GUYON, Jeanne Marie Bouvier de La Motte. Le moyen court et autres écrits spirituels: une simplicité subversive. Grenoble: Jérôme Millon, 1995.
Conhecida pelo seu nome de casada, Jeanne-Marie Bouvier de la Mothe (1648-1617) deixou uma obra escrita considerável e ainda mal explorada. O drama político-religioso no qual ela foi envolvida e que a levou à Bastilha, deixa pairar sobre ela uma suspeita que resiste a uma visão exata dos fatos e torna difícil um acesso sereno à sua história e aos seus escritos. Um conflito “doutrinal” do qual ela foi de certa forma a ocasião e a refém, e onde os critérios de uma ortodoxia abstrata, manejados por homens, os levavam às vezes a se colocar como únicos intérpretes qualificados da “experiência” dos “outros”, sobretudo das mulheres, marca ainda, hoje, uma certa leitura erudita das suas obras. Posta ao banimento da literatura recomendável pela condenação de um pequeno livro de conselhos sobre a oração, conhecido pelas primeiras palavras do título: “O meio curto”, ela aparece mais para alguns como uma desviante do que como uma personalidade de referência. Evoca-se ela muitas vezes, a lemos pouco. Paradoxalmente, reconhecemos com prazer a sua marca na história dos três últimos séculos, mas chegamos com dificuldade a nos questionar sobre a fonte desta influência. [...]
[...] Dos grandes, ela tem a altura e a simplicidade, a penetração e a limpidez, a coragem e a obediência. Como eles, ela explora os limites do espírito humano confrontado com o perigo de morte e de inferno, ela canta o reerguimento e a elevação pelo dom de sabedoria, ela é impulsionada a fazer ressoar a sua chamada e a explicar os seus caminhos e as suas provações. Dos humildes, ela tem as virtudes e o gosto, preferindo às honras de uma rainha, quando tem a escolha, a vida ordinária comum na sequência do seu “pequeno Mestre”, como ela nomeava o Cristo nos seus estados de rebaixamento. Mas a situaremos com prazer também no terceiro tipo. Como os profetas, ela anuncia, às vezes em um estilo de apocalipse, o fim de um mundo e a chance do mundo que vem. Às vezes reclamante sob o peso da provação, mas sempre humildemente orgulhosa, ela permanece de pé, repetindo incansavelmente o “quem é como Deus?” do arcanjo Miguel, lembrando assim a honra de Deus. (Marie-Louise Gondal)