VEJA: ORIGINAL
Vedanta e Ahamkara
É nos Upanixades que o termo ahamkara aparece pela primeira vez, de maneira muito discreta e episódica, é verdade. Em todo caso, estes textos são para nós os primeiros onde se desdobra em toda sua amplitude a problemática geral da individuação, visualizado do ponto de vista da «salvação» ou, pelo menos, da passagem a um modo de ser transcendente. Embora não sejam ainda filosofia no sentido técnico do termo, não podemos deixá-los de lado, pois seu excepcional poder de sugestão ajuda frequentemente a compreender a literatura posterior, assim como aquele que, as tomando por Revelação, é feita de seu comentário perpétuo assim como aquele cujas ligações com eles são, aparentemente, menos fortes.
Os Upanixades, parte especulativa e mística do Veda, são considerados constituir a completude — anta —; seu ensinamento é estabelecido no Vedanta, um dos seis sistemas reconhecidos pela ortodoxia bramânica ulterior. O Vedanta é ele mesmo dividido entre várias escolas, mas a escola mais importante, assim como a mais antiga — daquelas, pelo menos, das quais as produções nos alcançaram — assim como a mais influente, permanece aquela fundada pelo ilustre Sankara, o Advaita ou doutrina da não-dualidade. É no interior deste sistema que a noção de ahamkara foi elaborada com o maior rigor, de perspicacidade e de constância. Seu exame formará portanto a espinha dorsal do presente trabalho. Começado com o fundador mesmo da escola, abrangerá a obra de seus principais continuadores até cerca do século XI.
No entanto, o Advaita é um retardatário entre os sistemas ortodoxos. Entre seus primórdios (século VII) e os mais antigos Upanixades cerca de quinze séculos se passaram. No intervalo um fenômeno de porte considerável se produziu: o apogeu do budismo, e secundariamente do Jainismo. Estes movimentos, sobretudo o budismo, podem ser interpretados por um lado como uma reação, originária de meios renunciantes estranhos ao ritualismo bramânico, contra uma certa maneira de conduzir o ensinamento upanixádico no sentido de um imoralismo mágico da manipulação das forças cósmicas em benefício da vontade de poder individual. Uma doutrina tão célebre como aquela da negação do atman procede diretamente desta preocupação. E não é exagero dizer que é este pôr em questão radical de sua prática mágico-ritualista que constringiu os brâmanes a se aventurar sobre o terreno da reflexão filosófica propriamente dita. Os darshanas («sistemas») clássicos outros que o Vedanta sankariano — e que o precederam em seus desenvolvimento — constituem tantas respostas a este desafio, respostas mais ou menos adequadas segundo a profundidade do distúrbio produzido pela doutrina da «ausência de Si» nos diversos meios concernidos. O Advaita não sendo senão a última e mais adequada destas respostas, não poderíamos associá-lo diretamente aos Upanixades sem uma colocação prévia, relativa à doutrina budista do não-Si e a seu choque no bramanismo. O apogeu da noção de ahamkara é com efeito indissociável destas reações bramânicas pré-sankarianas.