Excertos da introdução de André Chouraqui a sua tradução dos Salmos, "Louvores", Imago, 1998
O Primeiro Livro é quase inteiramente consagrado a descrever as peripécias da guerra que o criminoso trava contra o justo. Os dois primeiros salmos nos oferecem desde o início a chave da sinfonia cujos temas nos são todos expostos: os dois caminhos, a revolta das nações contra YHWH Adonai e contra seu Messias, enfim a vitória final do Eleito e a salvação de todos os que confiam nele. Esses temas vão se ligar em séries de salmos que parecem comandados pela ideia de um ensinamento progressivo. Os salmos 3 a 8 nos dão um exemplo notável desses ritmos internos: parte-se da negação, pelo criminoso, de toda possibilidade de salvação (3,3); o justo se insurge e afirma a certeza da vitória de YHWH Adonai (3,6-8). No salmo 4, o justo confia-se a YHWH Adonai e apostrofa os homens: até quando buscarão a iniquidade, perseguirão o ilusório? As posições se endurecem no salmo 5: os criminosos mentem, caluniam, destroem, sangrentos e tortuosos; o justo se apega à certeza de sua esperança, invocando YHWH Adonai. O grito de alarme é mais urgente, mais dramático no salmo 6; Elohims ouve a prece do justo; seus inimigos se transtornam. O salmo 7 resume e conclui essa primeira série; o justo sofre o assalto de seu inimigo; YHWH Adonai exerce o julgamento; o criminoso cai no fosso que ele cava; o justo celebra a justiça do Altíssimo. Segundo um procedimento que reencontraremos ao longo de toda a obra, o tema principal é bruscamente rompido: o salmo 8 coroa o crescendo com um olhar lançado ao esplendor de YHWH Adonai. A análise literária poderia assim ser conduzida em relação aos quarenta e um salmos do Primeiro Livro. O acento dominante é o das dores; o criminoso tortura, esmaga, mata (especialmente no admirável salmo 10), triunfa, sem que ninguém o detenha. O impulso, a esperança sempre a renascer do inocente se deparam com o incessante assalto do inimigo e padecem sob ele. Cada salmo situa com mais precisão as faces da iniquidade e da justiça. Nessa noite, há poucas aberturas, mas luminosas e triunfantes, para a glória de YHWH Adonai; particularmente nos salmos 19 e 30. O conjunto está centrado num tema único: a longa agonia do justo, seus patéticos apelos ao socorro e à justiça de YHWH Adonai, sua luta heroica contra a morte e contra a iniquidade. Dominado pelo envolvente apelo do salmo 22, o livro se encerra junto ao leito miserável onde o justo morre (41).
O Segundo Livro nos introduz num universo dominado por tons mais serenos. O drama da guerra contra o criminoso, dá lugar ao dos exílios do homem, ensinam-nos os doutores. "Como o cervo brama junto às águas dos riachos, meu ser brama em direção a ti, Elohims." Tal é o grito que introduz o primeiro salmo desse Livro. Os sofrimentos do exílio da alma e do povo, o enfrentamento místico do justo e de YHWH Adonai, as alegrias das núpcias reais (45), o regozijo mais intenso do reinado de glória já pressentido; a noite se ilumina, o tom se eleva, uma alegria mais constante se manifesta em cada um desses poemas. Mas nem por isso o sofrimento está ausente: o inimigo interior (49), a falta (51) continuam sendo obstáculos; o caminho do criminoso -, descrito, no entanto, com mais elevação — é ainda o objeto de alguns salmos (53; 58; 64). Retorna-se ainda ao assalto que o inocente sofre da parte do criminoso. A obra-prima da série é sem dúvida o salmo 68, que resume numa linguagem de rara densidade os temas fundamentais da obra: exílio de Israel, intervenção de Elohims, que o arranca da servidão e o conduz através do deserto, assalto furioso do inimigo, guerra escatológica, derrota do inimigo, marcha triunfal sobre Jerusalém, reinado de glória. Tanto a doutrina desse salmo quanto o esplendor antigo de sua expressão fazem dele uma das peças capitais da compilação. O Segundo Livro, após um novo retorno aos sofrimentos do justo (69), à sua espera ansiosa (70), à sua prece para que o reinado chegue (71), termina por uma visão do reinado messiânico que marcará o fim de todos os exílios (72).
Os dezessete salmos do Terceiro Livro constituem a seção mediana, a placa giratória do Saltério. Ela é maciça, estática, uma implacável meditação do passado na expectativa dos fins últimos. O criminoso é aí mais nitidamente o inimigo exterior cuja tentação está, a bem dizer, superada (73). Mas as ruínas se acumulam (74; 79; 83). Com mais intensidade, o justo medita sobre os caminhos do julgamento que ele pede (75; 76; 80; 82; 84-86) e que a infidelidade de Israel retarda. Ele busca na história as razões de sua esperança invencível: YHWH Adonai resgatou o filho de Ia'acob e de Iosseph, conduziu seu povo como um rebanho pela mão de Moshè e de Aharôn (Aarão) (87). Notemos que o longo trecho dedicado à saída de Misraîms, à travessia e às tentações do deserto, às revoltas de Israel, à eleição de Iehouda (Judá)e de David, ocupa exatamente, como sublinha a massorá, o meio do Saltério (78). Após uma nova afirmação da preeminência de Siôn e de Ieroushalaíms (87), esse livro, do qual a angústia não está ausente, termina pateticamente com a agonia do justo (88), a rememoração das promessas feitas a David, das dignidades do Rei-Messias e dos ultrajes que ele sofre (89).
Com o Quarto Livro, o cabo das dores parece franqueado: penetramos na pura alegria dos poderes de YHWH Adonai. A glória de Elohims, sua sublimidade, seu reinado glorioso, a justiça de seu julgamento, o valor expiatório do sofrimento, a libertação cósmica, a alegria de toda a terra, o pastor no meio de seu rebanho, a visão de sua perfeita justiça que venceu o mal: tais são os temas da admirável série 90-101, tradicionalmente interpretada nas perspectivas da escatologia bíblica. O salmo 102 interrompe, contudo, o coro dessa alegria e a prece se eleva, mais intensa, mais trágica, para que cesse a divisão e sobrevenha o tempo último do louvor perfeito. A compaixão de Elohims por aqueles que O amam, seu esplendor no seio de sua criação (104), a certeza do triunfo da aliança feita com Abrahâm, Is'hac e Ia'acob, coroada pela saída de Misraîms, fazem desse livro um puro canto de alegria. Entretanto, como eco ao salmo 102, ele se encerra uma longa rememoração das revoltas e dos crimes de Israel e com a sobre-eminente bondade de Elohims (106).
O Quinto Livro nos faz escalar os últimos píncaros da montanha sagrada. Os três primeiros salmos (107-109) retomam o tema da libertação dos justos e da danação dos criminosos sob a forma de um cântico de alegria, com acentos às vezes terríveis, cantado pelos que franquearam o ponto de inversão da luz. Três outros salmos são consagrados ao eterno sacerdócio do Rei-Messias (110), à glória de YHWH Adonai libertador (111), à atitude dos que reverenciam YHWH Adonai (112). Eles introduzem à gloriosa alegria do Grande Hallèl (113-118). O salmo 119 nos dá as razões dessa alegria que a vida em YHWH Adonai permite, na adoração de seu verbo. As litanias da torá introduzem os novos louvores dos quinze cânticos dos Degraus, os shiré ha ma'alot (120-134). O crescendo prossegue nos salmos seguintes que cantam as grandezas de YHWH Adonai vencedor dos ídolos, criador, vingador e libertador (135-138). O hino da glorificação do homem em Elohims termina com um grito de implacável ódio contra os que odeiam (139). Ele permite uma nova ruptura de ritmo, e últimos apelos às graças e às justiças de YHWH Adonai (140-144), antes dos onipotentes acordes do allegro final (145-150).