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id da página: 8727 IBN ARABI – ENGASTES DE SABEDORIA – NO VERBO DE MOISÉS Ibn Arabi

Ibn Arabi Fusus Moyses


VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS; MOISÉS; VIDA DE MOISÉS

A SABEDORIA DA EMINÊNCIA NO VERBO DE MOISÉS


DA SABEDORIA SUBLIME (AL-HIKMAT AL-ULUWIYAH) NO VERBO DE MOISÉS

Este é um capítulo muito complexo que trata de muitos assuntos. Certos temas importantes, no entanto, merecem nota especial. O primeiro deles é a relação, tratada ao longo do capítulo, entre Moisés e Faraó. O segundo é a relação igualmente interessante entre Moisés e al-Khidr. Por fim, ele trata novamente de vários aspectos do desejo divino de criar o Cosmo em um movimento de amor, da necessidade da efemeridade cósmica para a totalidade da Realidade, e da perplexidade espiritual experimentada pelo gnóstico que tenta apreender o paradoxo da polaridade divina na Unidade.

No Corão, Faraó é o arquétipo do homem descrente, arrogante, injusto e autodeificante, o exemplo supremo do homem que, conhecendo a verdade da Unidade divina em seu coração, suprime deliberadamente essa verdade para arrogar a si mesmo os direitos e poderes que são propriamente de Deus. Ele representa, portanto, o abuso final da função vice-regencial do homem ao procurar governar em seu próprio nome e ignorar a Lei do Céu. Essa arrogância é resumida em duas palavras no Corão, kufr e zulm, a primeira significando a ignorância ou o ocultamento deliberado da verdade para os próprios fins, a segunda sendo aquela opressão arbitrária e injustiça que é a marca de todo tirano. Em suma, Faraó é a corporificação ou a personificação do poder nu sem princípio. Correspondentemente, Moisés, na situação descrita no Corão, representa o compromisso humano e a conformidade com a Lei divina, mas sem o poder pessoal para a impor. Assim, enquanto Moisés tem nível e autoridade espirituais, Faraó tem nível e autoridade reais neste mundo, ilustrando, mais uma vez, a tensão paradoxal entre o Desejo divino, simbolizado por Moisés, e a Vontade divina, simbolizada por Faraó. Em outras palavras, Ibn Arabi está sugerindo que, apesar da aparente impiedade de Faraó, a atualidade de seu poder não pode ser outra senão uma realização particular, no contexto humano, do poder como uma função da Vontade divina de criar, sendo a implicação que, interiormente, Faraó conhece a verdade divina, mas à força cumpre sua função cósmica de acordo com sua própria predisposição in divinis, mesmo que essa função pareça inteiramente repreensível do ponto de vista do Desejo divino conforme exposto por Moisés. Assim, o diálogo entre Moisés e Faraó, que na superfície parece ser um confronto simples entre o certo e o errado, o bem e o mal, é na verdade um ato no drama eternamente sendo encenado entre os princípios polares da Vontade criativa e do Desejo espiritual de Deus. A realidade interior da fé de Faraó é reafirmada no ponto de sua morte.

No caso da relação entre Moisés e al-Khidr, que é o nome tradicionalmente atribuído à pessoa anônima que Moisés encontra no Corão, tem-se antes uma ilustração da tensão perene entre a Lei Sagrada, representada por Moisés e expressando o Desejo divino, e o conhecimento místico ou esotérico da gnose que percebe não apenas a necessidade e a validade daquela Lei, mas também a validade e a necessidade inescapáveis daqueles aspectos do devir cósmico que escapam à Lei, assim como a síntese de ambos na Unidade do Ser. Moisés, como expoente da Palavra revelada como Lei, não consegue entender, ou parece não entender, nem o escopo e a relevância da Vontade divina, nem a Unidade fundamental na qual o conflito Espírito-mundo é resolvido. Al-Khidr, por outro lado, embora percebendo essa falha por parte de Moisés, respeita, no entanto, seu nível espiritual como profeta, reconhecendo também a inevitabilidade de seu viés aparente como sendo necessário à tensão entre os polos da Realidade divina. Em outras palavras, há certas coisas reveladas pela gnose interiormente, das quais o profeta e o apóstolo, como no caso de Noé (Cap. 3), não podem dar conta exteriormente como representante do polo espiritual, estando comprometido por sua função com a rejeição de tudo, ainda que atualizado pela Vontade divina, que não se conforme ao Desejo divino.

Como já foi mencionado antes, Ibn Arabi vê o movimento de saída da criação como sendo impulsionado pelo Amor (mahabbah), ou seja, o Amor divino, o anseio, ou o desejo de Se conhecer a Si mesmo, de Se amar a Si mesmo e, em última análise, de Se unir a Si mesmo na consumação da Realidade. Como também foi mencionado, esse movimento amoroso em direção ao autoconhecimento pela criação de Seu reflexo cósmico implica a necessidade inescapável do que é chamado o "efêmero" como um elemento essencial na aquisição desse auto-reconhecimento, como sendo aquela formulação cósmica necessária, como objeto, do que Ele é em Si mesmo, latente e essencialmente. Essa polaridade de, por um lado, o Cosmo essencialmente implícito na Divindade e, por outro, Deus espiritualmente implícito nas formas cósmicas, com todas as tensões e conflitos aparentemente irreconciliáveis inerentes a tal polaridade, apresenta ao intelecto humano um dilema terrível que só pode ser resolvido pela maior realização de todas, que é adquirir a visão e a experiência da Unidade do Ser. A consciência daquela reciprocidade polar de Deus-Cosmo, Desejo-Vontade, Espírito-Natureza, lança o aspirante em um estado de perplexidade avassaladora (hairah) no qual ele só pode se afogar para si mesmo, abandonando todas as certezas parciais e afundando no oceano de realidades divinas, aniquilando-se assim, apenas para subsistir n'Ele. Para um tal, não há "nós" e "Ele", nem dualidade nem tensão, mas apenas nós n'Ele em nós n'Ela em uma experiência inefável de Unidade.