Joaquim Carreira das Neves: ESCRITOS DE SÃO JOÃO
Tal como nos Sinópticos, Jesus nunca se proclama Messias, nem responde objetivamente quando lhe perguntam se é o Messias (10, 24: "Se és o Messias, di-lo claramente. Jesus respondeu-lhes: "Já vo-lo disse, mas não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho a meu favor"). O segredo messiânico que encontramos nos Sinópticos aparece também em João. Por outro lado, a função messiânica de Jesus, segundo a teologia clássica das expectativas judaicas, anda ligada à função de Jesus como o Profeta e o Rei prometido (6,14-15: "Aquela gente, ao ver o sinal que Jesus tinha feito, dizia: "Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!" Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte"; 18, 33-37). Em 20, 31, os títulos "Messias" e "Filho de Deus" são equivalentes e, como tal, objeto da fé cristã que se traduz na VIDA.
André Chouraqui: CAMINHOS DOS SALMOS
O Messias é a pedra angular do ensinamento dos Salmos. Desde o salmo 2, somos advertidos de que a finalidade dos dois caminhos e sua dialética se orientam para o triunfo do filho primogênito de Elohims, do rei que ele escolheu. A exegese judaica compreendeu bem o caráter messiânico do Saltério e o interpreta inteiramente em função do triunfo do Rei de Glória. Um texto rabínico (Souka 52 a) distingue inclusive o messias das dores, filho de Iosseph (José), cuja vocação é vir à terra para sofrer e ser morto, e o messias de glória, filho de David. O messias das dores, que encarna o sofrimento de Israel em sua universal paixão, é o justo às voltas com sua noite, enfrentando o combate do criminoso, oferecendo seu sangue por fidelidade a Elohims, abandonado por todos, mesmo pelos seus. Mas no fim da noite há a aurora. A morte é vencida e o caminho do criminoso se dissipa como um pesadelo. A semente de David refloresce e seu chifre se eleva no azul das redenções. Os salmos reais descrevem o esmagamento definitivo do criminoso. Nessa hora, Elohims fará cessar a guerra até as extremidades da terra, destruirá os carros, os escudos, as espadas. A verdade crescerá como uma árvore, o conhecimento de YHWH Adonai invadirá os céus e a terra: a criação inteira cantará glória. leroushalaîms será o centro da reconciliação cósmica: todos os povos reconhecerão, com Israel, o verdadeiro Deus. Serão conduzidos à vitória e governados por toda a eternidade pelo rei da raça de David, o primogênito de Elohims, o Ungido de YHWH Adonai, o Messias glorioso (89,27-31).
A realeza terrestre de David prefigura o reinado de seu filho. A terra inteira será submetida a seu cetro, ele reinará de um mar a outro, do rio às extremidades da terra: sua mão esquerda se estenderá sobre o oceano, a direita sobre os rios. Todos os reis do mundo se prosternarão diante dele; ele será o rei de uma fraternidade cósmica.
Terrestres ambições, disseram. Na verdade, o desaparecimento do caminho de perdição, bloqueado para sempre, encerra a criação inteira na perenidade de YHWH Adonai. O abismo que separava a terra do céu é preenchido pela redenção. Tudo resplandece na unidade primeira. YHWH Adonai diz ao rei: "Tu és meu filho"; e o rei, seu primogênito, o chama: "Meu pai" (2,7; 89,27). O rei de glória viverá eternamente, de geração em geração, estará sentado no trono diante de Elohims; ele será venerado enquanto brilharem o sol e a lua: seu nome eterno florescerá no ouro do céu. YHWH Adonai o jurou, ele não voltará atrás; o Rei-Messias será sacerdote para sempre segundo a ordem de Malki-Sèdèq (Melquisedeque): julgará com justiça e verdade. O inocente, para sempre, por ele, nele, será reabilitado. Sentado à direita de Elohims, reinará pela eternidade na plenitude da paz.
René Guénon: A GNOSE E AS ESCOLAS ESPIRITUALISTAS
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 52
Mitologia Grega
Mircea Eliade: HISTÓRIA DAS CRENÇAS E DAS IDEIAS RELIGIOSAS
Tanto para os essênios como para os cristãos, o Messias aparecerá no fim dos tempos e receberá um reino eterno; nas duas doutrinas messiânicas, os elementos sacerdotal, real e profético coexistem. Contudo, na literatura de Qumran, a concepção de um Messias preexistente (o Segundo Adão, o Filho do Homem) não é atestada; de mais a mais, o Messias ainda não se tornou o Redentor celeste, e as duas figuras messiânicas não estão unificadas, como na cristologia da Igreja primitiva. Enquanto personagem escatológica, o "Mestre de Justiça" inaugurou a Nova Idade. Os seus discípulos atribuíam-lhe uma condição messiânica: a do Mestre que revela o verdadeiro sentido, esotérico, das Escrituras, e que, além disso, é dotado de poderes proféticos. Certos textos dão a entender que o Mestre ressuscitará no fim dos dias. Mas, cuida um especialista, o Pe. Cross, "se os essênios esperavam a volta do seu Mestre como um Messias sacerdotal, exprimiram a sua esperança de uma forma extremamente indireta" (p. 299), o que contrasta com a insistência com que o Novo Testamento desenvolve essa ideia.