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id da página: 4539 Jean Biès

Jean Biès

DISCÍPULOS DE GUÉNON — Jean Biès
Pensador francês, nascido em 1933, que após descobrir o ensinamento de René Guénon adotou como eixo de suas investigações a Tradição. Escreveu estudos sobre René Daumal, sobre a Philokalia, e especialmente sobre a tradição cristã.

Patrick Laude, Prefácio de BIÈS, Jean. Returning to the Essential: Selected Writings of Jean Bies. 1st ed ed. Lanham: World Wisdom, Incorporated, 2004.

A produção literária de Jean Biès é, segundo suas próprias indicações, tríplice. Há, antes de tudo, um aspecto doutrinal e especulativo que consiste em uma série de ensaios nos quais Biès, à semelhança de outros autores perenialistas, busca transmitir princípios tradicionais ao mesmo tempo em que introduz o leitor contemporâneo ao tesouro dos ensinamentos metafísicos, esotéricos e espirituais e das fontes sagradas. Este segmento da obra de Biès divide-se, por sua vez, entre estudos acadêmicos dedicados a determinadas figuras ou movimentos, como Empédocle d’Agrigente—Essai sur la philosophie présocratique (1969) e Littérature française et pensée hindoue: Des origines à 1950 (1973), e obras de exposição de princípios tradicionais como resposta à crise espiritual do homem moderno, entre as quais devem ser mencionadas Passeports pour des temps nouveaux (1982), Retour à l’Essentiel: Quelle spiritualité pour l’homme d’aujourd’hui? (1986) e Sagesses de la Terre: Pour une écologie spirituelle (1997).

O segundo grupo é composto por obras de caráter mais “experimental”, que podem assumir a forma de relatos de viagem, memórias e testemunhos pessoais. A primeira obra a ser mencionada nesta categoria é Athos: la Montagne transfigurée (1997), um relato místico e poético da viagem de Biès ao Monte Athos, pleno da luz límpida do sol mediterrâneo, reflexo terreno da glória do Cristo bizantino. Segue-se La Porte de l’appartement des femmes (1991), um livro mais pessoal, mas, em certo sentido, não menos universal, dedicado à presença e influência espirituais das mulheres na vida do autor — uma espécie de celebração autobiográfica do Eterno Feminino, que evidencia a função das mulheres como manifestações da energia criadora. Por fim, encontra-se, em minha opinião, a mais bela e talvez a mais rica das obras de Biès, Les Chemins de la ferveur: Voyage en Inde (1995). Este livro destaca os tesouros espirituais da Índia tal como o autor os encontrou ao longo de seu itinerário por Vrindavan, Madurai, Tiruvannamalai e Benares. É o resultado literário de uma autêntica viagem espiritual, fruto delicioso e substancial de um raro encontro entre a profunda familiaridade do autor com a metafísica indiana e sua aguçada capacidade de perceber o essencial nas experiências mais cotidianas. O conhecimento doutrinal de Biès sobre a Índia ganha vida por meio de seu encontro estético e espiritual com a terra maternal de Bharata, o que levou Jean Herbert, um dos principais especialistas europeus em espiritualidade indiana, a afirmar: “[Les Chemins de la ferveur] é a melhor obra sobre a Índia que conheço.”

O terceiro grupo da obra de Biès é talvez o menos conhecido, mas é o mais essencial ao próprio autor. Jean Biès é, antes de tudo, um poeta: considera a poesia o setor mais essencial da literatura, por ser a própria essência da linguagem. Nas palavras do próprio Biès, “a poesia é certamente o último reduto do sagrado.” Embora os verdadeiros poetas raramente sejam reconhecidos como tais em nossos dias, a poesia de Biès não passou despercebida àqueles que têm ouvido para a lira e coração para a verdade. Recebeu o prestigioso Grande Prêmio da Sociedade de Poetas Franceses em 1970 e foi saudado pelo filósofo católico Jean Borella como “um dos grandes e mais autênticos poetas de nosso tempo.” Como poeta, Jean Biès distancia-se de duas das características mais predominantes da poesia contemporânea: a rejeição das formas rítmicas e harmônicas e o cultivo do ego. Estas duas tendências compartilham, na verdade, o mesmo erro; pecam por presunção egocêntrica e por falta de sensibilidade à mensagem normativa da natureza e do verdadeiro Si. O respeito às imposições formais constitui, na poesia, uma espécie de “reconstituição métrica do Si”, para empregar a feliz expressão de Biès. Faz, portanto, parte integrante do trabalho espiritual a que ela conclama. Ademais, o modo de operação da poesia assemelha-se ao da “magia”, entendida aqui em seu sentido mais amplo, como uma transformação por meio das formas; e isto basta para afirmar que as palavras devem ser talhadas e reunidas de modo a obedecer a uma música invocativa, sugestiva ou evocativa, que é o segredo de sua capacidade de tocar o coração. Embora alguns dos melhores poemas de Biès sejam pessoais no mais elevado sentido, exprimindo as vibrações da alma em contato com os mistérios da natureza, do erotismo e, sobretudo, da presença divina, Biès é demasiado tradicional para conceber a poesia como uma espécie de cultivo amoroso das próprias idiossincrasias; muito longe disso: considera simplesmente sua obra poética como uma tentativa humilde de “versificar a philosophia perennis.”


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