VIDE: ANATMAN
Ananda Coomaraswamy: ANATTA; EU; NÃO-INDIVÍDUO; IMPERMANÊNCIA
Julius Evola: INTERIOR E EXTERIOR
''Asian Philosophy, Vol. 12, No. 1, 2002. "Against No-Atman Theories of Anatta", MIRI ALBAHARI''
Introdução
- Centralidade da doutrina de anatta no budismo e a complexidade de seu significado, com destaque para leituras populares que a vinculam a teorias de negação do Atman.
- Distinção entre doutrina negativa de anatta, que rejeita todas as noções upanisádicas de Atman, e doutrina positiva, que reduz a pessoa a agregados condicionados e impermanentes (khandhas).
- Menção a interpretações alternativas que veem continuidade entre budismo e vedanta, como Christian Lindtner ao propor o budismo como "bramanismo reformado", Karel Werner ao criticar apropriações incorretas do conceito de Atman, e Thanissaro Bhikkhu ao interpretar anatta como estratégia prática.
- Declaração de propósito de Miri Albahari de desenvolver argumentos contra as teorias de anatta entendidas como negação do Atman, enfatizando as contribuições de Sankara e o paralelismo metodológico entre budismo e advaita vedanta.
A Doutrina Negativa de Anatta
- Apresentação de leituras de David Kalupahana, que afirma: “a teoria upanisádica do self é destinada, sem dúvida, a satisfazer o desejo profundo do homem pela autopreservação… mas para o Buda, uma teoria que é meramente plausível não é verdadeira em si mesma. A verdade para ele era o que estava de acordo com os fatos, não o que atendia aos gostos”.
- Exposição de Prasad, segundo o qual “o budismo em geral é conhecido por sua severa oposição à crença em qualquer substância chamada alma… a crença em uma alma é um dispositivo carregado de disposições e uma falsa segurança”.
- Referência a obras introdutórias sobre filosofia oriental que afirmam: “o Buda toma uma linha completamente diferente. O budismo afirma que não há um self individual único”.
Atman Não Como Alma Substancial
- Contestação da leitura que identifica o Atman como substância eterna, com base em Karel Werner, que afirma: “nenhuma escola indiana de pensamento jamais considerou a alma humana ou a portadora da identidade pessoal como uma substância permanente”.
- Fundamentação em Sankara, que no Crest Jewel of Discrimination declara: “o Atman é a testemunha – além de todos os atributos, além da ação. Pode ser diretamente realizado como pura consciência e bem-aventurança infinita. Sua aparência como alma individual é causada pela ilusão do entendimento, e não tem realidade”.
- Explicação de Sankara de que a identificação do Atman com corpo e intelecto é fruto de avidya (ignorância) e maya (ilusão), criando a falsa impressão de um “eu-agente” substancial.
- Citação de Sankara: “o ego-senso é profundo e poderoso… cria a impressão de que ‘eu sou o ator, eu sou aquele que experiencia’. Essa impressão causa o cativeiro no renascimento e na morte”.
- Ênfase de que, assim como o Buda, Sankara rejeita a ideia de alma substancial, e que seu ensinamento visa à destruição do senso de individualidade.
A Suspeita de Eternalismo e a Interpretação Correta do Atman
- Apresentação da crítica de que a linguagem de Sankara sobre a bem-aventurança e eternidade do Atman poderia soar como eternalismo.
- Observação de que o próprio Sankara, citando a tradição upanisádica, afirma que o Atman é “nem grosseiro nem sutil, nem curto nem alto, autoexistente, livre como o céu, além do alcance do pensamento”.
- Exemplo do diálogo entre Basikali e Bahva, em que o silêncio é ensinado como a própria definição do Atman: “silêncio é o Atman”.
- Interpretação de Eliot Deutsch segundo a qual as descrições positivas (“eterno”, “felicidade”, “consciência”) são estratégias pragmáticas, via negativa, para negar seus opostos, conduzindo a mente ao real.
Identificação com Brahman como Estratégia Prática
- Explicação de que a instrução de Sankara “identificar-se com Brahman” deve ser entendida como método para cultivar aspectos luminosos e sábios da experiência, que conduzem à dissolução de maya.
- Advertência sobre riscos da estratégia advaitin: confundir conceitos ou experiências intermediárias de Atman filtrado pela ilusão com a realização do Atman puro.
- Paralelismo com a crítica do Buda, que alerta contra a identificação com khandhas e com formações mentais, mas que não se pronuncia sobre a identidade última entre Atman e Brahman.
- Sugestão de que as diferenças entre Sankara e Buda podem residir mais em estratégia pedagógica do que em divergência metafísica.
Convergência de Objetivos Espirituais Entre Advaita Vedanta e Budismo
- Citação de Sankara: “abandona também a ideia de que és o fazedor das ações ou o pensador dos pensamentos. Quando todo desejo tiver desaparecido, isso é libertação”.
- Demonstração de que tanto em Sankara quanto no Buda o objetivo é a superação do ego e do apego, alcançando libertação do ciclo de renascimentos e do sofrimento.
Rejeição da Doutrina Negativa de Anatta
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Síntese dos argumentos contra a leitura de anatta como mera rejeição do Atman:
- Sankara rejeita concepções de alma substancial.
- A realização do Atman implica destruição da identidade individual, não sua preservação.
- O Atman não se enquadra em eternalismo ou qualquer “ismo”.
- Identificação com Brahman é método estratégico, não expressão de desejo de autopreservação.
- Divergências entre Buda e Sankara dizem respeito a método, não metafísica.
- Tanto Buda quanto Sankara visam à superação do ego e do apego a existências condicionadas.
A Doutrina Positiva de Anatta e o Problema do Parinibbana
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Exposição da visão de autores como Rahula e Gethin de que a pessoa é apenas um conjunto de khandhas, e que a morte de um arahant seria aniquilação total.
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Citação do Sutta Nipata:
- Upasiva pergunta: “aquele que chegou ao fim não existe, ou é eternamente livre de aflição?”.
- O Buda responde: “aquele que chegou ao fim não tem critério pelo qual alguém poderia dizer que – para ele não existe. Quando todos os fenômenos são eliminados, todos os meios de falar também são eliminados”.
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Argumento de que o próprio Buda rejeita o aniquilacionismo, chamando-o de “suposição maligna” no Yamaka Sutta.
Insuficiência dos Khandhas Condicionados para Explicar ou Atingir Nibbana
- Argumento de Thanissaro Bhikkhu em The Mind Like Fire Unbound de que Nibbana não é um vácuo, mas descrito em termos afirmativos: “o não-fabricado, o fim, o verdadeiro, o além, a paz, o imperecível, a felicidade suprema”.
- Observação de que tal caracterização desafia a doutrina positiva de anatta, que não consegue explicar nem a realidade de um arahant nem o surgimento de consciência liberada.
- Citação do Bahuna Sutta: “o Tathagata – liberto, dissociado e livre dessas dez coisas – habita com consciência irrestrita. Como uma flor de lótus que cresce na água e se ergue acima dela sem que a água adira a ela, assim o Tathagata habita com consciência irrestrita”.
Indícios de um Elemento Não Condicionado na Natureza Humana
- Proposição de que a capacidade de alcançar o caminho óctuplo e a libertação deve ter como fundamento um elemento não condicionado, sempre presente, mas obscurecido por ignorância.
- Identificação deste princípio não condicionado com o Atman em advaita vedanta, e com o fundamento do despertar no budismo.
Rejeição das Teorias de Anatta Como Negação do Atman
- Conclusão de que tanto a doutrina negativa quanto a positiva de anatta são insustentáveis.
- Afirmação de que insistir em interpretações “sem Atman” distorce o paralelo entre budismo e vedanta, enfraquecendo o entendimento da proximidade de seus objetivos espirituais.
Anatta Como Estratégia Prática
- Interpretação de Thanissaro Bhikkhu segundo a qual “se alguém usa o conceito de não-eu e não de não-self para desidentificar-se de todos os fenômenos, vai além do alcance de todo sofrimento e estresse”.
- Explicação de que anatta funciona como imperativo prático, desencorajando a projeção de permanência, felicidade e self sobre os khandhas.
- Citação do Anatta-lakkhana Sutta: “os monges devem ver claramente, por meio do entendimento, que corpo, sensações, percepções, formações e consciência são ‘isso não é meu, eu não sou isso, isso não é meu self’”.
- Reafirmação de que a doutrina de anatta não deve ser tomada como tese metafísica, mas como método de libertação do sofrimento, em convergência com o objetivo de Sankara.