Excertos de René-André Lombard, "L'ENFANT DE LA NUIT D'ORAGE". Tradução e notas explicativas de Antonio Carneiro
A CABEÇA REDONDA DO FELINO1 DA TEMPESTADE2
Os líquidos vitais obedecem a ciclos. Eles se inflam e se expandem, se amenizam e se concentram periodicamente: a massa gigantesca do Oceano faz uma demonstração, a mais espetacular, com suas enormes marés, assim como faz o sangue no corpo das mulheres, a seiva na carne dos vegetais. O poder que comanda o ritmo que se revela com evidência em suas metamorfoses «mensais» é a Lua. A importância capital dos fenômenos lunares, resultado de conhecimentos exatos e superstições, misturadas no pensamento humano, ainda não foi suficientemente demonstrada, apesar de tantos livros escritos. Para o que permanece da época clássica grega, ver: Claire Préaux, “La Lune dans la pensée grecque” (Bibl., Royale, Bruxelles).
A Lua é, então, toda e naturalmente soberana dos Líquidos vitais, Água, Sangue, Lava3 , Seiva. Da sua trajetória aérea, comanda o humor da atmosfera e a torna, ou não, fecunda e favorável a esses minúsculos humanos submissos às intempéries. Nem a Tempestade escapa de seu poder.
Ora, o fato mais inquietante é que em sua perfeição de Lua Cheia4 , desenha uma cabeça. Uma cabeça sem corpo, redonda, com olhos estufados colocados no alto, nariz curto e achatado, grande boca aberta e com a língua estirada para fora. Percebe-se sem dificuldade aqui a importância que vai tomar a imagem mítica da Cabeça cortada mágica5 , Cabeça branca, luminosa sobre o profundo da noite, e todos os ritos de decapitação6 que podem se inspirar nisso.
Mas Cabeça Humana ou Cabeça animal? E Cabeça de macho ou Cabeça de fêmea? Sobre este assunto as interpretações variaram durante épocas e lugares, como se podia esperar. Existiram deuses Lua e deusas Lua segundo as estruturas sociais dos grupos humanos e o emprego do masculino e do feminino nas diferentes línguas para «a» designar, é o último testemunho dessas divergências.
De acordo com o espírito animalista que se revela no conjunto da arte pré-histórica, parece que a imagem da Cabeça de Felino fêmea, com as orelhas caídas ou pequenas e redondas, foram impostas muito tempo e em numerosas culturas, para interpretar a Lua Cheia, paralelamente à Cabeça de Pássaro com bico curvo para interpretar a Nova Lua crescente.
Figura rupestre de Gabillou
SEGUE: O EGITO ANTIGO E A LUA
NOTES: