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id da página: 31 Lallement – João da Cruz – Ensinamento

Lallement Juan de la Cruz Ensinamento

Lallement Juan de la Cruz – A Via do Espírito – Contemplação

LALLEMENT, Louis. La Voie de l’esprit. Paris: Albin Michel, 1982

  • Os fundamentos doutrinários para o progresso da contemplação em A Subida do Carmo

    • A constatação empírica e a teoria aristotélica da conhecimento, adotada por São Tomás, de que a vida espiritual humana depende da vida corpórea e se alimenta de imagens e conceitos fornecidos pelos sentidos.
    • A advertência de São João da Cruz sobre o assujeitamento habitual do espírito às limitações, apetites e aberrações do que denomina "o sentido", isto é, o conjunto das potências inferiores da alma.
    • A incompatibilidade entre o condicionamento ordinário da vida espiritual, que produz representações inadequadas do sobrenatural, e a aspiração contemplativa de apreensão direta das realidades divinas.
  • A capacidade sobrenatural do espírito humano mediante a graça

    • A possibilidade de elevar-se a uma vida espiritual libertada das servidões do sentido, graças ao adjutório sobrenatural que é a graça, uma modalidade criada da potência divina de luz e de vida.
    • A referência ao estado originário do homem no Gênesis e à promessa de Cristo aos discípulos sobre a comunicação do Espírito.
    • O princípio sanjoanista que corrige a base empírica: "Embora tenha uma potência para o sobrenatural".
  • A questão da extensão da capacidade do espírito e sua implicação para a contemplação

    • A dependência da concepção da perfeita contemplação cristã e do gênero de união a Deus que pode proporcionar em relação à capacidade efetiva do espírito humano, com o auxílio da graça de Cristo.
    • O contraste entre a doutrina cristã comum, que admite a união a Deus pelos processos naturais da espírito apoiados na Revelação, e a visão eminentemente superior de São João da Cruz.
  • A natureza transcendente da contemplação unitiva segundo São João da Cruz

    • A afirmação formal de que a pura contemplação unitiva nada deve às operações de ordem natural, excluindo absolutamente seu emprego e requerendo sua eliminação transitória total.
    • A descrição do espírito como puramente "passivo" na recepção da comunicação divina, pela qual o próprio Deus atualiza sua capacidade de participação na vida divina.
    • O objetivo de promover uma vida espiritual essencialmente sobrenatural, participada de Cristo, que não se apoie em imagens sensíveis ou conceitos intelectuais.
  • A legitimidade do testemunho místico face à teoria teológica

    • A ponderação sobre a possibilidade de atribuir as assertivas de São João da Cruz a uma ilusão psicolológica ou a uma forma de falar sobre uma experiência inefável.
    • A defesa da autoridade doutrinal de São João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja, e a concordância de seu testemunho com o comum dos místicos.
    • A distinção crucial entre a linguagem de um mestre espiritual, que descreve o vivido concreto, e a linguagem dos teólogos de profissão, preocupados com a conceptualização abstrata.
  • O afastamento de São João da Cruz do quadro filosófico tomista

    • A constatação de que São João da Cruz não seguiu a doutrina da escola tomista, apesar do respeito por São Tomás de Aquino, que considerou suas especulações como "palha" comparadas à realidade contemplativa vivida.
    • A adoção, por São João da Cruz, de duas opções características:
      • A possibilidade de uma união direta a Deus gozada na substância da alma, correspondente à "fruição" dos místicos pré-escolásticos.
      • A concepção agostiniana que distingue três faculdades no espírito: inteligência, vontade e memória.
    • A filiação espiritual à escola dionisiana de Mestre Eckhart, Tauler e Ruusbroec, com ascendência nos Padres Gregos e em São Gregório de Nissa.
  • A visão antropológica da linhagem contemplativa: o homem decaído e sua vocação

    • A concepção do homem atual como não sendo "o homem verdadeiro", devido a uma decaída congênita que o incapacita de operar sem o apoio dos sentidos.
    • A crença no estado originário do homem, dotado de uma graça constitutiva que o tornava capaz de uma vida espiritual e de uma união a Deus aparentadas às dos anjos.
    • O objetivo de recobrar tal capacidade em modo cristão, mediante uma plena participação na graça de Cristo, como meta primeira da via contemplativa.
    • A comparação, feita por São João da Cruz, entre o estado edênico e a condição do discípulo purificado, pronto para a iluminação contemplativa.
  • A reinterpretação da vocação humana na perspectiva científica atual

    • A compreensão dos dons do estado originário como as virtualidades inclusas na amostra de uma vida espiritual, que abria o homem à graça e ao sobrenatural.
    • A interpretação do "pecado" e da decaída de Adão como o abortamento desta vocação, consistindo no fato de o homem ter se enredado no sensível, cultivando o "espírito sensível" em detrimento do "espírito puramente espiritual".
    • A consequente atrofia do "sentido da alma", a faculdade de perceber o sobrenatural.
  • O programa da ascese sanjoanista: a purificação integral do espírito

    • A exigência de não apenas libertar o espírito dos distúrbios passionais, mas de afranquiar a vida espiritual de toda dependência dos sentidos, incluindo ideias, imagens e o próprio jogo inveterado dos mecanismos mentais.
    • A necessidade de o espírito desembaraçar-se do comércio do criado, desembaraçar-se de imagens e conceitos, cegar-se, desapropriar-se e desapegar-se radicalmente de tudo o que constitui a vida espiritual comum.
    • O objetivo final: oferecer-se à graça, esvaziado de todo adquirido, renunciando a todas as operações pessoais, em estado de nudez e pobreza total, unicamente ocupado de Deus.
  • A meta da ascese: a assimilação direta das realidades espirituais e a deificação

    • A elevação do "espírito sensível" ao "espírito puramente espiritual", passando de uma vida espiritual nutrida pelos sentidos a uma assimilação direta das realidades puramente espirituais.
    • A capacidade da alma de "voar à altura da fé pura" e a meta de o contemplativo, "sendo homem, caminhar como anjo, e sendo temporal e humano, tornar-se divino e celeste".
    • A alimentação da vida espiritual somente com "o alimento dos anjos", que é a pura luz do Espírito divino, levantando-se "da mesa das criaturas para assentar-se à mesa do Espírito incriado de seu Pai".
    • A condução, pela contemplação, à "deificação" vivida, pela qual a alma torna-se toda semelhante a Deus supernaturalmente, mediante uma "pura transformação" que recebe o Espírito de Deus.
  • As condições para a nova modalidade de operação sobrenatural

    • A exigência de que o espírito seja "semelhante a Deus em pureza", independente de todo condicionamento pelo sensível, para que a vida espiritual permaneça consciente.
    • A necessidade de o espírito ser "tirado para fora de seus limites e de seus gonzos naturais", acedendo a um novo modo de operar, todo sobrenatural, mais divino que humano.
    • A descrição de que, nesse estado, não é propriamente o homem quem age, mas Deus quem opera em sua alma, comunicando-lhe "seu ser sobrenatural", de modo que o homem "é Deus por participação", embora distinto por seu ser natural.
  • A mortificação do espírito e o contexto da graça

    • A purificação prescrita por A Subida do Carmo visa a uma certa morte do espírito, uma "extinção" da vida espiritual anterior, exigindo o abandono do exercício natural das faculdades nos tempos de mais alta graça.
    • A advertência de que este ensino se dirige ao discípulo no qual se manifestaram as primícias da verdadeira contemplação, por meio de secretas unções do Espírito Santo que iniciam a transformação da alma.
    • O objetivo da ascese rigorosa é "fazer lugar a Deus", deixando o campo livre para esta comunicação sobrenatural, para que se possa chegar a conhecer Deus de um modo novo, em modo propriamente divino.
  • A referência à segunda nascença e à doutrina joanina

    • A referência de São João da Cruz ao colóquio de Jesus com Nicodemos para precisar as condições da união contemplativa, evocando a mutação interior que exige a morte do "homem velho" para o nascimento de uma nova vida espiritual.
    • A aplicação à segunda nascença obtida por contemplação das palavras do prólogo de São João sobre os que "não nasceram do sangue, nem do querer da carne nem do querer do homem, mas de Deus".
    • A definição da verdadeira contemplação como consistindo puramente em "receber", sendo uma comunicação de Deus à alma, que exige que "tudo o que vive na alma deve morrer" para fazer lugar à nova vida espiritual.
  • A purificação pela graça contemplativa e as noites ativa e passiva

    • O princípio de que a purificação necessária opera-se essencialmente pelo efeito da graça que atua a favor da própria contemplação, tanto para a purificação radical do espírito quanto para a do "sentido".
    • A distinção entre a noite "ativa", produzida pela mortificação voluntária, que gera um obscurecimento purificador, e a noite "passiva", resultante de uma intervenção sobrenatural que produz o desnudamento espiritual completo.
    • A distinção capital entre a noite do sentido e a noite do espírito, cada uma com sua modalidade ativa e passiva.
  • A complementaridade entre A Subida do Carmo e A Noite Escura

    • A repartição do ensino sobre as noites contemplativas entre os dois obras, que comentam de pontos de vista complementares o mesmo poema simbólico da evasão na noite.
    • O foco de A Subida do Carmo nas disposições e na ascese a praticar, e o de A Noite Escura na ação secreta da graça que torna o espírito capaz de assimilar a pura luz divina.
    • A advertência de que as prescrições ascéticas de A Subida do Carmo só tomam seu verdadeiro sentido em referência ao contexto sobrenatural descrito em A Noite Escura, pois "a Deus pertence por à alma nesse estado sobrenatural", cabendo a ela dispor-se com os meios naturais e a ajuda divina.
  • A receptividade à graça e o governo da vontade

    • A exigência de uma receptividade integral à ação sobrenatural, que vai além da adesão intelectual, requerendo aceitar ser conduzido para fora das vias comuns sem o apoio dos recursos naturais do espírito.
    • A aquisição da disponibilidade e da docilidade necessárias para seguir as moções divinas, mobilizando todas as potências e apetites da alma para uma adesão vivida à graça que a encaminha para a união com Deus.
    • A essência da ascese requerida: a purificação correspondente da vontade, subtraindo-a aos entraînamentos das paixões e apetites, para que seja livre para acordar-se às moções da graça e estabelecer uma "união de vontade" permanente com Deus.
  • O amor como fator eficiente e dinâmico da via contemplativa

    • A concepção de que é o amor, e não a inteligência, o fator eficiente, o dinamismo motor da empresa contemplativa, entendido como um amor de essência espiritual, fundamentado no apetite inato do homem pelo Absoluto.
    • A iluminação deste apetite pela fé e a provisão da força sobrenatural requerida pela graça de Cristo, devendo este amor revestir um caráter exclusivo e de pureza correspondente à exigida para a fé.
    • A identificação deste amor espiritual com a caridade teologal, que confere eficiência real a tudo o que a alma faz para progredir na via contemplativa.
    • A atribuição à caridade do poder de unir vitalmente o homem a Deus e de proporcionar uma certa apreensão direta de Deus, enquanto a fé o faz conhecer apenas através das formulações humanas da Revelação.
  • A gênese do verdadeiro conhecimento sobrenatural no contexto do amor

    • O ensino de que as verdadeiras cognições sobrenaturais sobre Deus, nascidas na contemplação, só surgem no contexto de um tal amor.
    • A descrição de comunicações sobrenaturais de ordem superior, que proporcionam a inteligência de "verdades nuas" concernentes a Deus mesmo, uma cognição direta e inexprimível humanamente.
    • A especificação de que tais comunicações só podem ocorrer a favor de uma união a Deus perfeitamente realizada pela virtude do amor, exigindo o desapego de todas as outras percepções sobrenaturais.
  • A natureza experimental do conhecimento de Deus na contemplação unitiva

    • A precisão de que na pura contemplação unitiva, "o próprio Deus é Aquele que se sente e se saboreia", mas não por uma apreensão clara e distinta do entendimento.
    • A explicação de que se trata do efeito de uma "toque" divino que penetra a substância da alma, fazendo experimentar a sabor inefável de uma comunhão com o Ser divino e gerando no espírito uma certa cognição de Deus.
    • A menção aos efeitos progressivos destas "toques" divinas em estados de união imperfeita, renovando a alma, infundindo virtudes e tornando-a forte para as provações.
  • O escopo e os limites de A Subida do Carmo como iniciação contemplativa

    • A constatação de que a obra publicada para muito aquém da parte prevista para tratar das modalidades e frutos da contemplação.
    • A suficiência do obra como iniciação, fornecendo princípios e diretrizes concretas para a ascese de purificação do sentido e do espírito.
    • A localização do ensino sobre a purificação ativa do sentido nas prescrições da ascese cristã comum e no diretório prático do capítulo 13 do Livro Primeiro.
    • O foco do Livro II e III na purificação ativa do espírito, com regras para estabelecer-se e manter-se na fé pura, desapegando e esvaziando o espírito de tudo o que não é Deus.
  • As disposições pessoais fundamentais para o progresso contemplativo

    • A especificação de que as consignas de passividade e denudamento do espírito só são válidas para quem manifesta os três sinais iniciais da contemplação e apenas nos tempos de influxo sobrenatural.
    • A identificação das disposições requeridas não como qualificações intelectuais ou aptidões técnicas, mas como a humildade, a pobreza espiritual, o abandono à vontade divina e, sobretudo, o amor.
    • A declaração de que as graças de contemplação são "participações pessoais privilegiadas ao amor divino", que supõem um amor puro e desinteressado, aceitando sofrer para alcançar a união com Deus.
  • A impossibilidade de técnicas e a soberania da Sabedoria divina

    • A advertência contra a pretensão de procurar, por qualquer técnica mental ou psicossomática, a experiência do sobrenatural e a comunicação com Deus próprias da verdadeira contemplação.
    • A orientação para apenas dispor-se na humildade e no abandono, guardando-se de desejos presunçosos, pois "Deus operará na alma quando quiser e como quiser".
    • A interpretação das "graças do beneplácito divino" não como atos arbitrários de um monarca absoluto, mas como regradas pela Sabedoria divina, que rege a implementação de seu Amor universal, motivada por fins que escapam à nossa ignorância.