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id da página: 4662 Peter Kingsley – Realidade – Resumo da Parte IX Peter Kingsley

Kingsley Realidade 9

Peter KingsleyRealidade – Resumo da Parte IX


KINGSLEY, Peter. Reality. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 2008

  1. A Necessidade de Revelar Mistérios Ocultos e o Paradoxo da Crença

    • A dificuldade inerente de discorrer abertamente sobre mistérios após um longo período de ocultação, contrastando com a aparente sensatez do silêncio.
    • O reconhecimento de que o propósito do segredo foi cumprido e de que chegou o momento de trazer à luz o que estava escondido.
    • A admissão da aparente falta de razão para o leitor acreditar na interpretação do autor sobre o Amor e a Discórdia de Empédocles, em oposição à tradição intelectual consolidada.
    • A constatação de que a probabilidade estatística de o autor estar correto contra o consenso de inúmeros pensadores inteligentes é insignificante e absurda.
  2. A Autoridade da Tradição Interpretativa e a Emergência do Princípio da Inversão

    • A figura de Aristóteles como o expoente máximo da inteligência humana e sua atitude complexa e críptica em relação a Empédocles.
    • A síntese magistral de Aristóteles, que afirma: "Quem segue Empédocles e o compreende não com base em seu balbucio inarticulado, mas no que ele realmente quer dizer, descobrirá que o Amor é a causa do bem, enquanto a Discórdia é a causa do mal".
    • A figura de Plutarco, um homem enormemente erudito e autoridade religiosa, e sua convicção simples e inequívoca de que "o Amor é o nome que Empédocles dá ao poder responsável por fazer o bem" e "a Discórdia é o seu princípio do mal".
    • A limitação de Plutarco, que só conseguia resolver os mistérios que ele mesmo criava, sendo incapaz de reconhecer um mistério genuíno.
    • A introdução do mistério da inversão, um princípio esotérico bem conhecido pelos gnósticos antigos, segundo o qual a verdade deve ser sempre afirmada através do seu oposto.
    • A explicitação do princípio pelo Papa e São Gregório Magno: "Aprovar algo exteriormente significa, na linguagem do mistério, opor-se a isso. E referir-se a certas ações em termos negativos é, misticamente falando, incentivá-las".
    • A conclusão de que impor tal princípio a Empédocles é desnecessário, pois ele já se encontra no cerne do seu ensino.
  3. O Engano da Linguagem Poética e a Natureza Ilusória da Existência Comum

    • A nossa resposta à poesia de Empédocles como um reflexo perfeito da nossa atitude perante a vida e o grau em que somos enganados por ambos.
    • A descrição do Amor como gentil e bondoso, e da Discórdia como má, ruinosa, odiosa e abominável, causadora da morte miserável e infeliz.
    • A analogia entre a compreensão superficial do ensino de Empédocles e a passagem por um dia rotineiro, até a súbita realização de que algo está terrivelmente errado.
    • O aviso de Empédocles através do seu horrível retrato da condição humana, onde as pessoas vivem sem um fragmento de metis (inteligência genuína).
    • A afirmação perturbadora de Empédocles de que as pessoas em geral "durante as suas vidas veem uma parte tão pequena da vida", sugerindo a pluralidade de existências e uma distância conceptual de vida.
    • O enigma profético sobre a existência e a não existência, onde Empédocles sussurra com clareza: "Não se deixem enganar. O que vocês pensam como vida não é realmente vida".
    • A revelação sobre a morte: "Para todos os seres mortais, não existe tal coisa como o nascimento. Também não há qualquer fim para eles na morte odiosa e destrutiva. Não há nada além da mistura, seguida do rearranjo das coisas que foram misturadas: 'nascimento' é apenas o nome aplicado a esses eventos pelos humanos".
    • A estratégia de Empédocles de criar uma confusão tremenda através de um duplo discurso, afirmando coisas apenas para sussurrar o exato oposto, plantando assim as sementes da Discórdia no nosso ser interior para nos despertar.
  4. A Infiltração Consciente nas Convenções Linguísticas Humanas como Estratégia de Comunicação

    • A explicação franca de Empédocles sobre o seu comportamento contraditório, ao descrever o processo de nomeação humana da geração e da morte.
    • A constatação de que os nomes que inventamos são enganadores e impõem limitações impossíveis à realidade, mas que, para os humanos, "o que dizem é, para eles, bastante certo".
    • A decisão formal e extraordinária de Empédocles: "E eu próprio me conformo com a sua convenção".
    • A infiltração de Empédocles na nossa existência ilusória, sabotando-a a partir de dentro, ao construir uma ponte entre a sua consciência e a consciência humana normal.
    • A conclusão perturbadora de que, ao adotar conscientemente a nossa linguagem enganadora, quando Empédocles nos fala, "não é ele que está a falar. Somos nós".
    • A constatação de que não possuímos o ensino genuíno de Empédocles, mas apenas o manto que ele usou para se disfarçar, pois ele, como feiticeiro e mudador de formas, desapareceu na convenção.
  5. O Princípio Operativo Fundamental do Ensino: O Mistério do Reflexo

    • A sensação de confusão como uma ilusão, pois uma lógica simples está em ação: o mistério do reflexo.
    • A explicação de que Empédocles não usa técnicas esotéricas complexas, mas simplesmente segura um espelho para o leitor, e a reflexão faz o resto.
    • A natureza irresistível do reflexo, que nos faz adormecer ao vermos a nossa própria imagem e a nossa existência familiar, apesar de todos os avisos explícitos de Empédocles.
    • A nossa falta de objetividade e de mentes próprias, sendo todos nós brinquedos de Afrodite, completamente inconscientes do seu feitiço.
    • A natureza paradoxal de Empédocles como um modelo de não engano que, no entanto, engana toda a gente, sendo perfeitamente honesto e deixando que nós próprios nos enganemos.
    • A percepção de que o ensino de Empédocles é um modelo funcional do cosmos, uma armadilha em miniatura que reflete a armadilha universal.
    • A finalidade central do seu ensino não é dar informações, mas testar-nos e descobrir de que substância somos feitos.
    • A conclusão de que o dom mais precioso que ele pode oferecer é a nós mesmos, se conseguirmos ver como fomos enganados por ele e por tudo, embora a maioria prefira ficar com migalhas de informação.
  6. A Confiança na Discórdia como Única Saída na Era Crescente do Conflito

    • A necessidade da qualidade da metis (astúcia, alerta) para embarcar no perigo de confiar na Discórdia louca.
    • A justificação para esta confiança: vivemos numa era de Discórdia crescente, e a energia do conflito está a espalhar-se pelo cosmos, destruindo as nossas ilusões, quer queiramos quer não.
    • A única escolha que nos é deixada: seguir a Discórdia inconscientemente, manifestando-se como violência e destruição, ou segui-la com uma cooperação consciente, canalizando a sua energia para destruir as nossas próprias ilusões e apegos.
    • A ambiguidade radical da Discórdia, que pode destruir-nos ou salvar-nos, e a sutileza necessária para a seguir, onde o que parece mau pode ser o maior bem.
    • A sutileza de Empédocles em formular a sua mensagem: ele anuncia abertamente que confia na Discórdia, mas fá-lo de uma forma sistematicamente mal compreendida e invertida, protegendo assim o seu significado real.
    • A magia da sua ambiguidade inequívoca, que só é possível para alguém familiarizado com as fronteiras da consciência onde o mundo ilusório confina com a realidade.
    • O círculo mágico completo: a metis é necessária para reconhecer o caminho, para o percorrer e para entender o que Empédocles está a dizer, ocultando-o assim daqueles que a não possuem.
  7. A Ambiguidade Radical da Loucura e o seu Poder Purificador e Iniciático

    • A dificuldade em aceitar que um filósofo respeitável confie na Discórdia "louca", um equívoco partilhado por Plotino.
    • A necessidade de começar onde o pensamento de Plotino termina, recordando a doutrina de Platão sobre os dois tipos básicos de loucura: a patológica e a divina.
    • A loucura divina, tal como a Discórdia, é ambígua, capaz de arrastar as pessoas para a insanidade ou de as purificar, libertando-as de impurezas antigas.
    • O relato de um autor médico sobre os dois tipos de loucura em Empédocles: uma causada pela "purificação da alma" e outra resultante do "desequilíbrio mental e com uma causa física".
    • A lógica subjacente: ambos os tipos são obra da Discórdia, que tanto pode perturbar o equilíbrio mental como libertar a alma da sua contaminação.
    • A compreensão de que "confiar na Discórdia louca" é abraçar esta força ambivalente que pode desmembrar-nos ou purificar-nos.
    • A ligação às tradições xamânicas, onde o desmembramento é uma forma de iniciação, de morrer ainda em vida, e a loucura controlada pode curar e dar acesso a outro mundo.
    • A natureza perigosa e além da razão da loucura, que não pode ser racionalizada ou controlada pela mente pensante, exigindo uma confiança e um sentido de direção que só vêm da alma.
    • A definição da loucura como o que traz a libertação de todas as nossas pequenas sanidades e dá aos feiticeiros a liberdade para fazer o impossível, chamando-nos para casa.
  8. A Transmissão Viva do Ensino como Caminho a Ser Vivido nas Tradições Espirituais

    • A diferença entre os dois tipos de loucura: uma que nunca encontra o que procura e outra que encontra.
    • O aparente beco sem saída da interpretação razoável de Plotino, contrastando com o ressurgimento do significado original na tradução árabe dos seus escritos.
    • O retrato gráfico de Empédocles no texto árabe: "Quando ele desceu a este mundo, veio como uma ajuda para aquelas almas cujas mentes foram contaminadas e misturadas. E ele tornou-se como um louco — gritando às pessoas no topo da sua voz e exortando-as a rejeitar este mundo e o que há nele e a voltar ao seu próprio reino original, sublime e nobre".
    • O uso do termo "ajuda" num sentido técnico, referindo-se ao grande profeta ou guia espiritual que vem como mensageiro em cada era.
    • A sobrevivência da compreensão de Empédocles como um professor espiritual vivo no mundo islâmico e persa, com relatos de "grupos de Empédocles" e círculos esotéricos que o tomavam como guia supremo.
    • A conclusão fundamental de que o ensino de Empédocles, como o de Parmênides, era algo que tinha de ser vivido porque tinha o poder de mudar a vida de uma pessoa.
    • A crítica à erudição ocidental que, ao analisar pacientemente os detalhes, perdeu a essência e não vê que estes ensinamentos antigos eram reais e não podem ser compreendidos a menos que se esteja preparado para vivê-los.
  9. A Magia Prática do Uso Consciente do Amor e da Discórdia para a Libertação

    • A impossibilidade de determinações fixas sobre o bem e o mal ao enfrentar a loucura, superando as certezas aparentes sobre o Amor e a Discórdia.
    • A estratégia do mago: em vez de tentar escapar, estudar os hábitos e técnicas do captor (o Amor) e voltar o que foi aprendido a seu favor.
    • A necessidade de usar o Amor, tal como a Discórdia, para evitar ser usado por ele.
    • A base do ensino na dualidade amor-hostilidade, atração-rejeição, união-separação, como os princípios fundamentais da magia grega.
    • O objetivo de quebrar todos os laços e voar para a liberdade da loucura total, apenas para, subsequentemente, trazer esse conhecimento de volta para o mundo frágil das ilusões.
    • O paralelo com o xamã: a iniciação pelo desmembramento é um prelúdio para a reconstituição do corpo, para poder funcionar novamente no mundo dos vivos.
    • A maestria de Empédocles tanto no desequilíbrio como no equilíbrio, no extraordinário e no mundano, como um curador do corpo.
    • A capacidade de controlar a loucura e a sanidade, adaptando-se a diferentes formas de normalidade, vivendo em dois mundos sem ser limitado por nenhum.
    • O estágio final de voltar ao engano de Afrodite, mas com o segredo de ver o mundo como uma ilusão e, no entanto, funcionar nele como se fosse real, enganando em vez de ser enganado.
  10. A Adaptação ao Mundo Ilusório de Afrodite e a Linguagem da Decepção Necessária

    • A aceitação do mundo ilusório de Afrodite como uma parte inseparável da realidade, sem reprovações infantis.
    • A questão central de como melhor se adaptar aos seus truques e usá-los plenamente.
    • O exemplo supremo de adaptação: o ensino poético de Empédocles, que descreve em pormenor a criação enganadora de Afrodite, conformando-se com a ilusão.
    • O esforço máximo para falar em termos que os humanos enganados possam entender, adotando o ponto de vista mortal e usando uma linguagem normal e aceitável.
    • O paradoxo final: para nos desenganar, ele tem de nos enganar, porque esse é o único modo de funcionar eficazmente no mundo enganador do Amor.
    • A agilidade de Empédocles em deslizar para dentro e para fora da identificação com a condição humana, ora falando como um mortal, ora com a objetividade distante de alguém interiormente destacado.
    • A estratégia de apontar, através de sugestões, para outra vida, outra inteligência e outra realidade além da que conhecemos, sem poder dizê-lo abertamente.
    • A ironia fundamental de que os nossos valores e palavras são opostos à realidade: o que chamamos de amor não é o amor real, tal como a nossa vida não é a vida real, um segredo que a maioria nunca conhece.
  11. O Eixo Central do Ensino: A Metis como Princípio de Navegação num Universo de Ilusão

    • A aparente crudeza do dualismo Amor versus Discórdia como um reflexo da nossa própria crudeza, projetada pelo espelho mágico do ensino.
    • A percepção gradual de que o ensino é um truque dentro de um truque, levando-nos para além de qualquer identificação fixa do bem e do mal.
    • A descoberta de que tudo se reduz à necessidade de discernir, em cada instante, o que é bom ou mau para aquele momento particular.
    • O único fator que permite este discernimento: a metis, a consciência afiada e a sensibilidade totalmente focada no momento presente.
    • A identificação da metis como o eixo real em torno do qual o ensino de Empédocles gira, e não a polaridade do Amor e da Discórdia.
    • A centralidade da metis também no ensino de Parmênides, unindo-os numa compreensão partilhada das artes do engano necessárias para a libertação.
    • A crítica à categorização superficial iniciada por Aristóteles, que rotulou Parmênides como "Monista" e Empédocles como "Pluralista", ignorando a natureza orgânica, viva e ilusória dos seus ensinamentos.
    • A natureza de Empédocles como um feiticeiro e trickster, cuja loja aparentemente vende produtos comuns, mas que, no seu interior, oferece coisas infinitamente mais preciosas àqueles que estão preparados para acreditar no que veem e agir no momento certo.
    • A adaptabilidade do ensino, que fornece a cada um o que sente precisar, desde os que procuram algo para analisar até aos que desejam algo para viver, incentivando sempre a tornar-se um bom ser humano como passo fundamental.
  12. A Afirmação da Não Decepção como o Ápice da Estratégia Retórica do Engano

    • A afirmação urgente de Empédocles a Pausânias: "ouve a ordem não enganadora das minhas palavras", um claro contraste com a declaração da deusa de Parmênides sobre a "ordem enganadora das minhas palavras".
    • A interpretação histórica ingénua que vê neste contraste um ataque direto de Empédocles a Parmênides, simbolizando o seu otimismo em relação ao mundo.
    • A complexidade da declaração da deusa de Parmênides, que, ao admitir honestamente que vai enganar, inverte a estratégia de todo o trickster comum.
    • O contexto da afirmação de Empédocles: ele acaba de invocar o poder mágico mais potente e perigoso, Afrodite, a rainha do engano, tornando a sua garantia de não engano uma linha ténue através de um mundo de ilusão.
    • A conclusão de que a única maneira de Empédocles nos levar para fora do labirinto de decepções de Afrodite é enganando-nos para lá da crença.
    • A exposição da artimanha retórica quintessencial, exemplificada por Hermes: "Direi a verdade, com certeza. Pois sou infalivelmente veraz e não tenho noção de como mentir".
    • A constatação de que Empédocles não está a mentir ao dizer que não está a enganar, pois ele avisa-nos claramente que vai enganar; se ignorarmos os avisos, a culpa é nossa.
    • A verdade mais profunda: não é Empédocles que nos engana, nem somos nós que nos enganamos a nós mesmos, pois o "nós" é, em si mesmo, a mais magnífica ilusão de Afrodite.
    • A solidariedade e o humor coordenados entre Empédocles e Parmênides, que sabem que a maior decepção de todas é dizer a verdade e que a maior verdade é enganar, fundindo a honestidade e o engano no que diz respeito a Afrodite e ao seu cosmos.