GILLABERT, Émile. Paroles de Jésus et pensée orientale. Montélimar: Métanoïa, 1974
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A Centralidade do Reino no Ensino de Jesus
- O conceito de "Reino" constitui o núcleo central e o tema convergente de todas as palavras de Jesus nos Evangelhos, sendo apresentado como uma realidade iminente, interior, que não pode ser localizada no tempo ou no espaço, nem observada de forma objetiva, com Jesus afirmando dispor do Reino para seus seguidores tal como o Pai dispôs para ele.
- Esta proclamação da vinda do Reino gerou contínuos mal-entendidos entre os discípulos, que, incapazes de aceder a uma realidade intemporal, permaneciam presos a expectativas materiais e temporais, perguntando, por exemplo, "O Reino, em que dia virá?", demonstrando uma incompreensão fundamental sobre a sua natureza essencialmente não-mundana e presente.
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O Contexto Judaico e a Expectativa Messiânica
- A compreensão da Boa Nova era dificultada pelo contexto histórico judaico, que aguardava um Messias libertador num sentido político e nacionalista, um rei davídico que restauraria o reino de Israel, subjugaria as nações e realizaria as profecias de triunfo e vingança contra os opressores, particularmente o domínio romano.
- Esta expectativa baseava-se numa interpretação das profecias do Antigo Testamento, especialmente de Daniel, que anunciava um tempo de angústia seguido pelo advento de um "Reino dos Santos" eterno, governado por uma figura como um "Filho do homem" vindo nas nuvens, um juízo final e uma ressurreição dos mortos.
- Textos como os de Daniel, que introduziram conceitos revolucionários como a ressurreição corporal e um julgamento cósmico, criaram um clima apocalíptico que impregnou profundamente grupos como os essênios de Qumran e, posteriormente, o pensamento da primitiva Igreja cristã.
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Os Essênios de Qumran e sua Visão do Reino
- A comunidade de Qumran entendia-se como o "Resto" de Israel, os únicos herdeiros das promessas divinas, os "Santos" e "Eleitos" com quem Deus teria estabelecido uma Nova Aliança.
- A sua visão era intensamente escatológica e belicosa: aguardavam uma iminente "Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas", um conflito cósmico e apocalíptico contra as forças do mal (identificadas com os Kittim, os romanos) que culminaria com a vitória final, a exterminação dos ímpios e o estabelecimento definitivo do Reino de Deus na Terra.
- A figura do "Mestre da Justiça", seu líder perseguido, era esperada para retornar como o Messias que presidiria a este juízo final e à instauração do Reino.
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A Complexa Gênese dos Evangelhos Canônicos
- Os Evangelhos canônicos não são relatos diretos ou transcrições literais dos ensinamentos de Jesus, mas obras compostas por várias camadas redacionais, sendo o produto final de um processo complexo que envolveu múltiplas fontes, adaptações e interpretações teológicas.
- A teoria das "Duas Fontes" (Marcos e a fonte Quelle) mostrou-se insuficiente para explicar a gênese textual; estudos mais recentes, como os da Synopse de Benoit e Boismard, propõem uma teia complexa de documentos pré-evangélicos (designados como Q, A, B, C) que foram utilizados, reinterpretados e combinados pelos redatores finais de cada Evangelho.
- Cada evangelista (Mateus, Marcos, Lucas, João) moldou a sua narrativa com base nas suas próprias crenças, no público-alvo a que se destinava (judeus ou gentios) e sob influências teológicas específicas, como o judaico-cristianismo (Mateus) ou o paulinismo (Lucas e Marcos).
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As Diferentes Concepções do Messias e do Reino
- Analisando os textos, é possível discernir três concepções distintas sobre a missão messiânica e a natureza do Reino:
- A de Jesus: Focada num Reino interior, presente "aqui e agora", não observável e de natureza intemporal, acessível através de uma transformação interior ("nascer do alto").
- A dos Judeu-Cristãos (como em Mateus): Preocupada em demonstrar como a vida de Jesus cumpriu as profecias do Antigo Testamento, ligando-o à tradição judaica e à Lei.
- A Paulina: Centrada no Cristo crucificado e ressuscitado como evento redentor único. Para Paulo, a fé no Cristo ressuscitado justifica o crente, substituindo a Lei. O Reino está intimamente ligado ao regresso iminente de Cristo para o Juízo Final, sendo a ressurreição o fundamento de toda a doutrina.
- Analisando os textos, é possível discernir três concepções distintas sobre a missão messiânica e a natureza do Reino:
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O Problema do Acesso às Palavras Autênticas de Jesus
- A vida humana de Jesus permanece largamente desconhecida pelos historiadores. Os relatos de milagres e eventos específicos nos Evangelhos provêm muitas vezes de coleções prévias de narrativas, sujeitas ao gosto pelo maravilhoso e à fabulação.
- As palavras de Jesus foram transmitidas através de coleções de logia (ditos) que circulavam para fins catequéticos antes de serem incorporadas e editadas nos Evangelhos canónicos.
- O apóstolo Paulo, cujas epístolas são os escritos mais antigos do Novo Testamento, demonstra pouco interesse pelos factos e palavras da vida terrena de Jesus, focando-se exclusivamente no Cristo da fé, crucificado e ressuscitado.
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A Descoberta Crucial do Evangelho de Tomé
- A descoberta, em 1945, em Nag Hammadi (Egito), do Evangelho de Tomé – uma coleção de 114 logia (ditos) de Jesus sem narrativa – representa um marco fundamental.
- Este texto, juntamente com fragmentos gregos anteriores descobertos em Oxirrinco, permite aceder a uma tradição de ditos de Jesus anterior e independente da redação final dos Evangelhos canónicos, funcionando como uma fonte mais próxima das palavras originais.
- Muitos dos ditos no Evangelho de Tomé têm paralelos nos Evangelhos canónicos, mas por vezes numa forma mais crua e desprovida das interpretações escatológicas e messiânicas posteriores, oferecendo uma ressonância diferente, por vezes descrita como "gnóstica" pela sua ênfase no conhecimento interior.
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Conclusão: Para Além da Matriz Judaica
- A questão central deixa de ser identificar quem é o herdeiro legítimo das profecias judaicas (o judaísmo ou o cristianismo), mas sim reavaliar o profetismo e o messianismo à luz das palavras autênticas de Jesus, tal como podem ser recuperadas através de uma análise crítica textual e do estudo de fontes como o Evangelho de Tomé.
- O ensino de Jesus sobre o Reino, quando desvinculado das camadas interpretativas judaico-cristãs e paulinas, pode revelar constantes universais que encontram eco nas grandes tradições metafísicas do Oriente, focando-se numa transformação interior e num reino presente, em contraste com a teologia de um evento redentor histórico único e de um juízo final futuro que caracterizou grande parte do desenvolvimento cristão posterior.
- A doutrina paulina de salvação através do sangue redentor de Cristo e da ressurreição para uma vida eternamente distinta é vista como uma teologia de conservação do "eu" que pode parecer estranha ou mesmo monstruosa do ponto de vista das metafísicas orientais tradicionais, que enfatizam a dissolução do ego e a realização de uma unidade fundamental.