
- Este esforço egocêntrico, porém, só leva a ilusões, desilusões e a um sentimento profundo de vazio, isolamento e absurdo.
- Quando suas construções mentais se mostram frágeis e falhas, o ego pode enfrentar uma crise depressiva, percebendo a futilidade de suas buscas.
- Reduzido ao desnudamento absoluto, incapaz de se afirmar como sujeito e negado pelo objeto, o ego torna-se ele próprio o problema, sentindo-se um "emparedado vivo".
- Terapias comuns, incluindo a psicanálise tradicional, podem oferecer alívio temporário ao melhorar a adaptação social, mas não promovem a transformação radical necessária.
- A verdadeira libertação requer um "despertar" onde o ego perde toda consistência, deixando de ser sujeito ou objeto, tornando-se impotente e desarmado – um estado que precede a "nova nascença".
- Neste momento crítico, a orientação de um verdadeiro Mestre é considerada essencial para guiar o indivíduo através desta "morte" do ego.
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VI. Jesus como Mestre Libertador e a Verdadeira Compreensão de sua Mensagem
- A libertação definitiva não pode vir do mundo fenomênico, mas apenas da Realidade infinita; daí a necessidade de um ensino verdadeiro, muitas vezes personificado por um Mestre.
- A mensagem original de Jesus foi frequentemente interpretada, traduzida, interpolada e dogmatizada, afastando-a de seu sentido primeiro.
- O Evangelho de Tomé, preservado da manipulação, é apresentado como uma chave preciosa para acessar o ensino direto de Jesus em uma época de crise das Igrejas.
- Para compreender Jesus, é necessário admitir a impotência radical do ego para conhecer por si mesmo e evitar a tentativa de construir um Deus à sua imagem.
- A atitude correta é de "não-ação" (semelhante ao Wu-wei taoista ou ao não-fazer do Zen), de atenção e vigilância para permitir a "visão justa".
- Jesus é apresentado não como um professor de moral, mas como um "vidente" que indica as condições para o despertar, com uma pedagogia exata e eficaz baseada no conhecimento das leis do comportamento humano.
- Sua mensagem é universal e desconcertante: o Reino não pode ser localizado, observado ou circunscrito a um mundo tridimensional ou a eventos cósmicos espetaculares.
- Ele rejeita as expectativas de um reino escatológico visível e convida a um despojamento mental radical, comparável à simplicidade e nudez de uma criança.
- A verdadeira figura de Jesus é aproximada da sabedoria taoista e do Zen: um homem despojado, simples, que vive em harmonia com a natureza, longe das construções mentais complexas e do triunfalismo religioso.
- Suas parábolas simples (o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido) refletem essa simplicidade e conexão com a vida ordinária e natural.
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VII. A Rejeição das Aquisições Mentais e a Simplicidade da Vida Ordinária
- Todas as aquisições do mental – sabedoria, doutrinas, ideias – são acumulações que se tornam obstáculos, servindo para a afirmação do ego e perpetuando a ilusão.
- A atividade mental incessante é a fonte do dualismo e da turbulência interior; quanto mais ideias, mais confusão.
- A simplicidade do camponês ou da criança, que vive plenamente no presente, em perfeita adequação com a situação, sem referências ao passado ou projeções futuras, é apresentada como o ideal.
- Ensinamentos orientais, como o Tao Te Ching e o Sin-sin-ming do Zen, ecoam essa visão: a fala e a especulação afastam do Caminho; as distinções (bem/mal, belo/feio) são produtos da mente e do apego.
- A obediência à natureza das coisas e a liberdade de todo pensamento discursivo são o caminho para a libertação.
- O condicionamento ocidental, baseado em doutrinas racionais, romanas e paulinas, é visto como um poder imenso que dificulta enormemente o retorno a essa simplicidade natural necessária para o despertar.
- O renuncio exigido por Jesus visa todas as aquisições mentais; é necessário "jejuar do mundo" e "fazer do sábado um sábado" (isto é, renunciar ao mundo profano e ao acumulativo) para encontrar o Reino.
- A atitude deve ser a de um "passante" ou viajante leve, que não se deixa entravar por objeto ou valor algum, por mais espiritual que pareça, pois o apego é incompatível com a vinda do Reino.
- O Sábio verdadeiro trabalha e age sem se apropriar, sem expectativas e sem apego aos resultados, e é precisamente por não se apegar que suas obras permanecem.