VIDE: LUTA; JUSTIÇA; ORDEM; PAZ
René Guénon: Segundo o estudo do pensamento de René Guénon, de Vicenza, «Dictionnaire de René Guénon»:
Se se pode dizer, como o demonstra muito claramente René Guénon, que a Guerra é a manifestação de uma desordem, isto deve se entender sob um certo ponto de vista somente pois é uma desordem que é de natureza compensatória e que participa portanto a seu nível no restabelecimento da Ordem enquanto tal, sendo entendido que a ordem não é finalmente senão a soma de todas as desordens ou de todo os desequilíbrios. O objetivo da Guerra devendo ser o restabelecimento da Paz, seja a Unidade e a harmonia dos contrários e da multiplicidade, ela possui por este fato um caráter de legitimidade tradicional incontestável, eis porque, desde a Índia onde nos escritos mais veneráveis como o Bhagavad Gita, como no Ocidente no ciclo arturiano, ela está presente como um dever sagrado. Ela exerce igualmente uma função de Justiça, em seu sentido exterior e social, e particularmente quanto ela é dirigida contra aqueles que perturbam ou problematizam gravemente a ordem da coletividade e que infringem as leis que respeitáveis que regem o destino das comunidades humanas. Não se trata todavia, nisto que acabamos de abordar anteriormente, senão da "pequena Guerra Santa" posto que um domínio outro, superior, concerne a "grande Guerra Santa", e se aplica à luta, aquela totalmente interior, à qual deve se dedicar aquele que deseja operar a grande transformação de seu ser a fim de se tornar digna das promessas de Deus. É na luta "contra os inimigos que carrega nele mesmo, quer dizer de todos os elementos que , nele, são contrários à ordem e à unidade", que deve se engajar o homem espiritual. É a princípio a palavra mesma do Profeta que nos ensina por este dito: "Retornamos da pequena guerra santa à grande guerra santa". Por conseguinte a luta descrita na epopeia indiana pondo em cena o deus Krishna e o rei Arjuna, nada mais é que uma espécie de representação do "Si Mesmo" e do "Eu", na qual, escreve René Guénon, "Atma incondicionado e Jivatma, sobem em um mesmo carro, que o "veículo" do ser visualizado em seu estado de manifestação". Esta luta interior tem por função realizar a "Unicidade da Existência, de maneira a que esta se estenda a todos os modos e a todos os graus da Manifestação universal.
- A comparação entre atividade espiritual e guerra santa (jihad) será imediatamente compreendida: estabelecer o sagrado na alma por natureza exteriorizada — dispersa e ao mesmo tempo preguiçosa — necessariamente implica em um combate (agon), e pode-se mesmo afirmar um combate contra o dragão, para usar uma expressão pertencente ao simbolismo da Iniciação. Toda espiritualidade requer consequentemente as virtudes viris de vigilância (nepsis), iniciativa, e tenacidade. Assim, o fervor é uma qualidade fundamental do Homem-Logos. (Excertos de Islamic Spirituality — Foundations, Seyyed Hossein Nasr)
- A questão chave — e inflamável — é a jihad. Literalmente a palavra significa somente "esforço, exerção ou luta" (agon), mas levou o sentido de uma Guerra Santa. ... A verdade é que o conceito islâmico de Guerra Santa é virtualmente idêntico ao conceito cristão de Guerra Justa da lei canônica, até mesmo a noção que os mártires em ambas está seguro de entrar no céu. Em ambos os casos a guerra deve ser defensiva ou combatida para justamente para retificar um erro. O cavalheirismo deve ser observado e o menor dano possível infligido para assegurar o fim em questão. E as hostilidades devem cessar quando o objetivo é realizado. Retaliação não é permissível. (Islam. A Concise Introduction)
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 113
O homem que é ignorante e vítima ao mesmo tempo, acolhe no lugar mais íntimo e santo de si mesmo, a um “eu” falso que por ser um centro limitado, uma ilha, é a origem da dispersão do um em muitos. Este “eu” é objeto de culto pelo homem e em verdade se erige como o grande Adversário do verdadeiro Eu Sou.
Mas ocorre que quando a alma ensaia com assiduidade a conversão (a metanoia) que o Evangelho recomenda como princípio para a busca de Deus, se constitui (a alma) em um reino dividido consigo mesmo. A guerra, ou pelo menos a presunção de guerra, quer dizer, a disjuntiva entre “ser” e “querer ser” (este último é uma forma de “não ser”) emerge como uma conflagração da alma.
- Vim lançar fogo à terra; e que mais quero, se já está aceso? Há um batismo em que hei de ser batizado; e como me angustio até que venha a cumprir-se! (Lc 12:49-50)