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id da página: 1034 IBN ARABI – SABEDORIA DOS PROFETAS – NO VERBO DE NOÉ Ibn Arabi

Ibn Arabi Noe


EXCERTOS DA SABEDORIA DA TRANSCENDÊNCIA (al-hikmat as-subuhiyah) NO VERBO DE NOÉ

Para os conhecedores das Verdades divinas (ahl al-haqa'iq), afirmar [unilateralmente] que Deus é incomparável às coisas, é precisamente limitar e tornar condicional a concepção da Realidade divina [pois se exclui assim as qualidades das coisas]; aquele que nega toda similitude a respeito de Deus, sem se afastar desse ponto de vista exclusivo, manifesta ou uma ignorância, ou uma falta de «tato» (adab). O exotérico que insiste unicamente na transcendência divina (at-tanzih) [com a exclusão da imanência (at-tashbih)] calunia Deus e Seus enviados — sobre eles a Bênção divina! — sem se aperceber; imaginando que ele atinge o alvo, ele bate bem ao lado; pois ele é daqueles que não aceitam senão uma parte da revelação divina e rejeitam a outra.

Sabe-se que as Escrituras reveladas como lei comum (shari’ah) se exprimem, ao falarem de Deus, de maneira que a maioria dos homens apreende o sentido mais próximo, enquanto que a elite compreende todos os sentidos, ou seja toda significação incluída em cada palavra em conformidade com as regras da língua empregada.

Pois Deus Se manifesta em toda criatura de uma maneira particular. É Ele que Se revela em toda significação, e é Ele que permanece escondido a toda compreensão, exceto para aquele que reconhece no mundo a «forma» e a asiedade (huwiyah) de Deus, e [que vê o mundo como] o Nome divino O Aparentemente (az-zahir). Do mesmo modo, concebe-se Deus idealmente como o espírito inerente a toda manifestação, de modo que ele é o Interior (al-batin) sob esse relatório, e que ele é para toda forma manifestada neste mundo o que é o espírito regendo a forma corpórea que dele depende. A definição lógica do homem, por exemplo, compreende seu exterior como seu interior; e o mesmo acontece para toda coisa definível. Quanto a Deus, Ele Se «define» pela soma de todas as «definições» possíveis; ora, as «formas» do mundo são indefinidas, não se saberia as compreender todas nem conhecer a definição lógica de cada uma, exceto na medida em que elas entram na definição de tal mundo [ou microcosmo] dado. Por esse fato, se ignora a «forma» lógica de Deus, uma vez que não se a conheceria senão conhecendo a definição de todas as «formas», o que é uma impossibilidade; «definir» Deus não é, portanto, possível.

Do mesmo modo, aquele que compara Deus sem afirmar ao mesmo tempo sua incomparabilidade, Lhe atribui limites e não O reconhece. Mas aquele que une em seu conhecimento de Deus o ponto de vista da transcendência com o da imanência, e que atribui a Deus os dois «aspectos» globalmente — pois é impossível os conceber em detalhe, por isso mesmo que não se saberia abraçar todas as «formas» do universo — O conhece de verdade, ou seja que ele O conhece globalmente, não distintivamente, do mesmo modo que o homem se conhece a si mesmo globalmente e não distintivamente; e é por isso, aliás, que o Profeta liga o conhecimento de Deus ao de si mesmo, dizendo: «Aquele que se conhece a si mesmo conhece seu Senhor.» Por outro lado, Deus diz no Corão: «Nós lhes mostraremos Nossos sinais nos horizontes» — a saber no mundo exterior — «e em si mesmos» — em sua essência — «até que lhes se torne evidente que [tudo] é Deus (al-haqq)» (XLI, 53) — nesse sentido que o ser é Sua forma e que Ele é seu espírito, de modo que se é [em sua totalidade] para Ele o que é a forma corpórea para o ser, e que Ele é para o ser o que é o espírito que rege a forma de seu corpo.

A definição do ser implica ao mesmo tempo seu exterior e sua realidade interior; pois a forma [corpórea] que permanece, quando o espírito que a regia a deixou, não é mais um homem; se fala dela como de uma forma tendo uma aparência humana, mas que não se distingue [essencialmente] de uma forma feita de madeira ou de pedra, e que não porta o nome de homem senão por extensão do termo e não no sentido próprio. Ora, das formas do mundo, Deus não pode jamais Se abstrair [pois elas cessariam desde então de existir], de modo que elas são necessariamente compreendidas na «definição» da Divindade (uluhiyah), enquanto que a forma exterior do homem não o define senão acidentalmente, enquanto ele está nesta vida. Do mesmo modo que a forma exterior do homem «louva por sua língua» seu espírito e sua alma que a regem, do mesmo modo as formas do mundo «glorificam» Deus, embora não se compreenda seu louvor [segundo o Corão: «Não há de coisa que não O glorifique, mas vocês não compreendem seu louvor»] (XVII, 44), e isso porque não se abraça toda forma deste mundo. Cada uma delas é uma língua que pronuncia o louvor de Deus; e é por isso que [o Corão] diz: «Louvor a Deus, o Mestre dos mundos» (I, 2), o que significa que todo louvor se refere finalmente a Ele. De modo que Ele é ao mesmo tempo Aquele que louva e Aquele que é louvado.

Se se afirma a transcendência divina, se condiciona [a concepção de Deus], e se se afirma Sua imanência, se a delimita; mas se se afirma simultaneamente um e outro ponto de vista, se será isento de erro e modelo de conhecimento.

Aquele que afirma a dualidade [de Deus e do mundo] cai no erro de associar alguma coisa a Deus; e aquele que afirma a singularidade de Deus [excluindo de Sua realidade tudo o que se manifesta como múltiplo] comete a falta de O encerrar em uma unidade [racional]. Guarde-se da comparação quando se considera a dualidade; e guarde-se de abstrair a Divindade quando se considera a Unidade!

Não se é Ele; e, no entanto, se é Ele; se O verá nas essências das coisas, soberano e condicionado ao mesmo tempo...