O desenvolvimento do pensamento zen na China seguiu mais ou menos os moldes indianos até o tempo de Hui-neng; mas, depois dele, tomou uma direção caracteristicamente chinesa. A visão intelectual da natureza-própria, cultivada em profundidade pelos hindus, passou a ser o que podemos chamar de fase de demonstração prática do Zen chinês. Nos termos da filosofia budista chinesa, podemos dizer que o Uso do Prajna adquiriu maior relevo que o Corpo de Prajna.
Foi o budismo que propiciou o encontro das filosofias da Índia e da China. Introduzido na China já no primeiro século de nossa era, várias foram as tendências que desenvolveu; no presente depoimento, interessa-nos a seita contemplativa do Dhyana (Meditação, Contemplação) — Chan, em chinês; Zen, em japonês.
O credo do Dhyana foi primeiramente pregado, na China, por Bodhidharma nos séculos V ou VI de nossa era. Em 675 [Data fornecida pelo Sutra da Plataforma. Provavelmente a verdadeira cisão ocorreu em 734, quando Shenhui, monge Chan, engendrou a querela transmitida no Sutra entre Subitistas e Gradualistas], rompeu-se a unidade da escola: de um lado colocou-se uma corrente que advogava a teoria da iluminação gradual (Jianwu), alcançada através da purgação das paixões e da purificação progressiva da mente; de outro, um grupo, conduzido pelo sexto patriarca Chan, Huineng, que pregava a iluminação súbita (dunwu): "a sabedoria iluminada (Bodhi-prajna), o homem do século a traz originalmente em si próprio".
A obra de base da doutrina subitista Chan é o chamado "Sutra esotérico da Doutrina da Escola do Sul, Grande Perfeição da Sabedoria do Supremo Mahayana: Sutra da Plataforma pregado pelo Sexto Patriarca, Huineng, no Templo de Dafan em Shaozhou (Nanzong Dunjiao Zuishang Dacheng Moheban-ruo Mi Jing: Liuzu Huineng Dashi, yu Shaozhou Dafansi shi Fa Tanjing), denominação normalmente reduzida para Sutra da Plataforma.
Ricardo Joppert, O Samadhi do Verde-Azul
Muitos observadores perspicazes insistiram na ruptura operada pelo Tch’an com o budismo indiano, notando muitas fórmulas, muitas noções taoístas ou mesmo confucionistas e sublinhando o caráter novo e cada vez mais sinizado dos métodos empregados pelos mestres. Que o Tch’an seja eminentemente chinês (e o Zen, japonês) parece óbvio e o presente volume o testemunha. Mas seria ele, por isso, uma espécie de taoísmo descaracterizado? Responder afirmativamente a esta pergunta não seria desconhecer aspectos profundos do budismo indiano e desconhecer a assimilação do budismo pelos chineses em sua originalidade? Não seria mais fecundo perguntar por que os chineses que às vezes eram letrados confucionistas ou mais frequentemente taoístas optaram pelo budismo? O que havia, então, na religião vinda do Oeste que os seduzia tanto, e como o gênio chinês pôde tão bem adotar a via búdica que, por sua vez, a recriou sob a forma do Tch’an?
Não temos, é claro, a ambição de fornecer aqui uma resposta formal e adequada a essas perguntas, mas podemos ao menos fornecer uma base de resposta segura, destacando por meio de textos esses aspectos profundos do budismo indiano ou, pelo menos, aqueles que se reencontram no Tch’an; este será o objeto do primeiro capítulo. Poderemos então ver surgir os traços fundamentais de uma experiência comum e as particularidades de sua implementação pela escola chinesa. Mas desde já convém definir algumas noções essenciais e situar os problemas.
O traço principal do Tch’an é sua escolha radical pela experiência última e pelo método mais rápido para alcançá-la. Essa escolha implica a rejeição de todo o resto, em particular dos desenvolvimentos doutrinários de todas as espécies e das práticas elaboradas nas quais outras escolas búdicas, tanto na China quanto na Índia, se compraziam.
Mas essa escolha, o Buda a havia feito primeiro. Ele rejeitou todos os sistemas metafísicos, todas as Escrituras que prevaleciam em seu tempo, bem como todos os rituais formalistas. Ele encontrou a libertação por sua experiência pessoal e descobriu as causas da escravidão dolorosa à qual esta põe fim. Seu ensinamento dizia respeito apenas ao real, à experiência, à eficiência; ele mostrou o caminho do Despertar e nada mais.
Ao longo dos séculos, esse ensinamento sofreu interpretações sistemáticas e perdeu sua seiva.
O renascimento do budismo naquilo que foi chamado de Grande Veículo no início da nossa era e, sobretudo, a partir do século III, deve-se a homens que souberam reencontrar a atitude do Buda, quebrar os quadros rígidos, viver plenamente a experiência da iluminação, readaptar a formulação e renovar os métodos. Tais foram os grandes místicos filósofos fundadores das duas “asas” do Mahayana, o Madhyamaka ou Escola do Caminho do Meio e o Vijnanavada ou Yogacara, que faz um estudo sutil da consciência e sublinha a importância da prática.
E tais foram também os mestres do Tch’an, com a diferença de que, em vez de fundar vastos sistemas, eles se limitaram a uma expressão abrupta, propositalmente paradoxal e desarmante, sendo o seu gênio mais orientado, à maneira chinesa, para os métodos práticos.
M. Bruno, Introdução a Le Tch’an (Zen); racines et floraisons. Paris: Ed. de Deux Océans, 1985
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