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id da página: 592 Philippe Lavastine – Desapego

Lavastine Desapego

René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973

M. SCRIABINE. — Poderíeis falar do desapego?

PHILIPPE LAVASTINE. — Para tentar explicar desapego e participação, pode-se dizer que a Índia decaiu quando tomou o desapego ao pé da letra: “Desapega-te de tua esposa e de teus filhos.” Tal preceito pode ser dito àquele que se identifica com a esposa e os filhos, mas não àquele que recebeu a iniciação do chefe de família, que o exorta a não se identificar nem consigo mesmo. No instante em que me identifico comigo mesmo, já não posso ser senhor de mim.

Se devo tomar um trem às cinco horas e me deitei às três da manhã, é certo que, tendo dormido apenas duas horas, estarei cansado. Então há duas atitudes possíveis: ou me identifico com a fadiga, ou me identifico com aquele que deve tomar o trem. Ou me identifico com o porco que deve ser sacrificado, ou me identifico com o sacrificador. Um homem, na Índia, só é verdadeiramente homem se recebeu a iniciação ao grau de sacrificador. Quanto ao Shudra, não se o convencerá; não houve para ele uma segunda nascença, e uma quantidade de homens são Shûdras. Pede-se-lhes apenas que sejam a sombra da grande pessoa e que girem, como o faz a sombra, em torno da grande pessoa — isto é, são tidos como escravos, porque o são. Há aí, portanto, uma perfeita justiça; e libertar escravos enquanto ainda são escravos, libertar os porcos chamando-os de homens, é uma zombaria.

Hoje, a Índia encontra-se em má situação porque as castas foram formalmente abolidas, e se alguém é chamado de “Shûdra”, isso é considerado uma ofensa punível; ao passo que nos tempos antigos, ninguém teria dito “Shûdra” como insulto. Limitava-se a constatar que existiam homens Shûdras, como o foi Lord Russell; seu grande espírito matemático e científico não o impedia de ser Shûdra.

Quanto ao rei, ele é fundamentalmente a árvore da vida. Por isso empunha um cetro ornado de flores, que é um ramo da árvore da vida. O rei deve ser autocrata, o que significa “senhor de si mesmo”. O autocrata é o verdadeiro rei, aquele que não se deixa dominar pela multidão. “Em uma questão duvidosa — dizia Moisés — não deixarás pender a balança sob o peso da multidão. Pois isso é mal.” Moisés agiu segundo o mandamento do Uno. Eis o verdadeiro rei.

Voltemos ao desapego e à participação. A alma carnal, nephesh, deve ser morta na guerra santa, porque sufoca a alma espiritual. É como se o rei se houvesse escondido nas caves enquanto a criadagem festeja em seu lugar. Os Shûdras invadiram o palácio, e será preciso que esse rei, escondido na cave, consiga escapar. Está coberto de laços, acorrentado, mas logra fugir na noite. Lembra-se então de São João da Cruz na Noite Escura. Ele foge e chega ao sótão. Está livre. A compreensão teórica está ali. Ele compreendeu que é o rei. Mas agora deve começar a reconquista.

Não deve arrebentar o teto do sótão e ir-se embora, evaporar-se como o fizeram os discípulos de Shankaracharya, seres tão espirituais que esqueceram a existência de seus países, de si mesmos, de suas famílias — donde a morte da Índia. É preciso que o rei desça, isto é, que o Princípio Divino seja iniciado, introduzido, entronizado. Mas deve-se contar com todas as armas do Príncipe deste mundo, que sente bem que, na presença do verdadeiro rei, elas correm o risco de se tornarem inúteis. Essa descida é, pois, incrivelmente difícil.

Em seu livro A Nuvem sobre o Santuário, Eckartshausen diz que os homens que conheceram o nascimento espiritual são relativamente numerosos — são aqueles que conseguiram recolocar a cabeça na posição correta, e a auréola circunda-lhes a cabeça. Muito mais raros são os que conheceram o renascimento do coração, isto é, a influência divina descendo ao coração: a auréola desce e os envolve até o peito. Quanto aos que conheceram o renascimento corporal, isto é, Deus descendo até os pés, seu número é ínfimo: é a dança de Shiva, o Cristo em majestade na mandorla!