Excertos da tradução de José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury, IBF, 1958
SEXTO DISCURSO PRELIMINAR — TRATANDO DOS HOMENS QUE, SEJA POR DISPOSIÇÃO INATA, SEJA POR TREINO OU DISCIPLINA, CHEGAM A PERCEBER O MUNDO INVISÍVEL; COM OBSERVAÇÕES PRELIMINARES SOBRE A NATUREZA DA REVELAÇÃO
O PROFETISMO (cont.)
Façamos observar que a primeira maneira de comunicar uma mensagem divina e que consiste em um murmúrio, é empregada somente para com personagens da posição de profeta, sem incumbência de funções de apóstolo. É um princípio considerado como fundamental.
A segunda maneira, em que um anjo se apresenta sob a forma de um homem que fala, convém à posição dos que são ao mesmo tempo profetas e apóstolos, sendo, por conseguinte, mais perfeita do que a primeira. A ideia que aqui apresentamos acha-se na narração em que nosso Profeta deu explicações a Al-Harith Ibn Hicham. Quando este perguntou como a revelação chegava até ele, Muhammad respondeu: Vem a mim, às vezes, como um murmúrio ou como o barulho de um sino: o que me causa grande cansaço; e quando ela me deixa, eu guardo na memória o que me disse. Outras vezes, o anjo toma a forma de u*m homem que vem falar comigo; neste caso, eu guardo o que ele me disse. A primeira maneira parecia-lhe muito cansativa, porque, neste contato com o mundo espiritual, era pela primeira vez que a potência nele passava para o ato. É o motivo por que sentiu certa opressão, e porque, quando voltou para o domínio da humanidade, não recebeu as comunicações divinas senão por via auditiva e oral, já que a primeira maneira lhe causava grandes sofrimentos. Quando se recebem revelações por mais de uma vez, suporta-se com maior facilidade o contato do mundo espiritual, e voltando sobre o terreno da natureza humana, conserva-se a lembrança de todas as comunicações recebidas, sobretudo da parte mais clara delas, isto é, daquilo que se viu.
Na explicação dada pelo profeta, observa-se um grande subtileza de expressão. Para o primeiro caso, ele emprega o verbo "guardar", dando-lhe, a forma do pretérito "uaáit"; no outro, repete o mesmo verbo sob a forma do presente "aí".
Querendo figurar por meio da palavra as duas maneiras de receber a revelação, compara a primeira a um murmúrio, o que é muito diferente de um discurso, como todos sabem. Acrescenta que o ato de compreender a revelação e de confiá-la à memória tinha lugar depois de cessar este barulho. Para marcar seu término e cessação, emprega o pretérito do verbo, o que faz com razão, pois que é esta a forma que se exige para marcar o que passou. Descrevendo o segundo modo, o profeta nos representa o anjo sob a forma de um homem que fala; à medida que ouvia seu discurso, o aprendia de cor, empregando muito acertadamente o verbo no presente, forma que indica que a ação pode continuar.
Qualquer que seja a maneira de um profeta receber a revelação, experimenta ele uma sensação de dor e de opressão, fato que Allah reconhece por estas palavras do Alcorão: "Vamos dirigir-te uma palavra opressiva". (Ale. LXXIII:5). Conta-nos Aicha que um cansaço extremo era um dos sofrimentos que acometiam Muhammad quando recebia uma revelação; disse mais: "Uma revelação baixou sobre ele um dia em que fazia muito frio; quando a revelação terminou, a sua fronte estava banhada de suor". A mesma causa deve-se atribuir o que sabemos do alheamento de espírito que se notava nele e dos gemidos que soltava enquanto permanecia este estado. Explica-se o fenômeno lembrando um princípio já por nós estabelecido, a saber, que durante a revelação, a alma do profeta se subtrai da natureza humana para se elevar até ao domínio angelical, onde escuta a palavra da alma (universal). Ora, um sentimento de dor deve-se produzir todas as vezes que uma essência abandona seu estado essencial e o deixa para sair de sua esfera e elevar-se até uma outra superior. É o que significa a sufocação que descreveu Muhammad, falando da primeira época da revelação. "Ele me sufocou, disse, ao ponto que não aguentei mais a dor, e depois, deixando-me, disse: Anuncia! Lê! — Não sei ler! respondi". Aconteceu isso por três vezes, como refere a tradição. Sofrendo uma opressão, gradativamente acostuma-se ao sofrimento, de modo que a dor pareça leve, comparada ao que era primeiro.. Isto vem explicar também por que os passos do Alcorão, tanto as Surat como os versículos, que foram revelados ao profeta quando ainda na Meca, eram mais curtos que os recebidos mais tarde em Medina.
Veja-se, por exemplo, o que se conta sobre a maneira como foi revelada a Surat "Bara'at" ou "Imunidade" (S: IX) durante a expedição de Tabuk1 . Recebeu-a o Profeta em grande parte ou na totalidade, quando viajava montado na sua camela. Antes disso e quando ainda em MeCa, não recebia senão comunicações breves, compostas de algumas Surat curtas (incluídas agora no Al Mufassai)2 e que lhe eram comunicadas parceladamente e por fragmentos, recebendo hoje um, outro mais tarde e, ainda depois, outro. O último versículo que recebeu em Medina, chamado "Ad-Din" (ou A Religião)3 é de um comprimento considerável. Antes desta época, recebia na Meca versículos (muito breves) como os que compõem as seguintes Surat: o Misericordioso{FOOTNOTE}. Al-Dariat, Al Mudathir, a Manhã, O Coágulo, etc. Temos neste fato um meio de distinguirmos quais as Surat e os versículos que foram revelados em Meca e quais os que o foram em Medina. É Allah quem dirige para a verdade.
Termina aqui o sumário de nosso estudo sobre o profetismo.
NOTAS: