CONCEITO E OBJETO DA ONTOLOGIA (cont.)
BREVE HISTÓRICO DA ONTOLOGIA
Um rápido estudo histórico da Ontologia, ou pelo menos dos seus temas fundamentais, nos revelaria desde logo que sobram razões a favor da nossa atitude.
Basta que nos coloquemos na história do pensamento grego e no nosso, para logo evidenciar-se que o processo filosófico dos temas ontológicos tiveram muitas vezes oportunidade de nos oferecer caminhos novos.
Quando os primeiros gregos, do período cosmológico, procuravam a arche, fundados na experiência sensível e na decorrência das análises físicas, tentavam descobrir a natureza profunda das coisas e do cosmos, a realidade fundamental, o grande incondicionado, como a água, símbolo da arche, de vibração, princípio plástico, capaz de manifestar todas as formas, de Tales, ou o apeiron, o indeterminado, que se determina nas coisas finitas de Anaximandro, ou no fogo, símbolo do princípio fluídico, dinâmico e ativo de Heráclito, etc.
Se esses primeiros tateamentos ontológicos fundavam-se nos fatos físicos, aí não pretendiam permanecer, enquanto tais, mas procurar o que fosse a origem, fonte e princípio deles. Com Pitágoras inaugura-se outra fase nas especulações ontológicas. Se nos pusermos numa compreensão nítida do número (arithmos) pitagórico, já ingressamos num terreno genuinamente ontológico, em que os números, encontrados nas coisas (as proporções, harmoniais, etc., como estudamos sinteticamente na "Teoria do Conhecimento"), são símbolos dos arithmoi archai. Estamos aqui numa ontologia de sabor matemático, mas no sentido pitagórico do termo e não no da matemática comum, fundada nas abstrações de terceiro grau do quantitativo, no arithmós posóotes, já por nós, naquele lugar, estudado.
Com Parmênides, o estudo do ser é especulativamente levado a uma reflexão da sua interioridade, na busca do seu absoluto, pois o ser é examinado em sua ipseidade, sem relação a qualquer outro, sem opor-se a qualquer outro, pois o ser se afirma por si mesmo.
Com Leucipo e Demócrito, surge a posição atomística mecanicista, até alcançarmos a crisis que faz surgir o movimento céptico, em que os estudos ontológicos são postos em suspensão (epochê), o que já tivemos, em nossas obras anteriores, oportunidade de salientar.
A crise céptica e relativista segue-se a reação socrática e o advento de Platão e Aristóteles, que procuram sintetizar as positividades da filosofia grega, sob a influência de dois temperamentos, um genuinamente introvertido, o de Platão, e um genuinamente extrovertido, tendendo, portanto, para um realismo intelectualista, como o de Aristóteles.
Não vamos repetir aqui o que já tantas vezes estudamos. Mas é fácil, desde já, verificar que os caminhos empregados na especulação ontológica são vários, segundo o advento das diversas posições que pertencem ao processo filosófico e que se repetem, correspondentemente, é verdade, nos diversos ciclos culturais elevados.
A antinomia entre o Um e o Múltiplo, entre o Ser e o Devir, que encontramos patentemente na obra dos pré-socráticos, e que serviu de estudo e tema em nosso "Teoria do Conhecimento" , e que permanece, pelo menos aparentemente, na obra platônica, que estabelece um dualismo metafísico entre os eide e o modo do devir, mundo da aparência, é concrecionado numa unidade em Aristóteles, ao incorporar os eide ao mundo material.
A antinomia entre o ser e o devir é superada por Aristóteles com a doutrina da antinomia, com o estabelecimento dos modos de ser, a potência e o ato, conciliando, dialeticamente, a determinabilidade da potência com a determinação do ato. A ordem cósmica transparece aos olhos de Aristóteles como algo já dado, sem que procure explicá-la, sem buscar a sua origem transcendental. Assim, a ideia da criação não aparece no pensamento aristotélico, pois o Primeiro Motor não é um Deus criador, nem providencial. Em suma, o seu pensamento não é teísta, mas marcadamente panteísta, pois chega a afirmar a existência eterna e incondicionada do mundo.
É com os estoicos que a presença de uma inteligência cósmica, ordenadora do cosmos, surge. (O Logos spermatikós, a razão geradora da ordem cósmica), que é já providência, criadora, que atua por leis imutáveis e necessárias. Mas esse Logos é corpóreo ainda, uma alma do cosmo, que atua na realização da ordem, dando lugar a palingêneses periódicas, que encontramos no pensamento cíclico do eterno retorno (influindo, posteriormente, não só no pensamento gnóstico, como no ocidente, em diversas posições filosóficas até nossos dias, como no pensamento nietzscheano do eterno retorno).
Na escola de Alexandria, vemos a presença desse pensamento, e através de uma simbólica alegórica, na filosofia de Filou e Plotino, e no pensamento judaico, a busca do simbolizado, pela construção de uma estética do simbolizado, que é a mística (de influência egípcia, inegavelmente), que admite, pela captação do simbolizado, através dos símbolos, uma união mais íntima, uma vicio essentiae Dei, do intelecto humano ao captar a divindade.
Em Plotino, influído pelo pensamento platônico, Deus é Um, simples e único, perfeito e omnipotente. Anarchós, absolutamente livre, cria livremente, e o cosmos surge por emanação desse Um, através de suas hipóteses, como Inteligência e Alma do Mundo, o que o coloca numa posição perigosamente panteísta.
É grande a influência plotiniana no pensamento posterior cristão, (Santo Agostinho, Scot Eriugena, etc), e teremos oportunidade, mais adiante, de examiná-la e precisá-la.
Cabe a São Tomás, no ciclo cultural do ocidente, o mesmo papel que coube a Aristóteles no ciclo cultural grego: realizar a grande concreção das positividades da filosofia até então enunciadas. A Ontologia vai impor-se de modo eficiente. Fundado em Aristóteles, mas sofrendo a influência do platonismo, realiza uma síntese ontológica, genuinamente cristã, fazendo convergir os dois pensamentos, o aristotélico e o platônico, e superando a antinomia pela sua doutrina do ser e da essência, que estudaremos no lugar conveniente.
Examinando em suas linhas gerais até aqui, o processo do pensamento ontológico, vimos que o mesmo empregou diversos métodos, como o de uma especulação através da física experimental (dos pré-socráticos), pela especulação meramente lógica (dos parmenídicos) pela especulação dialética (dos heracliteanos) pela crítica céptica e relativista (dos sofistas em geral), pela análise formal, mas fundada no empirismo intelectualista (de Aristóteles) pela estética do símbolo (de Platão), pela estética do simbolizado (dos místicos em geral, incluindo Plotino) pela especulação mística e pela revelatio (tanto dos gnósticos como dos agostinianos) até alcançar a síntese tomista, que é intelectualista realista, de sabor aristotélico, com a especulação alegórica, fundada na revelatio religiosa do cristianismo.
Não pararam ai os métodos empregados. Com o desenvolvimento da filosofia, após o século XIII e já no período de refluxo da escolástica, no século XIV, quando o nominalismo ressurge sob novas cores, as análises ontológicas estão sob a égide do empirismo e do agnosticismo, fases correspondentes ao período céptico no ciclo cultural grego, e que na "Teoria do Conhecimento" tivemos oportunidade de examinar.
O empirismo, que surge alimentado pelos estudos de Ockam, ameaça subverter as especulações ontológicas, como o vemos no pensamento de Locke, Berkeley, Stuart Mill, até nossos dias,como já examinamos.
Surgem, então, os movimentos evolucionistas, intuicionistas, numa alternância de posições díspares, que nos revelam as constantes adversas de todo o pensamento filosófico, com a influência dos fatores predisponentes, até alcançarmos em nossos dias a fenomenologia de Husserl e o existencialismo, em seus diversos matizes, o que ressaltará nas páginas que seguem, onde os estudaremos no modo de se portarem ante os grandes temas ontológicos.
A variabilidade de métodos vai consistir no emprego dos já antigamente estabelecidos, com algumas variantes, fundadas nas novas experiências, o que surgirá nos temas sucessivamente tratados. Todos esses métodos, serão por nós concrecionados nessa síntese de positividades, que oferece a decadialética, cujo modo de funcionar, no estudo dos temas ontológicos, será exposto no decorrer desta obra.