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id da página: 6435 Lugar de todos os lugares

Lugar de todos os lugares

Marcia Sá Cavalcante Schuback — "Para Ler os Medievais"


Consideramos como ponto de partida para ler os medievais a necessidade de se admitir a questão de deus como a grande questão medieval. Por "questão de deus" não se deve entender um questionamento acerca da existência de deus, ou seja, um questionamento no modo moderno da dúvida. A questão de deus que caracteriza o medieval é, fundamentalmente, um querer bem a deus. Um querer bem à condição de tudo o que é. Para o medieval, deus é condição de tudo, é toda condição. Para o medieval, deus está em todo lugar porque deus é todo o lugar, é onipresença.

Como compreender um lugar que é, em si mesmo, todos os outros lugares? O que é, para a religiosidade medieval, o lugar, o espaço? Para responder a essa pergunta, em consonância com a experiência medieval, é preciso partir da questão de deus, da apreensão de um deus que está sempre em toda parte.

Para o espírito medieval, o lugar de deus é o lugar de todos os lugares. Essa expressão indica, primeiramente, que esse lugar não anula a possibilidade de outros lugares. Não se trata de um lugar único, de uma única dimensão, mas de um lugar que acolhe os outros lugares e que se coloca em outros lugares. Na experiência de deus como lugar de todos os lugares, mantém-se a diferença entre deus e todos os lugares possíveis. Só que essa diferença mantém-se dentro de um mesmo lugar, dentro de deus. Para compreender esse lugar de todos os lugares é preciso imaginar um lugar que contenha e permita dentro de si outros lugares. A iconografia medieval está repleta de imagens de círculos concêntricos — um lugar que contém, dentro de si, vários outros lugares. A diferença contida no mesmo.

Se a imagem dos círculos concêntricos pode auxiliar a compreender esse lugar de todos os lugares, deve-se então precisar o próprio dessa concentricidade. A imagem dos círculos concêntricos é imagem de um lugar dinâmico, de um lugar que se aprofunda, que de algum modo continua. Pensando-se na imagem concêntrica de uma pedra jogada no lago ou na percussão de um som, é possível perceber que concentricidade indica um dinamismo e não um lugar parado, prefixado, preciso. É a imagem de um lugar que muda de lugar, de um lugar impreciso. A imagem de um lugar que não tem bem um "onde", um onde começa e um onde termina.

A primeira característica do lugar de todos os lugares é justamente não ter um onde começa e um onde termina. É ser um lugar sem onde. deus não tem começo e não tem fim, não obstante dê começo e ponha fim a tudo o que é e existe. Essa afirmação é inteiramente medieval. Ao apreender deus como o que em si não tem começo e nem fim e sendo deus o lugar de todos os lugares, o lugar de deus não pode se confundir com nenhum "onde". Quando dizemos "onde", dizemos uma determinação, uma posição passível de ser fixada, encontrada, quantificada. O próprio do "onde" é o endereço, o lugar de uma permanência. Nossa representação moderna de lugar está inteiramente plantada na determinação de um "onde", de um sistema de referência espacial capaz de medir, quantificar, determinar, com precisão e objetividade, os vários "ondes" ou posições dos objetos. Esse onde meramente posicional pode, assim, ser encontrado por qualquer um através de um mapa, de um plano, de uma indicação, independentemente de uma experiência. O que hoje chamamos de espaço define-se como um sistema de referência convencional e arbitrário, essencialmente independente do corpo que o ocupa. Para o medieval, no entanto, nada há de mais estranho do que a idéia de um espaço abstrato a partir do qual se marcam e definem os "ondes" das coisas.