Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 164 Guénon – Estados Múltiplos do Ser René Guénon »  Guénon – Metafísica

Guenon Estados Multiplos Ser

RENÉ GUÉNON — OS ESTADOS MÚLTIPLOS DO SER (1932)


Obra em português: IRGET

LAURANT, Jean-Pierre. Le Sens caché selon René Guénon. Paris: Éditions L’Age d’homme, 1975

Os Estados Múltiplos do Ser, publicado em 1932 pelas Éditions Véga, constituem uma retomada dos principais elementos do livro anterior; o prefácio ressalta que é unicamente em relação a nós que o estado humano é privilegiado e de modo algum na existência universal — o que é superior e o que é inferior o são ainda em relação a nós. A obra apresenta respostas a objeções levantadas por ocasião da publicação dos tratados doutrinais precedentes.

Capítulo I: O Infinito e a possibilidade.

Eles não são distintos: como aspecto do Infinito, a possibilidade é total. A concepção de um aspecto decorre da imperfeição de nossos instrumentos mentais, incapazes de apreendê-lo. Assim, o Infinito é a negação da negação.

Capítulo II: Possíveis e Compossíveis.

A distinção introduzida por Leibniz visava mostrar que toda possibilidade só se realizava sob a condição de não implicar contradição; para Guénon, essa distinção só tem valor em um conjunto determinado de existência. Do ponto de vista universal, coexistem possibilidades de manifestação e de não-manifestação, e todo possível é real.

“Se se perguntasse, contudo, por que toda possibilidade não deve manifestar-se — isto é, por que há ao mesmo tempo possibilidades de manifestação e possibilidades de não-manifestação —, bastaria responder que o domínio da manifestação, sendo limitado pelo fato mesmo de ser um conjunto de mundos ou de estados condicionados (aliás, em multidão indefinida), não poderia esgotar a Possibilidade universal em sua totalidade; ele deixa fora de si todo o incondicionado, isto é, precisamente aquilo que, metafisicamente, mais importa.”

Capítulo III: O Ser e o Não-Ser.

Todas as possibilidades de não-manifestação situam-se necessariamente fora do Ser, e o próprio Ser, enquanto Princípio da manifestação, não é manifestado. O Não-Ser não é de modo algum sinônimo de nada; ambos pertencem à possibilidade universal. O Não-Ser é, por assim dizer, um zero metafísico.

A relação entre o zero e o Não-Ser já havia sido abordada por Guénon, que a herdara dos ocultistas: P. G. Lacuria fora retomado em 1894 em La Haute Science, com um artigo sobre a simbólica dos números tratando dessa questão. Seu livro Les Harmonies de l’être exprimées par les nombres foi reeditado em 1899 por René Philipon.

Capítulo IV: Fundamentos da teoria dos estados múltiplos.

Os estados de não-manifestação asseguram ao ser a permanência e a identidade; há correspondência entre cada estado de manifestação de um ser e um grau de existência em geral. Cada estado compreende modalidades diversas, como a modalidade corporal para o estado humano.

Capítulo V: Relações entre Unidade e Multiplicidade.

A multiplicidade está contida na unidade primordial e nela continua contida em virtude da manifestação.

Capítulo VI: Analogias tiradas do estado de sonho.

Aí se precisam o lugar e os limites da consciência. Quando o sujeito sonha, pode achar-se ao mesmo tempo ator e espectador: “é ele mesmo quem os realiza como tantas modificações de si próprio, sem por isso deixar de ser ele mesmo, independentemente de suas modificações, que em nada afetam aquilo que constitui a essência própria de sua individualidade.”

É unicamente a consciência individual, aplicada ao estado sutil, que faz a realidade desse mundo do sonho. No universo manifestado também há algo que o torna real: a consciência e o pensamento são modos particulares de manifestação.

Capítulo VII: As possibilidades da consciência individual.

Ela é a razão de ser do estado individual humano, por meio do qual, como se viu no capítulo precedente, o ser individual participa da inteligência universal (Guénon remete aqui ao Manas estudado em O Homem e seu Devir). Os modernos tendem a estender o campo da consciência ao subconsciente; é importante fazê-lo no sentido de um superconsciente.

Capítulo VIII: O mental, elemento característico da individualidade humana.

A consciência não é exclusivamente humana; somente a consciência do eu, ligada ao Manas, o é. Essa consciência é produzida na intersecção do intelecto com o plano individual.

Capítulos IX e X: A hierarquia das faculdades individuais e os confins do indefinido.

A atividade do ser no intelecto e no mental pode dissociar-se; o mesmo ocorre com o princípio psíquico, ao mesmo tempo mental e sentimental. A hierarquia das faculdades individuais corresponde à dos estados do ser, podendo também imaginar-se como um círculo-limite da dispersão máxima dos pontos de vista parciais — dispersão que precede sua reintegração.

Capítulos XI e XII: Princípios de distinção entre os estados do Ser; os dois caos.

Em relação à extensão da possibilidade individual, certos estados podem ser ditos pré-humanos e outros pós-humanos (num sentido mais lógico que cronológico). Assim, as distinções podem ser consideradas sob o ângulo do formal e do informal, do individual e do universal.

Capítulo XIII: As Hierarquias espirituais.

Essa concepção cristã não tem, para Guénon, nenhum interesse metafísico para quem compreende a hierarquização dos estados múltiplos na realização efetiva do ser total. Os diversos Céus identificam-se aos estados superiores do homem, mas permanecem no domínio do manifestado, ainda que informal. O ponto de vista “esotérico” ultrapassa, portanto, na Libertação, essas limitações.

Após ter precisado, no capítulo XIV, as respostas às objeções tiradas da pluralidade dos seres, o capítulo XV trata da realização do ser por meio do conhecimento:

“Não há conhecimento verdadeiro, em qualquer domínio que seja, senão aquele que nos permite penetrar, mais ou menos profundamente, na natureza íntima das coisas, e os graus do conhecimento não podem consistir precisamente senão no fato de que essa penetração é mais ou menos profunda e conduz a uma assimilação completa. Em outros termos, não há conhecimento verdadeiro senão na medida em que ele implica uma identificação do sujeito com o objeto, ou, se se preferir considerar a relação em sentido inverso, uma assimilação do objeto pelo sujeito.”

Capítulo XVI: Conhecimento e consciência.

Elas de modo algum se confundem: o conhecimento vai além dos estados de consciência e do próprio ser; ele se identifica com a possibilidade total, que é — como Guénon repetiu suficientemente — o real. Não há, portanto, nada que seja incognoscível: a distinção entre o intelecto e o objeto de seu conhecimento é produzida por uma refração do intelecto em um estado dado. Quanto ao desenvolvimento sobre o método prático para atingir essa identidade, ele o reservava para outro estudo.

Os dois últimos capítulos — Necessidade e Contingência e Noção metafísica da liberdade — analisam esses problemas filosóficos à luz da metafísica tradicional:

“Lá onde não há dualidade, não há necessariamente nenhuma coerção, e isso basta para provar que a liberdade é uma possibilidade, já que resulta imediatamente da não-dualidade, que é evidentemente isenta de toda contradição.”

A afirmação dos graus do conhecimento é aqui notável: o saber esotérico não se adquire por iluminação; a iniciação não é um caminho de Damasco, mas o início de um processo de transformação progressiva. Guénon mantém-se no sistema de divisão em graus do saber, tal como na Maçonaria e nas sociedades secretas do século precedente.

A Ordem Cabalística da Rosa-Cruz, de S. de Guaita, chegou a moldar sua hierarquia sobre os graus universitários.

O mesmo ocorre com a Unidade, que igualmente não pode estar sujeita a coerção; à medida que se desce na manifestação, a liberdade torna-se relativa. A liberdade do homem reside em sua possibilidade de retorno ao Universal.

Esses três livros constituem certamente o mais completo tratado de metafísica esotérica existente, sobretudo em uma época em que a noção de unidade do universo era unanimemente rejeitada e em que o espírito analítico dominava sem partilha.

Podem-se distinguir dois aspectos na exposição doutrinal: uma aproximação do inexprimível que desemboca numa definição do “olhar esotérico”, da qual o capítulo XVI do livro anterior oferece excelente formulação; o segundo é o conjunto de definições, formalizações e conceptualizações que Guénon apresenta no mesmo plano como sendo a metafísica una e universal. Essa parte parece-nos marcada pelo selo da filosofia ocidental, e o problema desloca-se então para o campo histórico: em que medida os gnósticos, por exemplo, podem ser ligados a uma metafísica una e universal?

O Swami Abhishiktananda, interrogado sobre René Guénon, de quem M. Cuttat lhe falara com o mais alto apreço, respondeu a N. M. Denis-Boulet em 8 de julho de 1968 que, estando ele mesmo na fonte, não se interessava: o demônio helênico incita a discutir e a ler — “mais do que os filósofos magistrais da Índia, há a intuição dos videntes.”

Mas, para nós, dominados por esse mesmo demônio, embora contra a vontade, tal reprovação não tem valor.