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id da página: 3656 Ibn Kahldun Homem

Ibn Kahldun Homem

Ibn Khaldun — Prolegômenos

Excertos do «SEXTO DISCURSO PRELIMINAR» da tradução de José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury, IBF, 1958

TRATANDO DOS HOMENS QUE, SEJA POR DISPOSIÇÃO INATA, SEJA POR TREINO OU DISCIPLINA, CHEGAM A PERCEBER O MUNDO INVISÍVEL; COM OBSERVAÇÕES PRELIMINARES SOBRE A NATUREZA DA REVELAÇÃO


Dentro da espécie humana, Deus Altíssimo escolheu certos indivíduos a quem concedeu o privilégio de conversarem com Ele. Criando-os para O conhecerem e colocando-os como intermediários perante suas criaturas e servos, encarregou estes poucos privilegiados de ensinar aos homens quais seus interesses verdadeiros, e, guiando-os com zelo, preservá-los do fogo do inferno seguindo o caminho da verdade. Além dos conhecimentos que lhes transmite e das maravilhas que ao mundo anuncia por sua boca, Ele dá-lhes a faculdade de predizerem o que deve acontecer e indicarem os acontecimentos velados ao resto dos mortais. Como somente Deus tem conhecimento destas coisas, serve-se do ministério de certos homens de escol, que por si mesmos são incapazes de conhecê-las, para fazer um tal gênero de comunicação. O Profeta diz: "Quanto a mim, apenas sei o que Allah me ensinou". As predições destes homens têm a verdade como carácter distintivo e essencial, o que o leitor terá ocasião de verificar quando tratarmos da verdadeira natureza do Profetismo.

Caracteriza os indivíduos desta classe um sinal distintivo: no momento em que recebem a revelação divina, eles se acham completamente alheios a tudo o mais que os envolve, fazendo ouvir gemidos surdos. Ao vê-los assim, dir-se-ia que caíram em síncope ou que desmaiaram, quando não é uma coisa nem outra. Na realidade, estão absortos no reino espiritual que acabam de encontrar. Isto acontece com eles em virtude de uma potência perceptiva que lhes é própria e que é diferente de toda a percepção. Não tardará que esta potência desça até à percepção das coisas compreensíveis aos mortais, percepção que chega, quer por meio de sussurro de palavras que só eles compreendem, quer sob a figura de pessoa portadora de mensagem da parte de Deus. O êxtase é momentâneo e passa, mas a mente conserva o teor do que lhe foi dito.

Interrogado sobre a natureza da revelação que recebia, o Profeta disse: "Às vezes, ela me vem como o tilintar de um sino, o que é muito cansativo para mim; e, quando acaba e me deixa, eu já retive o que me foi dito. Outras vezes, o anjo toma a forma humana para me falar, e eu guardo o que ele me diz". Quando neste estado, era preso de dores indizíveis e deixava escapar gemidos abafados. Nos livros das Tradições (Hadith), encontramos os seguintes pormenores: O Profeta tratava, como uma doença, certa dor que sentia em seguida às revelações que recebia1 . Aycha, mulher de Muhammad, dizia: Certa vez, a revelação chegou-lhe num dia excessivamente frio, e, quando terminou, a sua fronte estava banhada de suor. No próprio Alcorão, Deus Altíssimo diz: Nós vamos dirigir-te uma palavra opressiva (Ale. LXXIII: 5).

Foi devido ao estado em que ficavam os profetas, ao receberem a revelação, que os politeístas os tratavam de loucos, dizendo: "É um homem sujeito a visões". "Ele tem um demônio familiar". Ao emitirem semelhante juízo, foram enganados pelas circunstâncias exteriores que acompanhavam o êxtase, e aquele a quem Allah quer enganar não acha guia (Ale. XIII: 33).

Reconhecem-se ainda estes personagens favorecidos por Deus por seu procedimento virtuoso, que os caracterizava antes de receberem a revelação; pela sua viva inteligência e pelo cuidado que demonstravam em não cometerem atos condenáveis, e em evitarem toda espécie de desonra. Eis aí um conjunto de qualidades que se designam pelo termo de "Ismat". Dir-se-ia que todo profeta é dotado, por natureza, de uma aversão às coisas repreensíveis e de uma viva atenção para evitá-las. Pode-se mesmo afirmar que as coisas condenáveis repugnam à natureza dos profetas.